Por uma vida mais calma

26/06/2013 18:31

Zootecnista é destaque na Revista Casa e Jardim.

Casa e Jardim

Desapego, orgânico, sustentável. Estas palavras, tão em voga, são levadas ao pé da letra pelos moradores desta casa-contêiner de 130 m² em Brodowski, SP

TEXTO MARILENA DÊGELO | REALIZAÇÃO NURIA ULIANA

 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A primeira impressão é de que o tempo parou na  fazenda  de 150 anos em Brodowski, interior de São Paulo. Mas logo se percebe que lá ele anda no ritmo certo. O gerador de energia eólica, no ponto mais alto da área de 350 hectares, é a promessa de bons ventos para abastecer o local. Poucos metros adiante, no meio de uma imensidão verde, tumbérgias quase camuflam uma pequena construção que mistura aço inox, pedras e vidro. Nela mora o casal Ana, 33 anos, e Rafael Borges, 42, com as três filhas, mais uma cachorra e uma família de gatos.

 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

    Há dois anos, eles escolheram esse cenário para criar as meninas e iniciar nova história na fazenda – focada em produtos orgânicos de leite de búfala com a marca Gondwana –, que busca resgatar antigos valores sem abrir mão das altas tecnologias. De área útil, a casa tem 130 m2. Detalhe: as duas suítes são contêineres reaproveitados. Somente a cozinha e área de serviço possuem paredes de alvenaria de pedras colhidas na fazenda e de tijolos de demolição. No meio, o espaço, fechado nas laterais por painéis de vidro, reúne salas de estar e de jantar. “A gente sempre quis uma casa pequena”, diz Rafael, que é formado em zootecnia. “Não precisamos mais do que isso para ter qualidade de vida.”

 (Foto: Lufe Gomes)
 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Isso é verdade considerando a paisagem que cerca a construção, atravessa a sala e pode ser vista de todos os cômodos por janelas em pontos estratégicos. Foram exatamente a possibilidade de olhar o tempo todo para o horizonte e a calma que ele transmite as razões que levaram a mudança da família para a casa. No início, o arquiteto Jorge Siemsen fez o projeto para ser a moradia do queijeiro do laticínio da fazenda. “Eu quis que a casa tivesse leveza e se encaixasse nas linhas horizontais da paisagem”, explica Jorge. “Com os contêineres apoiados somente nos extremos, se formou embaixo o vão livre que contrabalança com a parede de pedras e conversa com a transparência da sala.”

 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No final da obra, Rafael gostou tanto do resultado que convenceu Ana a viver ali. “Pensei que seria difícil porque, afinal, nossa primeira casa seria de contêineres. Mas ela encarou o desafio”, diz o morador. Desde que se casaram, em 2005, eles moravam na casa sede da fazenda, construída há 140 anos pelo bisavô de Rafael. Lá nasceramJoana, 6 anos, e Marina, 4. O casarão colonial de 800 m2 não é prático para quem tem crianças, segundo o morador: “Tudo era longe. Aqui damos dois passos e estamos no quarto das meninas.” Entre os dois contêineres – cada um dividido em quarto e banheiro –, foi criado corredor com piso de madeira e teto de vidro. Tudo fica apoiado em dois muros de pedras brutas. “Joana faz escalada nas pedras”, conta Ana, que, depois da mudança, teve Carolina, de 1 ano.

 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Formada em ciências contábeis, ela “abraçou a causa do marido” desde que o conheceu, há 10 anos. Na época, ele iniciava a criação de búfalos e havia herdado a gleba da fazenda, onde emprega as técnicas de agricultura orgânica que aprendeu na Austrália. Ana ajuda o marido nas finanças. O escritório da Gondwana fica no prédio da ordenha, a 180 metros da casa. Com a internet, muitas vezes, ela trabalha na mesa de seu quarto e, assim, pode cuidar melhor das crianças. “É bom ter mais de uma filha quando se mora em local isolado. Aqui está sendo fácil criá-las porque elas ficam à vontade”, afirma.

 (Foto: Lufe Gomes)
 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das diversões das meninas é a piscina, feita na fachada voltada para o vale. “Estou ensinando elas a nadarem aqui. Antes se aprendia tudo em casa”, diz Rafael, cujo avô tinha na fazenda uma marcenaria, que ele restaurou para fazer os caixilhos e todos os móveis com madeiras de árvores caídas na fazenda. A exceção é o sofá que era de seu apartamento de solteiro.

 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para tornar a casa aconchegante, eles capricharam nos acabamentos. O assoalho de cumaru está nas áreas secas. E ladrilhos hidráulicos revestem a cozinha. Na sala, uma parede tem mosaico de pedras basalto e, a outra, pintura de tom intenso. Somente o quarto das meninas recebeu tinta branca. “O nosso ficou na cor do aço porque gostamos”, diz Ana. Para agradar as meninas, os espelhos das tomadas são pink. Em todos os cantos, peças de artesanato recordam as viagens de Rafael por tribos da Amazônia e pela África. “Mas não gosto de acumular muita coisa em casa”, diz o morador, que transformou o porão em quarto de hóspedes. Ali, eles sempre recebem missionários e universitários interessados na fazenda orgânica, ou simplesmente, em descansar na calma de lá.

 (Foto: Lufe Gomes)
 (Foto: Lufe Gomes)
 (Foto: Lufe Gomes)
 (Foto: Lufe Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Simplicidade e equilíbrio

“Vivemos da maneira mais simples possível. A casa tem as medidas certas para o início de família. O fato de ter tudo perto e das duas suítes serem bem próximas facilita com as meninas, que estão na fase de pegar no colo, levar à noite ao banheiro. O conceito é de ser sustentável em tudo. Colocar as mãos na terra, comer os produtos daqui, colhidos na horta e no pomar. É bom ver as crianças livres indo buscar leite no curral e escalando as pedras das paredes. Construímos a casa descobrindo aos poucos o que precisava ser feito: os acabamentos, os móveis. O contêiner foi escolhido pela funcionalidade. Não precisa de telhado porque a cobertura é feita para tomar chuva e faz um barulho agradável. Em nosso quarto, abrimos a janela na altura que dá para ver a paisagem da cama. Por último, fizemos a piscina para as crianças aprenderem a nadar e o terceiro quarto, embaixo, para receber as visitas. Desde o começo não queríamos que a casa interferisse muito na paisagem. O gostoso dela é ser aberta, com a natureza entrando aqui dentro.” Rafael.

 (Foto: Lufe Gomes)