Pelos direitos dos animais

17/10/2013 20:49

Estudos vêm mostrando que os bichos podem ter consciência, além de capacidade de sentir e sofrer. Entenda como essas descobertas vão mudar a forma de nos relacionarmos não só com nossos animais de estimação, mas também com a galinha que colocamos no prato

por texto: Rafael Tonon | ilustração: Carlo Giovani
Editora Globo

A definição de que o homem é um ser pensante e de que isso o diferencia dos outros animais pode estar com os dias contados. Ao longo dos últimos anos, pesquisas científicas vêm demonstrando que alguns bichos têm, sim, consciência. E não são apenas mamíferos, como macacos e golfinhos — já conhecidos por sua inteligência e habilidade de se identificar no espelho —, mas também papagaios e até polvos e moscas. “O que de mais surpreendente veio à tona nas recentes investigações é que a consciência pode ser muito mais amplamente compartilhada entre todos os filhos da natureza do que a maioria de nós poderia pensar”, afirma Christof Koch, neurocientista do Allen Institute for Brain Science, centro de pesquisas médicas sem fins lucrativos baseado em Seattle, nos EUA. 

Constatações assim esquentam ainda mais a acalorada discussão que há séculos divide cientistas, filósofos e especialistas em direitos: até que ponto seríamos superiores aos outros animais? Dizer que eles compartilham conosco a capacidade de perceber a si mesmos e seu entorno, de sentir e também de sofrer pode alterar o modo como os tratamos — o que já começa a acontecer. Da maneira como os gados de corte vivem e morrem nas fazendas de criação à substituição de cobaias animais em testes de cosméticos, podemos mudar para sempre a forma com que nos relacionamos com os bichos. Entenda por quê. 
 

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EU SEI QUE EU SOU 
Em julho de 2012, cientistas de entidades como MIT, Harvard, Princeton e Instituto Max Planck (um dos principais centros de pesquisa da Europa) estiveram reunidos em uma conferência sobre consciência animal na Universidade de Cambridge, Inglaterra. Ao final do encontro, assinaram uma declaração clamando que já existem evidências suficientes para dizer que alguns mamíferos, aves e até moluscos também possuem as faculdades neurológicas que geram consciência. Os cientistas se basearam em estudos conduzidos ao longo da última década — alguns ainda em curso. O que há de comum entre eles é a descoberta de que a consciência não é processada em regiões exclusivas ao cérebro humano. 

Até pouco tempo, acreditava-se que a consciência era gerada em áreas como o neocórtex — região mais recente do cérebro e desenvolvida em humanos — e córtex. Apesar de estar presente no cérebro de todos os vertebrados, nos humanos o córtex possui um volume maior de neurônios e está ligado a funções complexas como atenção, memória e percepção. Por isso, supunha-se que a consciência poderia ser gerada ali — e somente em humanos. Mas estudos de neurocientistas renomados — além de Koch, Philip Low, da Universidade Stanford e do MIT, e David Edelman, da University of Southern California — mostraram que a consciência seria gerada em um processo em rede, envolvendo não apenas uma parte do cérebro, mas várias delas, também presentes nos animais. As revelações levaram à tese de que os bichos também poderiam ser seres conscientes — o que pesquisadores vêm provando até com seus animais de estimação. 

Alex era um mero papagaio-cinzento (Psittacus erithacus, espécie nativa da África) domesticado até se tornar um dos personagens mais famosos no estudo de consciência animal. A ave, que foi comprada como bicho de estimação em 1977 pela neurocientista Irene Pepperberg, da Universidade Harvard, acabou se tornando objeto de seis estudos conduzidos pela pesquisadora. 

Os testes, realizados entre 1999 e 2006, avaliaram a capacidade da ave de reconhecer cores, a ideia de maior e menor e de falar mais de cem palavras. “As tarefas resolvidas por Alex sugeriram aos meus colegas que ele tinha algum nível de consciência, apesar do intuito inicial das pesquisas não ter sido esse”, diz Irene, cujos estudos ajudaram a basear a Declaração de Cambridge. 

Em uma das experiências, a cientista apresentou ao papagaio a foto de uma banana e de uma cereja e lhe ensinou o nome das frutas. Depois, mostrou a Alex a imagem de uma maçã e pediu que dissesse o que era. A ave surgiu com a palavra “banerry”, juntando fragmentos de banana (que é branca por dentro) e cherry (cereja, em inglês, que é vermelha por fora). O neologismo mostrou que ele havia sido capaz de relacionar as duas frutas e de reconhecer características delas na maçã. “Ele chegava a me manipular para que fizesse perguntas em que tivesse que demonstrar suas habilidades.” 

Alex, morto em 2007, foi um dos primeiros animais não-mamíferos a ter sua consciência estudada — as pesquisas na área surgiram no início da década de 80 e, até os anos 2000, eram feitas quase exclusivamente com mamíferos. Hoje, o papagaio não seria considerado tão exótico assim por ser uma ave pensante. Afinal, até seres invertebrados parecem estar entrando na categoria, incluindo insetos, como a mosca. 

Em um estudo de 2009, o neurocientista Bruno van Swinderen, da Universidade de Queensland, na Austrália, mostrou que a Drosophila melanogaster, conhecida como mosca-de-fruta, é capaz de demonstrar atenção seletiva. Ele colocou para girar em torno das moscas uma caixa, que era substituída por uma cruz a cada três segundos. Microeletrodos mostraram que as ondas elétricas no cérebro das moscas se tornavam mais frequentes quando o inseto via a cruz, se mostrando mais apreensivo (mexendo mais as antenas e os olhos). Segundo Swinderen, a mudança de padrão visual poderia instigar sua atenção seletiva. Isso comprovou que a mosca conseguia ficar concentrada, algo que exige comportamentos cerebrais mais complexos, que indicam níveis de consciência, ainda que primários. 

Mais recentemente, foi a vez do polvo se revelar um animal com níveis de consciência. Em uma pesquisa conduzida no ano passado, David Edelman observou os moluscos em grandes aquários, onde projetou imagens de predadores do polvo (como moreias) e presas (como caranguejos). Os cientistas observaram que o polvo tinha uma visão periférica avançada e processava de maneira rápida a presença dos animais. “Isso indicaria um sofisticado circuito neural no cérebro”, diz Edelman. O segredo são os nervos ópticos desenvolvidos, o que só costuma ser encontrado em seres vertebrados e dotados de consciência. 

Pesquisas assim, ainda que incipientes, levam a crer que a ciência pode endossar os direitos dos animais, causa há muito já defendida por ambientalistas e ativistas. “A verdade é que sempre foi mais conveniente afirmar que eles não têm consciência. Agora, com novas evidências científicas, a sociedade vai ter que enfrentar a questão”, sustenta Low. A afirmativa encontra controvérsias. “Basear todo o argumento do bem-estar animal em algo tão nebuloso como a consciência não parece ser uma boa ideia”, afirma a pesquisadora de comportamento animal da Universidade de Oxford Marian Stamp Dawkins. Independentemente de serem conscientes ou não, os animais já deveriam ser respeitados. Como disse o filósofo e jurista britânico Jeremy Bentham, um dos precursores da discussão sobre os direitos dos bichos: “A questão não é se eles podem raciocinar ou se podem falar, e sim se podem sofrer”. 
 

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BIG BROTHER NO GALINHEIRO 
O escritor Jonathan Safran Foer, um dos mais aclamados nomes da nova literatura americana, resolveu empreender uma investigação sobre a indústria alimentícia que envolvia a criação de animais nos EUA. Decidido a virar vegetariano e movido por uma curiosidade pessoal, queria saber como a carne era produzida. Por três anos, revirou documentos, vasculhou pesquisas e estatísticas e saiu a campo para visitar — ou, em certo casos, invadir — fazendas e granjas. Na Carolina do Norte, assistiu a filmes feitos por investigadores disfarçados em uma criação de porcos mostrando trabalhadores administrando surras diárias nos animais, dando pauladas com chave inglesa em porcas prenhas ou tirando a pele dos bichos ainda vivos, por pura crueldade. 

As cenas de maus-tratos são apenas parte do que acontece com os bichos nos corredores das indústrias. Galinhas empoleiradas umas sobre as outras, fazendo com que seus dejetos caiam nas que estão abaixo e vacas que têm o crânio partido de forma violenta (e amadora) e continuam a caminhar. Esse tipo de atrocidade costuma ser denunciado de maneira quase sempre clandestina por ativistas e entidades de defesa dos bichos. “Problemas alimentares podem ser rastreados por médicos e agências governamentais cuja tarefa é cuidar de seres humanos. Mas como descobrimos o sofrimento de animais em criações industriais, que necessariamente não deixa rastros?”, questiona Foer no livro Comer Animais, ensaio-reportagem em que narra sua investigação. 

Mas agora a ciência também está entrando na granja. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Michigan, nos EUA, está à frente de um experimento em que analisam três diferentes modelos de produtoras de ovos: galinhas sem gaiolas, galinhas em gaiolas maiores e galinhas livres. Cerca de 300 câmeras foram instaladas em três granjas (uma para cada modelo). O estudo, financiado por uma cooperativa de produtores de ovos, consiste em analisar as fitas com as imagens e identificar o comportamento dos animais, principalmente no que se refere ao estresse. 

No prédio de ciências animais da universidade, times de estudantes se dividem em turnos para assistir às horas de gravação e anotar quantas vezes as aves abrem as asas ou bicam seus companheiros. Segundo Janice Swanson, uma das pesquisadoras que encabeçam a investigação, esses indícios mostram rompantes de estresse por parte dos bichos. O experimento, que já tem um ano, ainda não foi concluído — a estimativa é que seja publicado no fim de 2014 —, mas Swanson cita alguns resultados preliminares, como o fato de que as galinhas livres perderam muito menos penas no decorrer do tempo. “Perder penas é um típico demonstrativo de estresse.” 

O diretor de programas da AWA (Animal Welfare Approved), entidade americana que certifica empresas e fazendas que respeitam o bem-estar animal, acredita que, no futuro, os produtores serão estimulados a instalar webcams em suas instalações para transmitir, via internet, o que acontece em suas granjas. “Além de ser uma atitude mais transparente para com o consumidor, gravar e monitorar os registros vai permitir aos produtores controlar seus animais, garantindo melhores produções”, afirma. Amenizar o sofrimento dos bichos, na vida e na morte, pode ser um bom negócio para todos. 
 

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SAÚDE PRA VENDER 
Nem todo mundo vai parar de comer carne — seja de vaca ou de galinha —, mas há um meio-termo entre a opção alimentar e o respeito a esses seres. Segundo estudos da WSPA (World Society for the Protection of Animals), ONG mundial de defesa aos animais com filial no Brasil, o abate humanitário começa desde o transporte — quando os bichos saem da fazenda até o frigorífico em caminhões confortáveis e com temperatura adequada — até a morte por técnicas rápidas, com a chamada pistola de insensibilização (que deve ser usada por profissionais treinados para que o bicho perca a lucidez instantaneamente). É uma maneira de minimizar o sofrimento em vida e garantir um fim mais digno do que as tradicionais marretadas na cabeça. 

Durante a criação, o gado também pode receber ventilação artificial nos pastos para suportar o calor ou até ter água corrente em alta pressão para beber — o que diminui a proliferação de micro-organismos maléficos na sua digestão. “Ainda são poucos os frigoríficos que investem nesses cuidados”, afirma Michael Appleby, consultor científico da WSPA. “Mas eles não levam em conta as vantagens que esse tipo de abate possibilita para seus negócios.” 

Criação e abate feitos sem cuidados podem ser estressantes para o animal. No caso de porcos, por exemplo, a tensão faz com que a energia do músculo vá para o sangue, diminuindo a qualidade da carne, que tende a ficar mais pálida e dura. Para Dawkins, a questão da qualidade seria uma forma de convencer não só produtores mas consumidores de que os animais precisam de bons tratos. “Argumentar que isso melhora a saúde humana, a saúde de seus filhos e lhes garante melhor qualidade de vida pode ser poderoso”, diz. Mas para que as boas práticas vigorem na indústria, talvez só por força da lei. 
 

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ENFIM, JUSTIÇA? 
Apesar das denúncias, os casos de maus-tratos a bichos não costumam chegar aos tribunais. As autoridades se negam a processá-los por falta de legislação que criminalize os atos. “Quando se fala em direitos dos animais, tudo o que existe ainda é muito pífio”, afirma Peter Singer, professor de bioética da Universidade de Princeton, nos EUA, e autor do livro Libertação Animal (veja entrevista na próxima página). 

Mas esse cenário pode estar para mudar. Recentemente, três estados americanos (Arizona, Flórida e Califórnia) promulgaram leis que extinguem gaiolas e celas de gestação (no caso de porcos) para confinamento de bichos. No Colorado, a própria indústria decidiu criar e apoiar uma legislação que bane as celas. 

A iniciativa veio após uma campanha da Humane Society, entidade internacional de proteção aos animais que, em abril, lançou uma ação para reduzir o percentual de ovos que vinham de aves criadas em gaiolas, que, nos EUA, chegava aos 90%. A campanha também levou empresas como a Unilever a procurar fornecedores de ovos que não usassem gaiolas. Para atender à multinacional, um grande varejista americano, Sensenig, financiou obras de uma nova granja para pequenos produtores, como Paul Sauder (da Sauder’s Eggs), na Pensilvânia. As iniciativas já fizeram com que a produção de ovos de aves livres de gaiolas aumentasse em 3% nos últimos cinco anos nos EUA, e mostram que a indústria alimentícia pode se autorregulamentar enquanto uma legislação sobre os direitos dos animais não vem. 

Quando as estatísticas sobre ovos de galinhas criadas soltas e gados sendo bem tratados nas fazendas subirem e os bichos tiverem seus direitos garantidos por lei e os maus-tratos criminalizados, entraremos em outro estágio na relação homem-animal. Será um tempo em que eles serão respeitados como seres livres e independentes, dentro e fora dos lares, das indústrias e dos laboratórios de pesquisas científicas. Quando chegarmos a esse ponto, os animais passarão a viver em uma era de consciência sim, mas por parte dos humanos. E essa revolução dos bichos, ao que parece, está apenas começando. 
 


O FIM DAS COBAIAS ANIMAIS

Agência cria banco de dados com 2 mil substâncias tóxicas para pôr fim aos testes com animais 

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA criou um banco de dados de substâncias tóxicas para substituir alguns dos testes de medicamentos e cosméticos com cobaias animais. Batizada de ToxCast, a iniciativa conta com tecnologias de rastreamento avançado que usam triagem química automatizada para ajudar a compreender como os processos do corpo humano são impactados por produtos químicos. 

Criado em 2007, o ToxCast está em sua segunda fase de operação e deve completar, até setembro deste ano, mais de 2 mil substâncias químicas escaneadas. O método utiliza informações das propriedades das células humanas para medir os efeitos adversos dessas substâncias para a saúde. Os resultados serão comparados com os de toxicidade feitos previamente em testes tradicionais em animais. 

• US$20 BILHÕES são gastos por ano no mundo para matar 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas 

• SÓ 6% dos medicamentos testados em animais chegam aos testes clínicos em humanos 


O CAMINHO DA CONSCIÊNCIA ANIMAL 

Como a ciência avançou nos estudos de que os humanos não são os únicos seres conscientes 

QUESTÃO DE EVOLUÇÃO > Na visão de Darwin, tanto a mente humana quanto animal seriam produtos de uma seleção natural. A mente consciente seria algo dotado somente aos seres humanos, presenteados pela evolução com a capacidade de refletir sobre seu papel no mundo e seus atos. Durante todo o século 20, essa visão prevaleceu e o homem reinou como único ser consciente a habitar o planeta. 

ESPELHO MEU > Os primeiros estudos sobre consciência nos animais surgiram no início da década de 80 a partir de experimentos como o famoso teste do espelho, em que é avaliada a capacidade de autorreconhecimento (um dos principais indicativos de autoconsciência). Criado pelo psicólogo Gordon Gallup, o teste consiste em marcar o animal com corante. Os pesquisadores observam como o animal (entre bonobos, orcas e porcos) reage ao perceber no espelho que os pontos estão marcados em seu próprio corpo. 

COMUNICANDO POR SÍMBOLOS > Há dez anos, o foco dos cientistas eram os bichos cujo parentesco com os humanos era mais próximo, caso de primatas, ou animais que denotavam uma inteligência incomum, como os golfinhos. Estudos comandados pela pesquisadora Diana Reiss, da Hunter College, nos EUA, lançaram as bases para documentar a capacidade desses mamíferos aquáticos para se comunicar com símbolos e até mesmo refletir sobre suas experiências. 

MUITO ALÉM DO PARENTESCO > Pesquisas recentes, lideradas por diversos neurocientistas ao redor do mundo, passaram a estudar – e desvendar – indícios de consciência em animais que vão de moscas a cefalópodes, passando por aves. Esses animais, há cerca de 5 anos, eram totalmente negligenciados em estudos de consciência por não se cogitar no meio científico que eles poderiam ser dotados de natureza consciente. Algo que começou a mudar... 
 


CONSCIÊNCIA FORA DO CÉREBRO 

Conheça o IBrain, espécie de HD externo para nossa mente, que vai permitir criar modelos conscientes artificiais 
Baseado no fato de que animais podem ter consciência, o neurocientista Philip Low — pesquisador da Universidade Stanford e do MIT — criou uma espécie de HD externo para a consciência humana. “Será teoricamente possível criar cérebros conscientes fora de nossas cabeças”, afirma. Os modelos sintéticos de consciência não precisam mais imitar a complexidade estrutural do cérebro humano, mas ter 500 milhões de neurônios, como nos polvos, ou até menos, em vez dos 100 bilhões do cérebro humano. O iBrain é um dispositivo portátil e compacto capaz de fazer a leitura de ondas cerebrais e traduzir essas frequências do cérebro em sinais legíveis em computadores. 

A terceira versão do protótipo, previsto para 2014, tem o físico Stephen Hawking como “cobaia”. Low espera que Hawking possa "escrever" as palavras com o seu cérebro, substituindo o sistema de reconhecimento de voz que ele usa. A versão mais atual do iBrain vai permitir conectar o aparelho a dispositivos móveis e celulares via wireless.

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Fonte: Revista Galileu