Piscicultura, a “revolução azul” com procura maior que a oferta no Brasil

01/04/2016 17:04

A Brazillian Fish e a Ração Raguife  (junção das iniciais dos nomes dos três irmãos Ramon, Guilherme e Felipe – respectivamente, zootecnista e veterinários), surgiram da visão empreendedora do zootecnista  Antônio Carlos Lopes do Amaral,  produz 100 toneladas/mês de filè de tilápia, que são vendidos em sua forma in natura para 6 estados brasileiros e exportado para outros países.

*Por Antônio Oliveira

Prossigamos com nossa série de reportagens pelo “Brasil que produz, o do agronegócio”.

O Brazilian Fish produz 100 toneladas/mês de filè de tilápia, que são vendidos em sua forma in natura para 6 estados brasileiros e exportado para outros países. (Foto: Cedida pela empresa)O Brazilian Fish produz 100 toneladas/mês de filè de tilápia, que são vendidos em sua forma in natura para 6 estados brasileiros e exportado para outros países. (Foto: Cedida pela empresa)

Na edição anterior (Especial (I)), falamos sobre a visita do, chamemos aqui, “Grupo dos 17” jornalistas de agronegócio de 9 estados brasileiros a empresas e instituições das cadeias da pecuária de corte e do peixe, bem como a duas instituições com suas atenções voltadas para o agronegócio no Brasil e no mundo.

Nesta edição, reportaremos dois projetos verticais de piscicultura da tilápia nos municípios de Santa Fé do Sul, interior de São Paulo, e Aparecida do Tabuado, no interior de Minas Gerais, ambas às margens do Lago da Usina de Ilha Solteira.

O Brasil produziu 170 toneladas de tilápia em 2013.(Foto: Da Empresa_O Brasil produziu 170 toneladas de tilápia em 2013.(Foto: Da Empresa_

Mas, antes, vamos saber um pouco de como está este segmento do agronegócio no Brasil, lembrando que o termo piscicultura define todas as modalidades e cadeias do pescado. Pesca, define a extração do peixe de seu ambiente natural – rios, lagos, lagoas e mar -; aquicultura, o cultivo em cativeiro, como em tanques escavados na terra; reservatórios sobre  o solo e tanques-redes (ou gaiolas) em águas de rios ou lagos.

Neste material, nós vamos falar de aquicultura e, digamos assim, o “aquinegócio” da tilápia.

Pela ordem, em estimativas  de 2013, os peixes mais criados no Brasil são a tilápia, com produção de 169, 3 tonelas (ton),  ou 41% de todos os peixes cultivados no Brasil; tambaqui, com 88, 7 ton ou 22,6%; tambacu/tambatinga; 60,4 ton, ou 14,5%; pintado, cachara, cachapira, pintachara e surubim, 18,8 ton, ou 6,3%; carpa, 15,7 ton ou 5%,  e outros peixes, 10,6%. Produção de mais ou menos 400 ton.

Planta da GeneSeas, em Aparecida do Taboado, MS. (Foto: Altair Albuquerque)Planta da GeneSeas, em Aparecida do Taboado, MS. (Foto: Altair Albuquerque)

De acordo com estudos do Rabobank, a produção de pescado, até 2022, pode se transformar numa nova fronteira de proteína animal no Brasil, com a produção se duplicando, ou seja, chegando a 960 mil ton.

O valor de toda esta produção, em 2013, foi de R$ 2,02 bilhões.

Ainda de acordo com o Rabobank, a demanda por  pescados cresce em todo mundo, principalmente no Brasil, que ainda importa muito para suprir sua demanda.

O cultivo de peixes no Brasil está assim distribuído por regiões e estados:

Centro-Oeste,  produz 26,8% do pescado de cativeiro; Sul, 22,4%; Nordeste, 19,5%; Norte, 18,6% e Sudeste 12,8%,

Os principais estados produtores são:

Mato Grosso, com 19,3%; Paraná, com 13%; Ceará, com 7,8%; São Paulo, 6,8% e Rondônia, 6,4%.

A  fronteira paulista/sulmatogrossense da tilápia

Vacinação de juvenis de tilápia. A Brazilian Fish vacina 15 mil/dia. (Foto: Antônio Oliveira)Vacinação de juvenis de tilápia. A Brazilian Fish vacina 15 mil/dia. (Foto: Antônio Oliveira)

Agora, continue comigo, neste giro maravilhoso pelo mundo do agronegócio, no seguimento do peixe.

Após deixarmos a pujante cidade de Campinas, no interior de São Paulo, rumamos para a cidade de Santa Fé do Sul, no extremo noroeste paulista, a  500 km do nosso ponto de partida, onde pernoitamos, após sermos recebidos pelo presidente da Associação Brasileira de Piscicultura – Peixe BR, sócio diretor das empresas de ração e beneficiamento de tilápia (Aquafeed e GeneSeas), Eduardo Amorim.

A cidade tem o peixe como como um de suas estratégias para atrair turistas. (Foto: Prefeitura da cidade)A cidade tem o peixe como como um de suas estratégias para atrair turistas. (Foto: Prefeitura da cidade)

Cidade com pouco mais de 30 mil habitantes, é bem urbanizada, limpa e repleta de monumentos alusivos às suas bases econômicas, como a pesca amadora e a aquicultura, praticadas no Lago da Usina de Ilha Solteira (represamento do Rio Paraná). Destaque, também para o obelisco dos 60 anos do de criação do município.

Monumento em homenagem aos 60 anos de emancipação do Município. (Foto: Antônio Oliveira)Monumento em homenagem aos 60 anos de emancipação do Município. (Foto: Antônio Oliveira)

Suas atividades econômicas, com predominância no turismo e na piscicultura, garantem boa qualidade de vida e baixo índice de desemprego em relação ao atual contexto social e econômico do Brasil.

Vista parcial da planta da Aquafeed. (Foto: Altair Albuquerque)Vista parcial da planta da Aquafeed. (Foto: Altair Albuquerque)

No dia seguinte, a primeira visita foi ao complexo industrial da Aquafeed e GeneSeas, respectivamente, uma fabrica de ração para a nutrição de tilápias, e um frigorífico, ambos no município sulmatogrossense de Aparecida do Taboado, do outro lado do Lago. As duas empresas pertencem ao grupo da família Amorim, líder no mercado brasileiro de tilápia. Neste município, esses empreendedores têm  fazendas de engorda. O Grupo tem uma planta frigorífica em Promissão (SP) com capacidade para 8 mil toneladas/ano.

A planta industrial da Aquafeed, que será inaugurada no mês de abril, tem capacidade para a produção de 3 mil toneladas/mês e 36 mil toneladas/ano, total suficiente para alimentar mais de 22,5 mil toneladas de tilápia, segundo  Eduardo Amorim.

A fábrica atenderá a própria demanda do grupo na região e o excedente a ser fornecido para os mais de 50 pequenos aquicultores no entorno das duas plantas industrias, muitos deles fornecedores de peixe para o GeneSeas.

Canal de transporte da tilápia viva até ao processo de abate. (Antônio Oliveira)Canal de transporte da tilápia viva até ao processo de abate. (Antônio Oliveira)

A planta está equipada com o que há de mais tecnológico para a produção de ração no Brasil. Ela não apenas estará ocupada com a fabricação mas também com todo o processo de qualidade por meio, na própria unidade, de laboratórios para análises físicas, químicas e sensoriais. Também será feito o monitoramento das análises bromatológicas, físicas, químicas e microtoxinas.

Já o frigorífico, funcionando em fase experimental, absorvendo a mão-de-obra de mais de 50 pessoas, tem 2.500 m² de área construída, com reserva de espaço para a fabricação de produtos que agregam valor à produção.

Com equipamentos de última geração, a planta da GeneSeas em Aparecida do Taboado tem capacidade para o abate de 20 mil toneladas/ano e tem projeto de ampliação 3 vezes mais ao seu atual tamanho.

Sua capacidade de armazenamento, conforme nos informou  Breno Davis, diretor do GeneSeas, será de 130 toneladas de filé de tilápia congeladas e 30 toneladas frescas.

A expectativa desta nova planta é gerar, de imediato, mais de 200 novos empregos diretos para os dois municípios, além de gerar novas oportunidades para os produtores locais de tilápia, fomentando a produção e gerando mais empregos e rendas na região.

A nova planta está projetada para trabalhar de forma integrada, incorporando toda a cadeia de valor desde a fase juvenil da espécie, até a engorda, processamento e distribuição, nos mercados nacional e internacional, alcançando mais de 2 mil clientes ativos.

Crescimento do setor

Falando na condição de presidente da Peixe BR, o empresário Eduardo Amorim disse que,  possivelmente,  nos próximos dez anos,  o consumo de peixe no Brasil e no mundo ultrapasse o consumo de carne de suínos.

Eduardo Amorim: "Muito a fazer ainda pela piscicultura no Brasil". (Foto: Altair Albuquerque)Eduardo Amorim: “Muito a fazer ainda pela piscicultura no Brasil”. (Foto: Altair Albuquerque)

Ainda conforme ele, a região de Aparecida do Taboado e de Santa Fé do Sul deve registrar nos próximos dez anos um crescimento anual de 20% na produção de tilápias, o que deve elevar o atual consumo de rações na região que e de 60 toneladas. A ração, com base no milho e no farelo de soja, representa cerca de 70% dos custos da engorda da tilápia.  A conversão alimentar é de 1,6 quilo para 1 quilo de filé.

Eduardo Amorim justifica a localização de seucluster (verticalização e integração de uma cadeia produtiva), o fato de a região está próxima a outras com farta produção de milho e soja; abundância de rios com a produção de peixes se concentrando principalmente no Rio Paraná e no Lago formado por este.

Atualmente, conforme explicou para os jornalistas, a região conta com três unidades de produção de ração – uma delas parou suas atividades recentemente, mas dizem ser provisório -, quatro frigoríficos e mais de 50 pequenos e médios produtores de tilápia.

Ainda conforme o empresário, a cadeia do peixe vai se aperfeiçoar ainda mais, tornando-se mais competitiva.

– A aquicultura está passando pelo mesmo processo de profissionalização que a avicultura vivenciou na década de 1970. Hoje, entre zero a dez, a avicultura é nove e a aquicultura é dois – comentou.

Ele lembrou ainda que enquanto as outras proteínas crescem em média 2% ao ano, a do peixe oscila entre 12% e 17% ao ano. Ainda conforme ele, o setor estar recuperando o tempo perdido.

Como em toda atividade econômica, a cadeia do peixe também passa por dificuldades em consequência da falta de profissionalização  e organização e, pior ainda, a dificuldade na obtenção da licença ambiental para a implantação de projetos de criação de peixes.

A titulo de exemplo, ele lembrou que em São Paulo, apenas dez, dos 2.500 aquicultores, têm licença ambiental para trabalhar. Isto, disse, exclui os produtores das linhas de crédito do Governo Federal.

A Peixe BR congrega as maiores empresas de piscicultura no Brasil, contando com filiados em todos os estados com importância no setor. Esses representam  mais de 80% dos negócios de peixes cultivados no país.

– Temos plena consciência dos desafios da piscicultura brasileira, mas também conhecemos o seu potencial de geração de empregos, renda e divisas, não só para os envolvidos com a atividade, mas também para todo o país – pontuou.

Do filé para exportação a pururuca de tilápia

Ramon Amaral: verticalização de toda a cadeia produtiva. (Foto: Antônio Oliveira0Zootecnista Ramon Amaral: verticalização de toda a cadeia produtiva. (Foto: Antônio Oliveira0

Da tilápia nada se perde, tudo se aproveita  e se consome na culinária, na indústria farmacêutica, na nutrição vegetal. É assim no setor de aquicultura do Grupo Ambar Amaral, com criação, beneficiamento da tilápia e fabricação de ração no município de Santa Fé do Sul.

A Brazillian Fish e a Ração Raguife  (junção das iniciais dos nomes dos três irmãos Ramon, Guilherme e Felipe – respectivamente, zootecnista e veterinários), surgiram da visão empreendedora do zootecnista  Antônio Carlos Lopes do Amaral, o pai– morto em acidente automobilístico em 2012 -, que se fez empresário bem sucedido por meio da pecuária no município de Pontes de Lacerda, em Mato Grosso, distante 1.600 km de Santa Fé do Sul.

Uma das variedades de pratos pré-prontos a base de tilápia. (Foto: Da empresa)Uma das variedades de pratos pré-prontos a base de tilápia. (Foto: Antônio Oliveira)

Em 2006, com três filhos formados, seo Antônio resolveu empreender mais e, desta forma, retornar para sua região natal, reunindo toda a família num só local. Investiu na criação de peixe em cativeiro. Pouco tempo depois estava com uma fazenda d´água (criação de peixes em gaiolas em águas de rios ou lagos), uma fábrica de ração e um frigorífico.

CAM03825(Foto: Antônio Oliveira)

O Grupo, que também atua no ramo de imobiliária e ainda mantém as fazendas de nelore em Pontes de Lacerda, hoje administrada pelo filho Guilherme, mantém seu foco na chamada “revolução azul”, nome dado, na última década à crescente exploração da piscicultura, principalmente em cativeiro – em terra e em água – numa correlação à “revolução verde” – avanço e modernização da agricultura.

Para montar todo esse complexo da cadeia do peixe, pai e filhos visitaram todos os projetos de criação e os poucos frigoríficos de abate de peixe na região para chegarem ao seu próprio modelo de produção.

Do início do projeto, em 2006,  até 2009, ano da inauguração da fábrica de ração, os Ambar Amaral fecharam o que eles consideram o primeiro ciclo do negócio.

Hoje o Grupo atua em três vertentes da cadeia do peixe: criação (Piscicultura A3); fábrica de ração (Raguife);  frigorífico (Brazilian Fish), rotisserie (que leva o nome do frigorifico) e uma boutique com produtos oriundos da tilápia.

A Raguife produz 3 mil toneladas/mês de ração que atendem a demanda da fazenda de peixe do grupo e a produtores independentes.

Com Serviço de Inspeção Federal (SIF), o Brazilian Fish produz 100 toneladas/mês de filè de tilápia, que são vendidos em sua forma in natura para 6 estados brasileiros e exportado para outros países.

CAM03824(Foto: Antônio Oliveira)

Não só de filé in natura vive o frigorifico da família Ambar Amaral. Ele produz uma série de pratos a base de tilápia, como tilápia com provelone, bolinho de tilápia, tilápia a parmegiana, pururuca de tilápia, entre outros produtos que são embalados em caixinhas personalizadas. O couro do peixe, tanto é  vendido para a indústria coureira para a confecção de cintos, bolsas, carteiras, etc, quanto para as indústrias alimentícia e farmacêutica para a fabricação de geleias e medicamentos, principalmente no Japão, conta Ramon Amaral.

Já a Piscicultura produz 300 toneladas/mês de tilápias, a partir de sua idade juvenil, quando saem dos tanques escavados, onde entraram como alevinos, são vacinados e jogados nos tanques-redes dispostos nas águas no lago.

No início do projeto eram 16 tanques, hoje são 56 tanques de 6m³ e 50 de 18m³. Assim como no frigorifico, neste processo de cria nada se perde. O percentual de peixes mortos – entre 20% e 30% -, como é praxe em todo projeto de piscicultura, vai para um sistema de compostagem para ser transformado em adubo, informou Ramon Amaral.

Fora da cadeia do peixe e da pecuária, o Grupo atua em várias outras atividades econômicas na região.

Toda a região de influência do Lago da Usina de Ilha Solteira tem 4 frigoríficos, produzindo 200 toneladas/mês e gerando em aproximadamente 3,5 mil empregos diretos e 7 mil indiretos.

Sede administrativa do Grupo Ambar Amaral. (Foto: Antônio Oliveira)Sede administrativa do Grupo Ambar Amaral. (Foto: Antônio Oliveira)

Ao final da visita a algumas empresas da cadeia do peixe do Grupo, como a piscicultura e a fábrica de ração, a família Ambar Amaral ofereceu-nos, no luxuoso restaurante da Raguife, um delicioso almoço com seus produtos.

Autor: Antônio Oliveira 
Fonte: cerradoeditora.com.br