Pegada Hídrica é o novo desafio da agropecuária, explica Zootecnista.

06/07/2014 16:12
“Não há como dizer que a produção de alimentos não vai, um dia, utilizar muita água. Mas também não podemos condenar, afirmando que a agropecuária é a grande vilã do excesso de consumo. O que precisamos discutir é a aplicação do conceito da Pegada Hídrica no campo”, ressalta Julio Palhares, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste

Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Julio Palhares defende a gestão da água na agropecuária: “O que precisamos discutir é a aplicação do conceito da Pegada Hídrica no campo”.

 

Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) apontam que a escassez de água afeta mais de 2,7 bilhões de pessoas em, pelo menos, um mês a cada ano. Diante do atual cenário, nunca se discutiu tanto a economia de água em todo o mundo e no Brasil não poderia ser diferente. E o mesmo debate tem sido recorrente também no setor do agronegócio nacional.

“Não há como dizer que a produção de alimentos não vai, um dia, utilizar muita água. Mas também não podemos condenar, afirmando que a agropecuária é a grande vilã do excesso de consumo e do desperdício. O que precisamos discutir é a aplicação do conceito da Pegada Hídrica no campo. É um novo desafio do agro no País e no mundo”, ressalta o zootecnista Julio Palhares, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Pecuária Sudeste.

De acordo com o criador do termo, o professor holandês Arjen Y. Hoekstra, do Instituto Unesco-IHE para a Educação de Água, a Pegada Hídrica é um indicador da utilização da água que analisa seu uso de forma direta e indireta, tanto da parte do consumidor quanto do produtor.

Na opinião de Palhares, no que diz respeito ao tema, a palavra-chave do agro deve ser “gestão”.

“Não temos como responder exatamente quanto de água é usado pela agropecuária no Brasil. Mas é certo que, com a Pegada Hídrica – co-irmã da Pegada de Carbono e da Pegada Ecológica -, será mais fácil fazer o diagnóstico e ter uma eficiência na relação entre quilos produzidos no meio rural e o uso de água.”

Conforme o zootecnista, pode ser assustador quando se diz que para produzir um quilo de carne são necessários 15,5 mil litros de água, segundo a média mundial.

“Precisamos considerar que a água utilizada na pecuária, por exemplo, não se refere somente àquela que o bovino bebe. Devemos levar em conta também o que é utilizado nas instalações, no abate e no processamento da carne, entre outros.”

Para Palhares, existe falta de informações de ambos os lados, tanto do produtor quanto do consumidor.

“É fundamental criar um mecanismo que avalie onde estão os pontos que usam mais água e quais estão sendo menos eficientes. Para tanto, basta fazer a contabilidade por meio de operações básicas da Matemática e chegar ao consumo final.”

 

PESQUISA

Com o intuito de colaborar com a gestão da água na agropecuária, o pesquisador informa que estão sendo feitos diversos estudos.

“Aprovamos um projeto da Embrapa, financiado pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que envolve a Pegada Hídrica do sistema de leite a pasto e bovino de corte em confinamento.”

De acordo com ele, em um primeiro momento será realizado um cálculo da Pegada Hídrica dentro da fazenda da Embrapa, localizada no município de São Carlos (SP). Depois, produtores de leite e de corte do Sudeste serão entrevistados com o intuito de levantar informações e calcular a Pegada Hídrica.

Em um terceiro momento, a Embrapa Pecuária Sudeste irá comparar o que é um cálculo de referência na fazenda do órgão estatal com a realidade no campo e como isto irá impactar no cálculo da Pegada.

“Participarão da entrevista dez produtores de leite e dez de corte”, informa o zootecnista.

O levantamento completo e os resultados da pesquisa da Embrapa Pecuária Sudeste, de acordo com o pesquisador, devem ser divulgados ao final do ano de 2016.

“Nosso objetivo é criar um programa para facilitar o cálculo da Pegada e ajudar o produtor a gerir melhor o consumo de água no campo.”

 

 

Pegada Hidrica

 

FATOS E NÚMEROS

O site Water Footprint Network (www.pedagahidrica.org.br) fornece alguns dados interessantes baseados em informações do criador do termo (em 2004), o professor holandês Arjen Y. Hoekstra, do Instituto Unesco-IHE para a Educação de Água.

* A produção de um quilo de carne bovina exige 15 mil litros de água (93% verde, azul 4%, 3% cinza da pegada hídrica). Há uma variação enorme em torno dessa média global. A pegada para um corte de carne depende de fatores, tais como o tipo de sistema de produção e da composição e origem da alimentação do gado.

* A pegada hídrica de um Soja-Burger, hambúrguer de soja de 150 gramas produzido na Holanda, é cerca de 160 litros. Um hambúrguer de carne do mesmo país necessita cerca de 1000 litros.

* A Pegada Hídrica do consumo chinês é cerca de 1070 metros cúbicos per capita, por ano. Cerca de 10% da Pegada Hídrica chinesa cai fora da China.

* Brasil, com uma Pegada de 2027 metros cúbicos per capita, por ano, tem cerca de 9% da sua Pegada Hídrica total fora das fronteiras do país.

* Portugal, com uma Pegada de 2505 metros cúbicos per capita, por ano, tem cerca de 60% da sua Pegada Hídrica total fora das fronteiras do país.

* A Pegada Hídrica dos cidadãos dos EUA é 2840 metros cúbicos per capita, por ano. Cerca de 20% dessa Pegada Hídrica é externa. A pegada maior de água externa do consumo nos EUA encontra-se na bacia do rio Yangtze, na China.

* A Pegada Hídrica global no período 1996-2005 foi de 9087 Gm³/ano (74% verde, azul 11%, e cinza 15%). A produção agrícola contribui 92% para esta pegada total.

 

Por equipe SNA/RJ