Zootecnista Mateus Paranhos é destaque na Revista Globo Rural

18/03/2014 18:12

Entrevista: "A brutalidade com o boi ainda é rotina"

Mateus Paranhos da Costa, zootecnista, é professor de etologia e bem-estar animal da Unesp Jaboticabal

mateus_paranhos_costa_zootecnista_professor (Foto: Rogerio Cassimiro/Ed. Globo)

"O bem-estar animal é a demanda da sociedade. Ninguém mais quer ver o bicho sofrendo", diz o zootecnista (Foto: Rogério Cassimiro/Ed. Globo)

É  o velho Brasil dos contrastes. Ao mesmo tempo em que é o maior exportador mundial de carne, o que traduz eficiência, qualidade e respeito ao ambiente, convive com práticas cruéis no trato do gado. Segundo Paranhos, de 57 anos, introdutor do tema bem-estar animal no país, uma batalha sem tréguas é travada visando diminuir o assustador índice de hematomas nas carcaças dos bois por conta do manejo desleixado. Sofrem o animal e o caixa da fazenda. De 40 milhões de animais abatidos ao ano, a metade tem ferimentos.

Os alertas e as orientações aos fazendeiros e vaqueiros para dar toda atenção aos bichos são dados pelo professor em simpósios e nas propriedades. Ele diz que a sociedade está  vigilante e o paradeiro ao sofrimento tem de ser apressado.

Globo Rural  O que é bem-estar animal?
Mateus Paranhos  
A definição de bem-estar animal é complexa. Inclusive dentro das universidades há divergências do conjunto de pesquisadores. Cientificamente, acreditamos que é uma característica de cada animal, e isso abre um vasto leque de interpretações. A definição de que eu mais gosto é a do estado do organismo em sua tentativa de se ajustar ao ambiente. Ter conforto na superfície, água, comida, saúde, fuga do estresse e atenção do vaqueiro.

GR  É parecido conosco.
Paranhos  
Diria que é igual!

GR  É enorme o prejuízo causado pelo manejo inadequado da boiada. Dá para estimar a quantidade de animais que se perdem?
Paranhos  
É assustador. Levantamento que fizemos em três anos de pesquisas, acompanhando o abate de 100 mil cabeças, mostra que pelo menos 50% dos animais têm um hematoma na carcaça. Numa projeção, se o país abate 40 milhões de bois ao ano, a metade apresenta ferimentos sérios, ou seja, pelo menos 20 milhões. Gostaria de enfatizar o “pelo menos”, pois  pesquisas com conjuntos menores de animais – até 1.000 cabeças – constatam, às vezes, 70% com hematomas. Trabalhamos com 50% de perdas ao abate, eliminando assim qualquer probabilidade de erro.

GR   Quanto isso dá em dinheiro?
Paranhos  
Numa média, pois tem carcaça em que é encontrado um machucado, enquanto outras estão totalmente feridas, seriam 500 gramas de carne jogados fora por hematoma, totalizando 10 milhões de quilos. Lembre-se que 20 milhões de bovinos são lesionados. A arroba (15 quilos) em São Paulo, no dia 14 de janeiro, estava cotada em R$ 114, o que daria R$ 7,60 por quilo. Considerando-se 10 milhões de quilos desperdiçados, chega-se a um prejuízo de R$ 76 milhões. Só com hematomas. E atenção: 40% dessas lesões não ocorrem durante o transporte ou o abate, e sim dentro da fazenda.

GR   O que fazer para mudar?
Paranhos   
Dar 100% de atenção ao gado. A responsabilidade é do produtor, que deve saber que o animal muitas vezes não tem escolha. É o produtor que tem de fornecer água e comida e também analisar o comportamento do bicho e a temperatura ambiente. Fundamental ainda é ensinar a equipe de vaqueiros a ser menos agressiva, já que a brutalidade ainda é uma rotina. A negligência pode ser fatal e trazer prejuízo, além de influenciar negativamente a imagem da pecuária frente à opinião pública. 

GR  O senhor introduziu no país o conceito de bem-estar animal. Há mais dificuldades em seguir as recomendações por aqui?    
Paranhos  
Eu estava na Inglaterra em 1998, no auge das pressões sobre proteção animal. Os produtores reagiam, mas as forças políticas e das organizações eram poderosas. As pressões levaram o Parlamento a criar leis e regulamentações. Gostaria de lembrar que a discussão sobre bem-estar animal é recente no mundo inteiro. Aqui no Brasil, o processo está sendo mais lento e focado na educação e na informação, e esse caminho demanda  tempo. Não houve imposição.

GR  Mas nós temos normas?
Paranhos  
Temos algumas, como a lei anticrueldade, que é mais antiga. Existe desde os tempos de Getúlio Vargas. Também a do abate humanitário, do ano 2000, que foca o tratamento dado aos bichos de produção em todas as fases do manejo pré-abate e abate. Só que não possuímos ainda um conjunto de regras amplas e detalhadas como a Europa. Mas estamos avançando. O bem-estar é uma demanda da sociedade, que não suporta mais o sofrimento do bicho, e essa questão tem efeito direto no mercado.

GR  E os confinamentos? Eles ocupam menos área, o que é lucrativo e sustentável, porém, há queixas quanto ao bem-estar.
Paranhos  
O confinamento está se transformando numa atividade tão intensificada que as pessoas ficam cada vez mais distantes dos animais. Há plantas nas quais é provável o gado não ver gente durante semanas. O trabalhador passa com o caminhão ou o trator, coloca a ração no cocho e vai embora. Uma das recomendações dadas por nós é: ao mesmo tempo em que é preciso fazer a leitura correta da alimentação, é imprescindível praticar a “leitura” dos animais. Nós já vimos bicho dormindo, a cara ia caindo, caindo e, quando chegava à lama, ele acordava. A presença do homem facilmente detecta um machucado e o animal é levado para tratamento no ato. Além disso, amansa o boi. Outro alerta  é contra a poeira, tão presente nos confinamentos e que causa doenças pulmonares temidas.

GR  E o espaço que o bicho ocupa? É confortável?
Paranhos   
Na verdade, não preconizamos o espaço ideal, e sim tentamos identificar um limite. Agora, diante de um confinamento onde um animal ocupa entre 3 e 4 metros quadrados, alertamos acerca da imagem trágica que será difundida por ONGs. Realizamos um experimento importante em uma planta usando três medidas: 12 metros quadrados por bicho, que é a média nacional, a metade disso e o dobro, 24 metros quadrados. O resultado foi impressionante. Os animais com mais espaço ganharam mais peso e o diagnóstico de problemas pulmonares e renais também mostrou diferença alta.

GR  Uma novidade é que, lá fora, fundos ambientais e do bem-estar animal, assim como ONGs, adquirem ações de empresas e influenciam nas decisões. É isso mesmo? 
Paranhos  
Como eu disse, o desenvolvimento do bem-estar animal foi movido pela lei, pela educação e agora tem foco no lado comercial. Os fundos estão realmente investindo em empresas que tenham um comportamento ético em relação aos animais e ao meio ambiente. Existe também um outro lado. São as ONGs de proteção animal, que têm muito dinheiro de doações e compram ações preferenciais de empresas que lidam com a produção animal. Elas ganham assento no conselho e desfraldam suas bandeiras. São movimentos muito importantes.

GR  Trabalhos científicos mostram que o boi tem memória e expressa sentimentos como os humanos. Vou ao limite, professor, e pergunto: o animal tem alma?
Paranhos  
Eu não tenho dúvida alguma de que os animais têm sentimentos e emoções. Com relação à transcendência para o lado espiritual, aí nós entramos num universo mais complicado. Envolve crenças e religiões. Tem os espíritas, os cristãos, os budistas, os hinduístas. Eu diria o seguinte: não é possível se falar em alma, mas acho também que ninguém tem o direito de desrespeitar a crença do outro. Eu não vou querer provar que não existe alma se não tenho como fazer isso. Quem faz da crença um ato de fé, eu respeito.