Pesquisa da Unesp de Dracena avalia pré-abate em ovinos

05/03/2013 22:03

Estudo de Zootecnista avalia métodos de insensibilização e elos com qualidade do produto 

Embora tímido ainda no Brasil, o mercado da carne ovina apresenta ser um setor com grande potencial e em crescimento. Estudo desenvolvido pela professora Sirlei Maestá da Unesp de Dracena avalia os métodos de insensibilização usados no pré-abate dos ovinos uma vez que o bem-estar animal interfere diretamente na qualidade do produto oferecido ao consumidor.

A pesquisa se propõe a estudar o manejo pré-abate, envolvendo as etapas de embarque, transporte, desembarque, descanso, insensibilização e sangria. "O manejo é importante para o processo de abate. Evita o sofrimento desnecessário do animal". Os dados para a pesquisa foram obtidos em matadouros frigoríficos comerciais da região de Dracena que abatem ovinos.

Para a estudiosa, os métodos de insensibilização são eficazes desde que utilizados de forma correta. "As principais causas de insucesso no atordoamento estão relacionados à falta de manutenção dos equipamentos, cansaço dos funcionários e falhas dos equipamentos", diz. A principal função da insensibilização é deixar o animal insensível à dor ou aflição no momento da sangria.

O estudo avaliou dois métodos utilizados na insensibilização destes animais: o mecânico e o físico. O método mecânico pode ser realizado pelo emprego de marreta (mais ultrapassado) ou pistola de dardo cativo, pneumática ou por cartucho de explosão. O físico, conhecido como eletronarcose, envolve a utilização de eletrodos que conduzem uma corrente elétrica de alta voltagem e baixa amperagem, através do cérebro do animal.

No caso dos ovinos, o projeto identificou que existe pouca estrutura voltada para o abate e o método empregado vai depender da estrutura do estabelecimento onde se pratica o abate. “A eletronarcose é a técnica mais difundida e pesquisada para a insensibilização de ovinos”, avalia a professora.

Maestá conta que a dificuldade de se utilizar o método mecânico em ovinos se deve à maior espessura da caixa craniana, que requer um adequado treinamento do operador, manutenção e calibração do equipamento, para que a força empregada não seja nem fraca demais, mantendo o animal vivo durante a sangria, nem forte demais, proporcionando a morte do animal. “Independentemente do método utilizado, o objetivo é proporcionar uma disfunção cerebral que cause uma inconsciência instantânea e indolor ao animal”, diz a pesquisadora.

Além da questão técnica, o estudo tem a preocupação de mostrar a importância que o bem-estar animal tem sobre a "qualidade ética da carne". Para Maestá, na hora da aquisição do alimento as maiores preocupações do consumidor são com relação aos fatores que envolvem a cor, maciez e prazo de validade. “Que não deixam de ser importantes”, diz. “Porém, a ausência de bem-estar pode levar à produção de uma carne de qualidade inferior, com mudanças na cor e maciez, redução do prazo de validade e contaminação por bactérias”, ressalta.

Também fazem parte da pesquisa Hélio de Almeida Ricardo, bolsista de pós-doutorado e Natália Trevizan, aluna de graduação do curso de Zootecnia da Unesp de Dracena.   

Setor ovino

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, 2010), o Brasil conta com um rebanho de 17.380.600 cabeças de ovinos. A produção de carne ovina brasileira representa menos de 1% do total produzido no mundo, com produção de 81.000 toneladas.

Com relação ao mercado externo, o país ainda apresenta uma balança comercial negativa para a carne ovina, com 6.965 toneladas de carne importadas, contra 48 toneladas exportadas (FAO, 2009).

O consumo de carne ovina no Brasil é de 0,60 kg//per capita//ano, segundo a FAO, dados de 2009. Segundo Maestá, “os dados de consumo podem estar subestimados, devido à falta de disponibilização de dados de órgãos estaduais e municipais de inspeção sanitária e principalmente, devido ao comércio informal, clandestino”, ressalta.

De maneira geral, menos de 7% dos abates de ovinos no Brasil são realizados com SIF (Serviço de Inspeção Federal), sendo desconhecida a proporção de abates sob inspeção estadual e municipal. A professora conta que ainda há a necessidade de organização da cadeia produtiva, mas algumas ações já foram e estão sendo tomadas, como o estabelecimento das Câmaras Setoriais nos Estados e cotações dos preços de compra dos animais para o abate.

“A maior rentabilidade em relação à arroba bovina em certos períodos, o surgimento de produtos da área de alimentação e saúde animal, voltados para a ovinocultura e a maior presença de cortes no varejo, em supermercados e restaurantes, favoreceu a ascensão do mercado da carne ovina nos últimos anos”, destaca a pesquisadora.