O perigo do uso de antibióticos em animais de abate - por Ricardo Ernesto Rose

04/03/2014 16:01



O uso de antibióticos na criação de animais de abate - suínos, aves, bovinos - é prática bastante comum em todo o mundo, principalmente em países produtores de carne, como os Estados Unidos e Brasil. O uso do antibiótico como promotor do crescimento foi descoberto nos Estados Unidos, no final da década de 1940. Em 1951 o FDA (Food and Drug Administration), órgão controlador de alimentos e medicamentos do governo americano, aprova seu uso para acelerar e aumentar a absorção de vitaminas contidas nos alimentos, fazendo com que os animais adquiram mais peso em menor tempo. Além disso, o uso destas substâncias melhora a saúde e a resistência dos animais, diminuindo sua mortalidade.

Segundo fontes pesquisadas, existem no Brasil normas bastante restritivas quanto ao uso de antibióticos como complemento alimentar em animais monogástricos (não ruminantes), principalmente suínos e aves. Estas diretrizes foram aprovadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e se referem ao uso de antibióticos destinados a melhorar a digestão de alimentos, sem afetar as bactérias benéficas que se encontram no trato digestivo dos animais. Normativas do MAPRA também proíbem o uso de antibióticos de uso humano em animais monogástricos. Outra fonte pesquisada (Revista UFG - Dossiê pecuária - Dezembro de 2012), reporta que ainda não existem provas de que uma bactéria que adquiriu resistência ao antibiótico no intestino de um animal, tenha transmitido esta mesma resistência a uma bactéria localizada no intestino humano.

Fatos um pouco diferentes são apresentados em um artigo publicado pela Bloomberg em março de 2013, sob o título "Uso excessivo de antibióticos pode levar a uma crise da saúde pública" (Antibiotic overuse could lead to public health crisis). Diz o texto que aproximadamente 80% de todos os antibióticos em uso no EUA são regularmente administrados aos animais, segundo relatório do FDA. Em 2011, segundo o documento, foram vendidos aproximadamente 66 toneladas de antibióticos ao setor de criação de animais; quase seis vezes o que foi destinado ao consumo humano. Segundo a deputada americana Louise Slaughter, do partido democrata de Nova York, "Estamos à beira de uma catástrofe de saúde pública. A ameaça de doenças resistentes aos antibióticos é real, está crescendo e aqueles mais em risco são os idosos e as crianças."

O relatório anual do FDA, o Sistema Nacional de Monitoramento da Resistência Antimicrobiana (NARMS), revela que 78% das salmonelas (gênero de bactéria causador de infecções graves) encontradas no peru, já desenvolveram resistência contra pelo menos um tipo de antibiótico, assim como 75% das salmonelas encontradas no frango. O problema é que para combater a salmonela não existem centenas de tipos de antibióticos; seu numero é bem limitado. "Por isso, na hora do tratamento, a escolha precisará ser feita com todo o cuidado", diz Gail Hansen, especialista do governo americano no assunto.

Portanto, o grande problema no uso intensivo de antibióticos em animais de abate, não é o fato de que uma bactéria, localizada no organismo humano, adquira resistência contra a substância. O perigo é que o ser humano, ao ingerir uma bactéria prejudicial, esta já tenha desenvolvido resistência contra os antibióticos, dificultando assim seu combate.

Ricardo Ernesto RoseConsultor desenvolve atividades de marketing, transferência tecnológica e consultoria comercial na área da sustentabilidade (www.ricardorose.com.br) e editor do blog "Da natureza e da cultura".