O Rio Grande está para peixe

17/11/2014 19:36

Piscicultura é alternativa para aumentar a rentabilidade das propriedades

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O Rio Grande está para peixe Júlio Cordeiro/Agencia RBS

Superti, criador na zona sul de Porto Alegre, preside associação que reúne 66 produtores e pescadores
Foto: Júlio Cordeiro / Agencia RBS

A produção de pescado, proteína animal mais consumida no mundo, encontrou correnteza a favor no Rio Grande do Sul. Apesar da pouca profissionalização, a criação de peixes cresce a altas taxas no Estado em comparação com outras atividades econômicas do campo e aparece com destaque nas estatísticas nacionais — mesmo com a existência de números conflitantes em levantamentos de diferentes órgãos.

Divulgado no ano passado, com dados referentes a 2010, relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) informa que os gaúchos lideravam a produção de pescado na aquicultura continental (em água doce) no Brasil, com volume de 55 mil toneladas. Especialistas no Estado, porém, colocam em dúvida as informações. Para tentar diminuir a carência de dados e ajudar na formulação de políticas específicas para a atividade, Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) e Emater estão terminando levantamento em todos os municípios gaúchos. O estudo concluiu que, em 2013, o volume de pescado somou 17 mil toneladas. Desse total, 9,4 mil toneladas foram vendidas, o que gerou um faturamento de R$ 43,9 milhões.

— O crescimento da produção de pescado cultivado nos últimos 25 anos no Estado foi sempre superior a 8%. E continuará — diz o zootecnista João Sampaio, mestre em aquicultura e técnico da Emater em Lajeado.

Há mercado potencial para jundiás e piavas

Independentemente dos números, há um ambiente propício para o desenvolvimento da piscicultura no Estado, sobretudo pela estrutura fundiária. Em cada uma das milhares de pequenas propriedades do Estado, há a necessidade da existência de um açude ou tanque, seja para dar de beber aos animais ou para irrigação, onde também podem ser criados peixes. O estudo mostra que no Rio Grande do Sul existem 48,7 mil piscicultores familiares, com espelho d´água menor do que dois hectares, e outros 1,7 mil de maior porte. Agora, os responsáveis pelo projeto vão partir para a análise das informações que já foram geradas.

— Está nítido que é uma atividade complementar na agricultura familiar, mais uma alternativa de renda dentro das propriedades, e tem grande importância como complementação da alimentação das próprias famílias — avalia Tatiana Walter, professora da Furg e coordenadora do projeto, acrescentando que a comercialização normalmente acaba ficando restrita à vizinhança ou durante períodos específicos, como a Semana Santa.

Para Rafael Lazzari, professor de piscicultura do campus de Palmeira das Missões da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), há a possibilidade de, ao menos em carpas, o Estado pontear a produção nacional — entre todas a espécies, o líder seria o Paraná, aponta o 1º Anuário Brasileiro da Pesca e Aquicultura, publicado neste ano. Por aqui, o cultivo que mais cresce seria o de tilápias, mas também há potencial e mercado para peixes nativos, como jundiás e piavas.

As espécies no RS e a demanda brasileira





Intenção é concorrer com importados

Projeções da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que, até 2030, o mundo terá de ampliar em 100 milhões de toneladas a produção de peixe para atender à demanda global. Pelo menos um quinto deste volume deve sair do Brasil. A oferta mundial de pescado hoje, estima a FAO, é de 126 milhões de toneladas, incluindo a pesca extrativa e a aquicultura, que inclui a criação do animal.

Para João Sampaio, mestre em aquicultura e técnico da Emater, a produção gaúcha teria potencial para ganhar parte do mercado dos importados, que fisgam o consumidor ao chegarem mais baratos nos supermercados. Com mais produção, o preço do produto nacional poderá baixar.

— Apenas neste ano, estão entrando 400 mil toneladas de panga no Brasil — diz Sampaio, referindo-se ao polêmico peixe asiático, mais barato do que boa parte dos brasileiros, mas que tem seu método de criação questionado.

A dificuldade de manter unidades de beneficiamento, que devem ser inspecionadas, pode ser driblada pela venda de peixes vivos em feiras comunitárias. Um dos entraves ao desenvolvimento da atividade é a baixa profissionalização e a pouca oferta de orientação técnica para ampliar a produtividade com a construção de tanques adequados, manejo correto da água, melhoria na nutrição e prevenção de doenças.

Na Emater, a intenção é incentivar que mais produtores que criam no regime extensivo (em que os animais são soltos em reservatórios e se alimentam por conta própria) passem para o método semi-intensivo (com nutrição controlada e acompanhamento do crescimento). Outra barreira, observa Rafael Lazzari, professor de piscicultura da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), é acessar crédito devido à dificuldade para a obtenção de licença ambiental.A Fepam emitiu, em 2012, licença para que a Secretaria de Desenvolvimento Rural possa liberar a atividade em área alagada com mais de 2 hectares. Para tamanhos menores, o licenciamento é feito pelos municípios.

Negócios instáveis limitam a expansão

Um exemplo de iniciativa bem- sucedida é o da Associação de Pescadores e Piscicultores do Extremo Sul (Appesul), com sede em Porto Alegre. São 66 associados, sendo 15 criadores e, os demais, pescadores que se uniram e conseguiram viabilizar a atividade com a venda de filés, hambúrgueres e bolinhos de peixe para alimentação escolar. A entidade, que também conta com uma unidade de beneficiamento de pescado na zona sul da Capital, vende mensalmente 9 toneladas, sendo 3 mil toneladas de tilápias criadas por piscicultores, todos agricultores familiares.

O presidente da Appesul, Roberto Superti, produtor de pescado no bairro Vila Nova, explica que a maior dificuldade para a associação crescer é conseguir novos mercados cativos por meio de chamadas públicas, exclusivas para fornecimento de alimentos da agricultura familiar. Assim como a venda para escolas, a intenção é obter contratos de fornecimento para refeições nos presídios, por exemplo.

— Se não for no mercado institucional, fica complicado, porque teríamos que concorrer com grandes empresas e com o peixe importado, mais barato que o nosso — explica Superti.

Pela falta de um mercado constante, a entidade não consegue absorver novos sócios, diz Superti. De acordo com ele, há uma lista de espera com aproximadamente cem interessados em se integrar à associação.