Qual a relação entre zootecnia de precisão e bem-estar de vacas leiteiras?

17/06/2015 17:07

MilkPoint - O ponto de encontro da cadeia produtiva do leite

Atualmente, a Agropecuária está sendo duplamente pressionada para atender à demanda de alimentos para a crescente população humana e reduzir os efeitos das mudanças climáticas tornando-se ao mesmo tempo mais eficiente e mais sustentável. De acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura de 2013 (FAO) sobre combate às alterações climáticas através de pecuária as emissões de gases de efeito estufa associados à esta atividade podem ser reduzidas em no mínimo 30%, e por outro lado, a demanda produtos de origem animal continua a crescer, como podemos acompanhar o apetite voraz da China por leite e derivados.

Para atender a esta demanda de maneira eficiente, mais animais serão criados em menor área, com menos alimentos, menor desperdício e menos água, ou seja, em sistemas de criação mais intensificados. E o que isso significa para o bem-estar dos próprios animais?

A necessidade de tornar a produção animal ainda mais eficiente não é desculpa para condicionar os animais em sistemas que são os maiores causadores dos problemas de bem-estar, tais como as doenças metabólicas e as afecções de casco nas vacas.

Uma ferramenta para alcançar esta produção eficiente é a zootecnia de precisão, que busca soluções de gestão baseando-se na tecnologia da engenharia de processos principalmente através do uso de sensores para monitoramento de animais e de características bioclimáticas. O objetivo da zootecnia de precisão deve ser atuar para a redução da mortalidade, redução de perdas e manutenção dos animais em condições que os tornam menos propensos a serem feridos ou sucumbirem a doenças, condições as quais, muitas vezes, são exatamente as que melhoram o bem-estar dos animais.

Melhorar a qualidade do aratravés de uma boa ventilação ou a instalação de um piso de qualidade, por exemplo, são fatores que diminuem o risco de redução do nível de bem-estar animal, e ainda podem resultar em um melhor e mais seguro produto final, o leite.

É importante que novas tecnologias sejam desenvolvidas juntamente com a indústria e com os produtores avaliando se realmente as melhorias estão de acordo com as necessidades, possibilitando a visualização dos resultados e permitindo que ajustes sejam realizados para a melhor adaptação aos diversos sistemas de produção.

Filmagens dos animais associadas a softwares de interpretação de imagens já se mostram eficientes para identificar vacas com problemas de casco em estágio inicial, detectar padrões de comportamentos que possibilitem identificar vacas em cio, primeiros sinais de pré-parto ou até mesmo sintomas precoces de doenças. Tudo isso pode estar interligado e ser acessado por um smartphone, através do qual mensagensde alerta e relatórios diários podem ser recebidos. Essas informações também podem estar diretamente ligadas aos sistemas de portões automáticos direcionando os animais para grupos ou manejos específicos.

A detecção de problemas de saúde e de bem-estar animal em uma fase precoce tem grande importância também para o produtor, pois favorece a realização de intervenções necessárias antes que o problema se agrave. Podemos citar também que propicia a redução do uso de antibióticos e de outros medicamentos utilizados na pecuária leiteira já que seriam usados apenas quando realmente fossem necessários. Não podemos esquecer que não há câmera ou smartphone que substitua um bom olhar humano, mas permite um olhar extra para quando e onde não se pode estar presente ou ainda quando a comunicação entre os seres humanos é falha. O que realmente importa é a tomada de decisão e a atitude do produtor frente a todas estas informações.

Evidentemente, bem-estar animal e pecuária leiteira eficiente nem sempre coincidem de modo perfeito. Sempre haverá melhorias em bem-estar animal que não necessariamente serão interessantes em termos comerciais, assim como haverá ganhos eficientes que poderão ser inaceitáveis para o público que defende o bem-estar animal, como aglomerar animais em pequenas áreas. 

Outro fator importante a ser citado é que o produtor deve poder viver daquilo que faz, logo, a zootecnia de precisão que tem os fatores saúde e bem-estar animal entre seus objetivos não pode deixar de considerar a realidade da produção animal em um mundo de escassez de recursos alimentícios, demanda em crescimento, pressão sobre o uso da terra.

Essa abordagem que relaciona o bem-estar animal e a pecuária leiteira comercialmente eficiente, não retira argumentos éticos que o bem-estar animal deve ser apoiado, pois tem valor ético em si mesmo, mas reforça e consolida-os. Tratar dos benefícios financeiros que o bem-estar animal traz para os seres humanos mostra que não se deve apenas esperar melhorias através da pressão dos consumidores.

Fazer do bem-estar animal uma prioridade na pecuária leiteira eficiente é muito mais provável de ser alcançada se ele puder ser firmemente ligado à segurança alimentar, saúde animal e humana e competitividade financeira. 

Este artigo foi baseado em: Dawkins, M.S. Precision farming and animal welfare. Science of Parliament, Vol 71 No 3 (2014).

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