Resíduos de peixes agregam valor nutritivo e econômico a vários produtos

19/10/2014 18:46

 

Carcaça, cabeça, cauda, vísceras, entre outros resíduos de peixes são matérias primas valiosas, que podem aumentar valor nutritivo de alimentos, fornecer beleza à moda e ampliar resultados econômicos da cadeia produtiva de piscicultura

Imagine consumir Ômega 3 e sais minerais de peixes em biscoitos de polvilho, pão de queijo, macarrão, chips, cookies, sorvete, entre outros, sem sentir a presença deles no paladar.  Isto pode ser feito ao incluir farinhas de resíduos de tilápia, salmão, atum,  sardinha, etc,  na elaboração das massas destas guloseimas.

 
Além de agregar valor nutritivo a produtos que geralmente não possuem proteínas nem sais minerais, apenas carboidratos, o aproveitamento de carcaças, cabeças, caudas, restos de filetagem, gerados no processo de beneficiamento de peixes, significa reduzir o impacto ambiental  no descarte. Resíduos de peixes não são lixo e podem ser matéria-prima para diversos produtos alimentícios, roupas, sapatos, bolsas e artefatos em geral. A saúde das pessoas, a moda e a cadeia produtiva de piscicultura saem ganhando.
 
“O custo do aproveitamento dos resíduos de peixes em produtos é baixíssimo, e se for colocado no mercado, a aceitação é certa”,  garante Maria Luiza Rodrigues de Souza Franco, doutora em Aquicultura,  mestre em Zootecnia,  professora  e pesquisadora do Departamento de Zootecnia da  Universidade Estadual de Maringá (PR).
 
 
Ela foi um dos palestrantes, nesta manhã (17),  no Seminário Técnico Peixes Nativos de Água Doce, realizado pelo Sebrae MT em parceria com Aquamat (Associação dos Aquicultores do Estado de Mato Grosso) e Senar MT (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Seminário Técnico e Feira Nacional de Peixes Nativos de Água Doce prosseguem até amanhã (18), em Cuiabá.
 
A Universidade Estadual de Maringá (UEM) é referência no país em aproveitamento de resíduos de peixes como matéria-prima valiosa por diversos segmentos industriais e a professora é reconhecida como autoridade no assunto. Avaliações científicas, nutricionais e sensoriais são feitas, antes de colocar os estudos disponíveis para o mercado e consumidores. Alguns deles são patenteados pela UEM.  Maria Luiza coordena equipe de pesquisa e desenvolvimento  do aproveitamento dos resíduos de peixes na universidade e dissemina os conhecimentos, há mais de 30 anos, em palestras e cursos ministrados em Maringá e em várias regiões do país.
 
“Pesquisas realizadas no Brasil e outros países demonstram que peles de peixe podem ser aplicadas em diversos produtos”, afirmou Maria Luiza. Tilápia, pirarucu, tambaqui , tucunaré, pacu, piraputanga e outras espécies de peixes se transformam em belos insumos para roupas, sapatos e bolsas de alto valor agregado, informou.
 
O curtimento das peles de peixes pode ser ecológico ou a base de sais de cromo e o tingimento fornece as cores desejadas aos produtos. Na finalização do processo, são utilizados óleos que lubrificam e dão maciez ao couro. A beleza de cada espécie valoriza os artefatos, ressaltou a professora.
 
A pele dos peixes de água doce é mais resistente do que as espécies marinhas, como também da pele bovina, que domina o mercado de couro e calçados. O alto teor de hidroxiprolina é responsável pela resistência da pele de peixes de água doce, esclareceu Maria Luiza. Trata-se de um mercado enorme, que pode ser muito melhor explorado pela cadeia produtiva de peixes do país, observou.
 
Nutrição
 
A pele de peixe pode se transformar em saboroso torresmo. A da tilápia é bom ingrediente para esta delícia, que pode ser degustada junto a cervejas e bebidas geladas. O processo de defumação faz o torresmo de peixe ficar bem parecido com o torresmo suíno, porém com alto teor de Ômega 3, bem mais saudável.
 
Gelatina é outro produto que pode ser gerado a partir do colágeno de peixes, também presente na pele dos animais.  É uma boa alternativa para vegetarianos e pessoas que não consomem carne bovina.
 
Fishburguer, quibe, coxinha, croquete, massas, salame, kafta e linguiça são outros exemplos de alimentos possíveis de serem fabricados, a partir da farinha das aparas defumadas de peixes. Este ingrediente também pode ser misturado ao hambúrguer bovino e, com isso, aumentar o consumo de proteína de peixes por pessoas que não apreciam seu paladar.
 
Até animais domésticos podem consumir  e serem beneficiados pela proteína animal oriunda de resíduos de peixes, segundo Maria Luiza. Em parceria com uma fábrica de sorvetes de Maringá, a Gela Boca, a UEM desenvolveu um produto especial para cães e gatos. Trata-se de um sorvete para animais domésticos que contém farinha de tilápia e atum. “ A cachorrada adora”, brincou a professora e pesquisadora.
 
Doces também não escapam do aproveitamento dos resíduos de peixes. Por meio de técnicas de produção desenvolvidas e testadas pela universidade paranaense,  diversas farinhas de peixes marinhos e de água doce foram viabilizadas. Óleo defumado de peixes é outro produto desenvolvido e patenteado pela UEM.
 
As farinhas de peixes podem ser agregadas a biscoitos, cookies, massas, pães, entre outros, visando aumentar o teor proteico de alimentos que apenas fornecem carboidratos às pessoas. Crianças e idosos são os principais beneficiados por alimentos que contêm tais farinhas. A professora e pesquisadora garantiu ser possível acrescentar até 15% de valor nutritivo com valor proteico animal, sem que os consumidores percebam o gosto de peixe.
 
A professora e doutora da UEM foi assediada, ao final da palestra, por interessados em montar parceria, participar de cursos e viabilizar projetos de aproveitamento de resíduos de peixes em várias regiões do país.