Os impactos da valorização do dólar na pecuária e agricultura brasileira

29/01/2016 09:29


 

Gustavo Aguiar, zootecnista e consultor de mercado pela Scot Consultoria, concedeu uma entrevista ao apresentador Sidnei Maschio, do canal Terra Viva sobre custos de produção da pecuária. Confira a entrevista na íntegra:

Sidnei Maschio: Gustavo, em relação ao resultado financeiro da atividade pecuária, que avaliação você faz de 2015?

Gustavo Aguiar: Analisando o quesito preço, foi um bom ano para a pecuária, sem dúvida. Tanto o bezerro quanto o boi gordo atingiram a maior cotação real dos últimos 20 anos. As valorizações médias de 2015 sobre as de 2014 foram de 30,9% e 15,7% para o bezerro desmamado e o boi gordo, respectivamente, em São Paulo. Neste cenário, se beneficiaram mais os produtores de ciclo completo e de cria.

Sidnei Maschio: Depois de 3 anos com o preço da arroba ficando acima da inflação, dá pra arriscar uma aposta em que essa situação vai se repetir agora em 2016?

Gustavo Aguiar: A inflação é a grande incógnita para 2016. Tanto do ponto de vista de que não sabemos qual será o tamanho dela para este ano, mas também qual será o impacto da pressão inflacionária na precificação geral da economia, incluindo o boi gordo. De qualquer forma, sob o ponto de vista cíclico, estamos nos aproximando de um momento de virada, no qual os preços já oferecem resistência a superar a inflação. Não me espantaria o fato da arroba não conseguir suplantar a inflação este ano ou ficar ao redor dela.

Sidnei Maschio: Em relação às despesas, qual o comportamento do custo de produção do pecuarista em 2015?

Gustavo Aguiar: Segundo o Índice Scot Consultoria de Custo de Produção, também na comparação da média de 2015 com a de 2014, houve uma alta de 10,3% para os sistemas de pecuária de corte. O segundo semestre foi especialmente "puxado", e deixou um contexto de custos em altos patamares na abertura de 2016.

Sidnei Maschio: O que foi que pesou mais no aumento do custo da pecuária no ano passado?

Gustavo Aguiar: De maneira geral, não houve facilidade. Mas insumos que pesaram significativamente foram os suplementos minerais, alimentos concentrados, fertilizantes (sensíveis ao dólar) e os combustíveis (represados em 2014).

Sidnei Maschio: Nestes dois terços já vencidos no mês de janeiro, o dólar ficou quase todo o tempo um pouco acima dos R$4,00. Qual deve ser o resultado disso no custo de produção da pecuária?

Gustavo Aguiar: Devemos ter mais pressão sobre os custos. Além do aumento de preços proveniente da alta do dólar do ano passado, não repassada integralmente, deveremos ter novas rodadas de altas em função da continuidade da alta da moeda norte-americana em 2016.

Sidnei Maschio: Um dos efeitos da alta do dólar foi um forte aumento na demanda de milho e soja para exportação. O que é que vai acontecer daqui pra frente com o preço destes produtos no nosso mercado doméstico?

Gustavo Aguiar: A tendência altista deve permanecer, também segundo a lógica de dólar valorizado e em alta. Além disso, temos que averiguar como será a safrinha, componente fundamental para o mercado. Ainda é cedo para medir com precisão os efeitos do clima sobre a produtividade.

Sidnei Maschio: No caso do pecuarista que trabalha só com recria e engorda, o preço da reposição também está sendo motivo de grande susto e preocupação neste começo de ano? Como é que deve ser o comportamento deste mercado nos próximos meses?

Gustavo Aguiar: Reposição deve continuar cara. Apesar da possibilidade de negócios a preços mais baixos em algumas regiões, resultante de condições climáticas locais, a tendência deve ser de mais um ano de arroxo na oferta, preços altos e relações de troca em patamares historicamente muito ruins tanto para o recriador como para o invernista.

Sidnei Maschio: Com o preço dos grãos em disparada e sem previsão de um alívio no valor do gado novo, vai ter confinamento no Brasil agora em 2016?    

Gustavo Aguiar: O confinamento deve ter outro ano complicado, sob o ponto de vista da atividade exclusiva. Não só a dieta deve pesar mais (grãos), mas, de maneira geral, o boi magro deve continuar sendo um item escasso e caro. Esta conjuntura impacta em cheio os custos do confinamento. Quanto à receita, o mercado futuro não vem indicando altas muito expressivas para o boi gordo. Dessa forma, não dá para esperar um grande estímulo à atividade este ano, pelo menos por enquanto.


 

Fonte: Scot Consultoria