O uso de animais para o avanço da Medicina

14/11/2013 19:24

Uma análise histórica sobre o avanço em praticamente todas as áreas da Medicina mostra claramente o necessário uso da experimentação animal antes do uso dos diferentes procedimentos cirúrgicos ou o teste de fármacos em pacientes. As bases conceituais destes procedimentos foram estabelecidas por Claude Bernard, célebre fisiologista francês, na década de 1860.

Algumas espécies de animais foram escolhidas em função da natureza do que vai ser testado. Entre elas destacamos o camundongo, o rato, o cobaio, o hamster e o coelho. Linhagens destes animais foram estabelecidas ao longo dos anos utilizando técnicas genéticas clássicas que levassem à obtenção de animais mais uniformes e mais dóceis à experimentação. Gradativamente, foi se estabelecendo o conceito de “animais de laboratório”, que hoje constitui inclusive uma especialização nas áreas da zootecnia e da medicina veterinária.

Logo, foi também detectado que antes dos testes em humanos era necessária a realização de testes em animais de médio porte. Primatas não humanos, como o rhesus, o chimpanzé, callithix, saguinus e o mico, continuam sendo utilizados em algumas pesquisas. O elevado custo de sua manutenção levou a que outras espécies fossem testadas e, entre elas, o cão se mostrou extremamente útil, sendo hoje empregado amplamente em todo o mundo, especialmente os da raça beagle.

Cabe ressaltar que, sempre que possível, sobretudo, na fase de pesquisas básicas, os pesquisadores vêm optando por modelos experimentais mais simples, como a mosca da fruta (Drosophila), o nematóide de vida livre (Caenorhabditis elegans), o anfíbio xenopus e o peixe-zebra. Para estudos em fase mais avançada, tem sido crescente a utilização do porco, especialmente linhagens que não alcançam grande tamanho, sendo conhecidos como porcos pequenos (“mini pigs”) que, quando adultos, alcançam um peso de cerca de 30 quilogramas.

Nos últimos anos têm surgido movimentos organizados em defesa dos animais, muitas vezes contestando o seu uso em experimentação. Há poucos dias, um grupo designado como Frente Antivivisseccionista do Brasil invadiu as instalações de um centro de pesquisas (Instituto Royal, localizado no município de São Roque, São Paulo), provocaram sérios danos à infra-estrutura física e laboratorial da instituição e levaram 178 animais em teste.

As pesquisas realizadas na instituição foram autorizadas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea), ligado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação. O referido instituto vem realizando testes de novos fármacos, produzidos por setores acadêmicos e por empresas produtoras de medicamentos, para o tratamento de doenças infecciosas e de câncer, entre outras.

Episódios como o acima mencionado devem ser condenados por todos que defendem o desenvolvimento da Ciência no país e por aqueles que aspiram ao desenvolvimento de novas abordagens médicas, que podem ir desde o estabelecimento de novos procedimentos cirúrgicos, testes de novos materiais para próteses e novos medicamentos que sejam mais efetivos e menos tóxicos para a espécie humana.


Por outro lado, o episódio aponta para (1) a necessidade de ampliação do estímulo aos estudos que visam desenvolver métodos alternativos à experimentação animal e (2) criar mecanismos no sentido de que as instituições que utilizam animais de experimentação sejam acompanhadas de perto, para assegurar a utilização de procedimentos compatíveis com a ética estabelecida nesta área.

É no contexto destes dois campos que o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) vem procurando contribuir. No que se refere ao uso de métodos alternativos, nossa equipe vem atuando em duas frentes. Na primeira, lançando mão das mais modernas técnicas moleculares visando criar condições para que a comunidade científica brasileira possa dispor de várias linhagens de células mantidas in vitro e de alta qualidade, o que implica em determinação de sua origem e ausência de contaminação por micoplasma e por vírus.

O banco de células do Rio de Janeiro, hoje localizado no Inmetro, é parte deste esforço, sendo que o serviço de verificação de autenticidade celular e de verificação de contaminação é hoje oferecido gratuitamente para os centros de pesquisa do país. Estas células podem ser utilizadas com maior freqüência para vários estudos, diminuindo o uso de animais de experimentação.

Segundo, desenvolvendo métodos de obtenção do que chamamos de “tecidos equivalentes”, partindo do co-cultivo de diferentes tipos celulares crescendo em matrizes tridimensionais e que podem reproduzir in vitro vários tecidos e órgãos (pele, epitélio respiratório, epitélio digestivo etc.).

Já no que se refere ao uso de animais, estamos participando, a convite do Concea, de discussões que levarão ao estabelecimento de normas que permitirão a avaliação da qualidade dos biotérios produtores de animais para experimentação, bem como estudos que permitam a acreditação pelo Inmetro de laboratórios que realizam experimentos em animais.

 

Wanderley de Souza

Professor titular da UFRJ, é diretor de Metrologia Aplicada às Ciências da Vida do Inmetro e membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina.