Sucesso de atividade leiteira vai além de ajustes nos preços do mercado

17/03/2015 19:25
A atividade leiteira continua sendo rentável e a cada ano, mais produtores.

 

As regiões brasileiras com Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Caatinga, Pantanal e áreas de transição diferenciam-se por diversos fatores como tipo de vegetação, fisionomia e características morfoclimáticas, em comum, a presença da pecuária leiteira em suas propriedades rurais. Conforme dados do IBGE (2013), somente 60 municípios no País não produzem leite e o Anualpec de 2011 colocou o Brasil em segundo lugar em aumento absoluto na produção, entre 2006 e 2010, com 1,3 milhão de toneladas, crescendo 5% ao ano, em uma década. Entretanto, a produção média é baixa, ao redor de 1.400 litros/vaca/ano, posicionando o País em 18o no ranking, atrás de vizinhos como a Bolívia.

 

Conhecimento é a palavra-chave para reverter os números e cenários. Não somente gerá-lo, sobretudo, transferi-lo a quem de fato interessa e o coloca em uso, os bovinocultores de leite. Esse é o objetivo dos especialistas no assunto reunidos esta semana durante a Dinâmica Agropecuária (Dinapec) em Campo Grande-MS, na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Produção intensiva a pasto, manejo de bezerras, qualidade do leite, produção de feno com secador solar e vetscore foram temas apresentados e discutidos com os produtores de várias regiões do Brasil Central.

 

"Produtor de leite ou produtor de carne bovina é um indivíduo que faz agricultura de capim, como capim não tem tanto mercado, ele agrega valor passando pela boca do animal, colhendo leite ou fazendo carne. É um agricultor de capim", enfatiza Leovegildo Lopes de Matos, pesquisador na área há 40 anos. "Como comprar uma vaca, pagando 4 mil reais e afirmar que é um investimento? Se o lucro for dez centavos, o animal produzirá 40 mil litros de leite para pagar? O produtor tem que investir sim, mas o leite tem que pagar a aplicação e há tecnologia disponível para isso", continua o agrônomo da Embrapa. "É vital o aumento de ganho. A produção convencional é de 1.000 litros/ha/ano, com reais possibilidades de atingir de 20 a 30 mil litros/ha/ano. Não falta conhecimento, falta difundi-lo e lembrar sempre que o produtor tem sua bagagem e tem sede de informação, só falta a mesma chegar até ele", completa o técnico agropecuário da Empresa, Danilo Moreira.

 

Intensivão - O uso intensivo de pastagens utiliza a técnica do pastejo rotacionado, permitindo o melhor aproveitamento do pasto, favorecendo a recuperação da forrageira adotada e evitando a degradação da pastagem. Ponto positivo para um País com 170 milhões de hectares de áreas de pastagens, nos quais 70% com algum nível de degradação. Esse pastejo aumenta a taxa de lotação (UA/ha) e a produtividade animal, com maior eficiência da região e redução de custos, viabilizando a produção para as pequenas propriedades, comprovando que "mesmo em pequenas áreas é possível gerar uma boa produção leiteira", salienta Danilo e os resultados de pesquisa da Embrapa a campo comprovam que com essa metodologia a lotação pode chegar a 15 UA/ha/ano.

 

Ele elenca os fatores relevantes para a adoção: "planejamento, gerenciamento profissional, mão-de-obra qualificada, manejo adequado, assim como, instalações, conforto, sanidade e alimentação em quantidade e qualidade" e reforça que se deve trabalhar com animais com aptidão leiteira, pois "não adianta fornecer alimentação de boa qualidade para vaca ruim, nem alimentação ruim para vaca de boa qualidade. Nos dois casos, o resultado será desastroso. Para investir, o mais barato que existe é a pastagem".

 

A técnica consiste em dividir o pasto em áreas de ocupação, quando os animais estão nos piquetes; e de descanso, com o tempo necessário para o crescimento da planta, que varia para cada espécie empregada. O tamanho do piquete difere conforme o número e tipos de animais – vaca, novilha e bezerra, e produção e consumo de forragem. Para ser bem-sucedida, recomenda-se a análise e correção do solo, a adubação das pastagens, a escolha da forrageira correta e o uso de cerca para a divisão dos piquetes. O rotacionado aproveita o pasto, tornando-o uniforme.

 

Manejo de bezerras – Como pensar na bezerra que vai nascer? Produzirá mais que o animal que ordenho hoje? Preocupações que o bovinocultor deve ter ao planejar a criação de bezerras. Escolhas relativamente simples, porém mal tomadas comprometem a atividade. A primeira delas é a matriz e para isso um lembrete valioso: "a galinha poedeira moderna só não é menor que o ovo". A vaca leiteira do futuro tem que seguir o mesmo padrão. Ela é pequena, gasta menos energia e produz. Além disso, responderá como desejado se for bem alimentada, caso contrário, não.

"O futuro é uma vaca que trará não mais leite, mas lucro. A vaca não dá leite, ela o produz em um processo de transformação. A reposição começa a ser planejada antes mesmo do nascimento, quando o produtor define quais animais serão ordenhados de forma mais eficiente futuramente. A preocupação antecipada também define que tipo de touro ou sêmen a ser usado em três anos e meio e qual a raça ou grupamento genético comporão o rebanho futuro", frisa Leovegildo.

 

Após a escolha e o nascimento, os cuidados com a bezerra merecem a atenção, a começar pela ingestão do colostro, fase mais importante do processo. Os bezerros são totalmente dependentes do colostro e o seu consumo os ajuda a adquirir imunidade e está relacionado diretamente ao desenvolvimento das futuras matrizes. Além do fornecimento de leite (balde ou teta), três a quatro litros/dia, a bezerra pode consumir uma ração inicial no cocho, como farelo de soja e milho quebrado, para desenvolver o rúmen e, assim, desmamar mais cedo.

 

O manejo inadequado, finaliza o especialista, traz "menor número de bezerras desmamadas e menor eficiência de seleção de novilhas de reposição, menor número de animais excedentes para a venda, maior taxa de mortalidade e aumento dos custos com medicação e animais com mais problemas de saúde, e menores taxas de progresso genético do rebanho."

 

Higiene – O uso do pasto rotacionado e o manejo de bezerras correto não são as únicas garantias de aumento na produção. A devida higienização é também preponderante. Falhas nessa etapa acarretam a contaminação cruzada, com a ausência do uso da caneca de fundo preto para identificação de mastite; a elevação da contagem bacteriana total, obtida com faltas na higiene de equipamentos e utensílios; a contaminação do leite com antibióticos, dentre outras.

 

Para isso, a Embrapa disponibilizou o Kit Embrapa de Ordenha Manual, uma tecnologia social que melhora as condições de vida e trabalho dos produtores de base familiar. Composta de balde semiaberto, caneca de fundo escuro, balde de plástico (8 L) para armazenamento de água clorada, mangueira de borracha, adaptador para caixa d‘água de ½ (20 mm), adaptador de pressão (preto) de ½, registro esfera de ½ (20 mm), esquicho de jardim de ½, veda-rosca/teflon, filtro para coar o leite, seringa de 20 ml, copinho graduado para medir o detergente em pó, detergente alcalino em pó, cloro comercial, papel-toalha, escova ou bucha natural, banquinho de madeira e par de luvas de borracha, o custo do kit não chega a R$ 150 reais.

 

E segundo o técnico Leandro Ribeiro, "a contaminação do leite durante a ordenha e suas condições de armazenamento até chegar ao laticínio são os principais fatores de perda de qualidade do produto. É uma tecnologia barata e que faz toda a diferença, capaz de reduzir a contagem bacteriana de 800 mil para 130 mil, registrada em estudos da Embrapa".

 

Seca – Algumas regiões do País sofrem anos consecutivos com baixos índices de precipitações. Seres humanos sofrem, plantas e animais acompanham. Todos os animais exigem cinco categorias de nutrientes – água, minerais, vitaminas, proteínas e energia. A água é oferecida 24 horas por dia; os minerais, um sal de boa qualidade no cocho cumpre a missão; e a vitamina é fornecida somente para bovinos confinados e sem exposição ao sol.

Já a proteína e a energia preocupam, mas são passíveis de ajustes. Na seca, a suplementação protéico-energética representa custo e as alternativas disponíveis, como grãos, silos, irrigação de pastagem, capineira, ração, feno e cana-de-açúcar possuem suas peculiaridades. A Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (Emparn) desenvolveu e validou a produção de feno com o uso de secador solar para os pequenos produtores nesse período crítico e os pesquisadores da Embrapa adaptaram a metodologia para o Brasil Central.

 

O zootecnista Frederico Olivieri Lisita explica que, principalmente, onde a seca maltrata a pastagem, a proposta é adotar forrageiras protéicas e regionais, na forma de feno, como bocaiúva, algodão-de-seda, parte aérea da mandioca; as capineiras de capim-elefante; e as leguminosas, como o feijão-guandu e a leucena. O pesquisador detalha que "a planta passa por uma picadeira para forragens e é distribuída em toda a área do secador em camadas de no máximo 10 cm de altura para acelerar o processo de secagem e mantê-lo uniforme. Na região do Pantanal, por exemplo, o material estará pronto em um a três dias. O ponto ideal é quando o material não virou palha e não está úmido para fermentação. É o armazenamento da forragem excedente na estação das águas para um período de carência".  O secador é de fácil manejo, baixo valor e pode-se fenar a qualquer época do ano e estágio da planta.

 

Jairo dos Reis, José Bezerra de Souza e Adélia Lino Duarte são pequenos produtores do município de Dois Irmãos do Buriti, distante cerca de 150 km de Campo Grande, a capital de MS, e vieram à Dinapec para obter tais informações. "Sabemos que não temos o poder de aumentar o preço de compra, hoje, em 0,65 centavos de reais o litro", revela Jairo e "menos ainda temos um valor preciso do quanto gastamos para produzir um litro", completa Bezerra, "mas em nossas pequenas áreas já conseguimos enxergar que não podemos ter pouca produção. Há tecnologias que nos ajudarão a produzir mais e como é bom conhecê-las", emenda dos Reis.

 

Para 2015, a Dinapec foi construída corporativamente com a colaboração da Embrapa Agropecuária Oeste, Pantanal, Soja, Produtos e Mercado, Florestas, Pecuária Sudeste, Acre, Rondônia, Milho e Sorgo, Caprinos e Ovinos, Gado de Leite, Gado de Corte, Agroindústria de Alimentos, Agroenergia, Cerrados, Departamento de Transferência de Tecnologia e Secretaria de Comunicação. Esta 10a edição tem o patrocínio da Unipasto, Senar/MS e Nutrekit e o apoio da Fundação MS, Sindicato Rural de Campo Grande, Secretaria de Estado de Produção e Agricultura Familiar/Agraer/MS, Geneplus, Coimma, Tramasul, Sistema Brasileiro do Agronegócio e AgrobrasilTV.