Ranicultores criam pacote de integração

08/03/2014 16:34
Crescimento do consumo de carne de rã possibilitou criadores a idealizarem o pacote, com venda e garantida da produção
O Estado de S.Paulo

Apostando na retomada do mercado da carne de rã no Estado de São Paulo, os sócios Arthur Lobes Neto e Leandro Di Pietro decidiram investir num sistema de integração para a produção desses anfíbios comestíveis. O ranário Ranaville, instalado há cinco anos no bairro de São João Novo, em São Roque, produz 3 toneladas de rãs vivas por mês, mas está sendo ampliado para uma produção de 11 toneladas mensais. A maior parte dessa rã, no entanto, será engordada em ranários integrados. Para processar toda a produção, os sócios investem na construção de um abatedouro que será o primeiro frigorífico com inspeção federal do Estado. O ranário já fez a entrega de filhotes para os primeiros integrados, mas o negócio vai ganhar a proporção ideal quando o frigorífico estiver funcionando. A previsão é de entrar em operação ainda este ano, em meados do segundo semestre. Os parceiros vão receber as rãzinhas com peso entre 30 e 50 gramas e elas serão retiradas pelo Ranaville para o abate pesando em média 250 gramas.

 - Epitácio Pessoa/AE

Exportação. O frigorífico será credenciado para exportação de carne e pele. O sistema é semelhante ao usado na integração de granjas de frango. O integrado pode optar por receber os filhotes, ração e assistência técnica e entregá-las ao integrador no ponto de abate, sendo remunerado pelo seu trabalho e uso das instalações.

Outra opção para o integrado é adquirir os filhotes, fazer a engorda por conta própria e depois revender as rãs gordas para o frigorífico.

O zootecnista Luiz Alberto Cação Júnior, que toca a produção no Ranaville, diz que a estrutura será a de uma "fábrica" de rãs. "Hoje temos 20 casais no setor de reprodução e eles seguem as regras da natureza, mas podemos induzir a produção de ovos." Com o uso de hormônios e temperatura controlada, pode-se obter desovas - e produção - o ano todo. Nos meses fora do inverno, o macho canta chamando a fêmea, escolhe uma delas e dá o abraço que resulta na fecundação.

Assim que ocorre a desova, um técnico agrícola recolhe os ovos e os coloca sobre placas para que ocorra a eclosão. Os girinos são contados e levados para um tanque de crescimento. Assim que surgem as patinhas, os animaizinhos são transferidos para os tanques de metamorfose. Até essa fase, tudo é feito em tanques com água em ambiente de estufa. Somente depois que os girinos perdem a cauda, transformando-se em imagos, é que eles são levados para as baias com partes secas.

Na fase de girino, a alimentação usada é a mesma dada aos alevinos (filhotes de peixes). Assim que vão para as baias, os filhotes passam a receber uma ração especial misturada com larvas de mosca. A ração é servida num cocho de fibra de vidro, na parte seca do recinto.

Moscas. As larvas têm um papel importante: como a rã é um predador e se alimenta de seres vivos, elas se movimentam no meio da ração e induzem os anfíbios a consumirem também esse alimento.

As larvas são produzidas num moscário em outro local da criação e, segundo Cação, é um processo autorizado pelos órgãos sanitários. "As moscas são alimentadas com açúcar e leite em pó."

O zootecnista explica que as rãs só comem larvas na fase de 30 a 50 gramas. Daí em diante elas vão para as baias de engorda, também chamadas de baias-piscinas, pois permanecem quase sempre inundadas.

Elas são esvaziadas apenas para a limpeza diária. A alimentação das rãs é feita com ração extrusada de peixes carnívoros, com 40% de proteína bruta, pois não existem rações balanceadas e específicas para ranicultura no mercado. Como a ração é flutuante, o movimento das rãs na água faz com que o alimento também se mova, estimulando o consumo. O sistema de alimentação por larvas foi desenvolvido na Universidade Federal de Viçosa (UFV), pelos pesquisadores Claudio Angelo Agostinho e Samuel Lopes Lima. Agostinho, hoje, é o responsável pelo setor de Aquicultura da  Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu (SP).  

Enquanto o frigorífico não fica pronto, a produção do ranário é vendida viva para compradores do Rio Grande do Sul e para um abatedouro de Atibaia, cadastrado no Sisp, o Serviço de Inspeção Estadual, que certifica sanitariamente a produção e permite que a venda seja feita dentro do Estado de São Paulo.

Há apenas mais um abatedouro de rãs em São Paulo, na cidade de Santa Bárbara do Oeste, próximo a Piracicaba, com cadastro no Serviço de Inspeção Municipal, que permite, porém, que a produção seja comercializada apenas nos limites do próprio município.