O hesitante enredo da sustentabilidade

12/02/2016 11:35
“Não existe crueldade com os animais. Com os faisões e pavões, as penas caem naturalmente; no caso dos avestruzes, as aves são criadas para produção comercial”, Vinicius Ferreira, zootecnista

“Não existe crueldade com os animais. Com os faisões e pavões, as penas caem naturalmente; no caso dos avestruzes, as aves são criadas para produção comercial”, Vinicius Ferreira, zootecnista

O sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão

(Guimarães Rosa, em “Sagarana”)

O aforismo da obra magistral de um dos maiores escritores brasileiros dita o ritmo, na aventura das grandes escolas de samba rumo à sustentabilidade. Setor que professa o jeito empírico de solucionar seus dilemas, o Carnaval aprende a valorizar as boas práticas pelo jeito mais duro: o da necessidade. A crise econômica e o aperto nos recursos para construir o espetáculo estão materializando soluções mais racionais e baratas, nos barracões da Cidade do Samba.

Obrigados a se adaptar às cruezas da vida desde o alvorecer da festa – um século atrás, lembre-se, o ritmo era proibido e perseguido pelos homens da lei –, os bambas se viram para tourear as limitações orçamentárias. Assim, o reaproveitamento de materiais, a adaptação de alternativos reinventados pelo talento cenográfico e a adoção de material sintético – mais barato – no lugar das peças originais transformam-se em prática crescente nos ateliês.

Numa festa que é vista à distância, não faz diferença. Usar as penas naturais é ostentação de quem quer mostrar dinheiro e poder. O problema está nas plumas de avestruz. Elas têm um movimento que as artificiais não reproduzem.

Leandro Vieira
Carnavalesco da Mangueira

Muitos produtos utilizados na confecção de fantasias e alegorias são importados e, com a depreciação do real, precisam ser substituídos. Assim, a “boniteza” necessária para garantir a nota 10 e a exaltação do público rende-se à “precisão” determinada pelo ziriguidum da economia. Copinhos de papel ganham pinturas para brilharem como adereços de alegorias; plástico-bolha, palhas de aço, buchas, rolhas e garrafas-pet entram no lugar de paetês, cristais e pedras. A banda toca adequada ao orçamento, no ritmo da recessão.

Nos padrões “Las Vegas” do Carnaval contemporâneo, a folia tem muito pouco de brincadeira: um desfile, para disputar o título, obriga a um gasto superior a R$ 8 milhões (falta aos números transparência, agenda sustentável ainda longe de ser cumprida pela tribo do samba). Em 2016, das 12 escolas do Grupo Especial, só duas contam com patrocínios além das subvenções comuns (que somam aproximadamente R$ 6,5 milhões). O Salgueiro recebeu R$ 3 milhões do dono de um terreiro de candomblé para seu enredo “A Ópera dos malandros”. A Imperatriz Leopoldinense ganhou R$ 6 milhões para exaltar Zezé di Camargo e Luciano em “É o amor, que mexe com a minha cabeça e me deixa assim. Do sonho de um caipira nascem os filhos do Brasil”. Exceções que confirmam a regra do aperto.

Mas, entre as muitas mágicas da grande festa brasileira, está a dos artistas que, quanto mais competentes são, mais economizam no seu show. Renato Lage, do Salgueiro, o melhor carnavalesco da atualidade, repete que o dinheiro da subvenção dá e sobra. Ele é um dos mestres na reinvenção dos materiais – este ano, vários carros alegóricos da escola têm estruturas plásticas, construídas com garrafas-pet e copinhos de café que, à distância, parecem milionárias. “Nós nos acostumamos com orçamentos apertados e aprendemos a improvisar”, confirma Renato. “O carnaval é a arte do possível. Damos nosso jeito para realizar o projeto e levar a escola para a avenida”.

Quatro vezes campeão da festa, ele conviveu, durante vários anos, com o precursor sustentabilidade carnavalesca (quando o termo sequer existia): Joãosinho Trinta (1933-2011). O maior artista do espetáculo em todos os tempos conheceu a glória na Beija-Flor, mas se formou no Salgueiro de Fernando Pamplona (1926-2013), o cenógrafo e professor que liderou a revolução estética do desfile, a partir dos anos 1960. Na vermelho e branco tijucana, João assinou seu primeiro carnaval em 1974, sob o enredo “O rei de França na Ilha da Assombração”. Não havia dinheiro para grandes aventuras, e o gênio maranhense deu seu jeito: com tinta e purpurina, transformou forminhas de doces, daquelas usadas em festas de criança, no pano de fundo das alegorias. Brilho que conduziu a escola ao título.

Uma única pena de faisão não sai por menos de R$ 150 nas boas lojas do ramo - e as escolas mais ricas utilizam até impressionantes 35 mil num desfile
Uma única pena de faisão não sai por menos de R$ 150 nas boas lojas do ramo – e as escolas mais ricas utilizam até impressionantes 35 mil num desfile

Quase meio século depois, Leandro Vieira duela com a falta de recursos para materializar o desfile em homenagem a Maria Bethânia, “A menina dos olhos de Oyá”, da Mangueira. Conjugando talento e pragmatismo, escolheu a sustentabilidade num dos itens mais caros do atual cardápio de insumos da festa: as penas.

Para ornar fantasias de destaques e de composições dos carros alegóricos, as escolas utilizam plumas de avestruzes e a penugem de pavões, faisões e galos. Durante muitos anos, só aceitavam as naturais, numa salgada tirania da beleza. Uma única pena de faisão não sai por menos de R$ 150 nas boas lojas do ramo – e as escolas mais ricas utilizam até impressionantes 35 mil num desfile. Só a roupa de uma porta-bandeira leva de 4 mil a 6 mil “faisões”, na nomenclatura de costureiros e aderecistas. Para fechar a conta, a solução está nas penas sintéticas, produzidas à imagem e semelhança do que oferece na natureza. “Numa festa que é vista à distância, não faz diferença”, assegura Leandro. “Usar a natural é ostentação de quem quer mostrar dinheiro e poder”. O problema, para o carnavalesco, está nas plumas. “Têm um movimento que as artificiais não reproduzem”, descreve Leandro, para infortúnio dos avestruzes.

Estilista com 20 anos de experiência, Alê Ferrier, da Beija-Flor, reza pela cartilha do carnavalesco mangueirense, mas com outra estratégia. Cuidadoso e detalhista, ele conserva as penas por vários carnavais, reutilizando-as nas opulentas fantasias da azul e branco de Nilópolis. “Temos faisões aqui de 2007 e até de antes”, contabiliza ele, apontando penas ocre rajadas de preto, numa roupa pendurada no canto do ateliê, no quarto do barracão. “Nem a chuva estraga. Com cuidado no armazenamento, para não mofar nem quebrar, dura vários anos”, ensina, contando ter feito fantasias que consumiram R$ 1 milhão em penas, algumas de faisão albino, as mais caras – em torno de R$ 200 a unidade.

A pluma foi um must em folias passadas, mas hoje dorme no catálogo dos adereços vintage. Um de seus entusiastas, Alexandre Louzada, carnavalesco da Mocidade Independente, se diz “quase curado” de usar o item em excesso. “O carnaval virou um espetáculo teatral, com as fantasias se tornando figurinos sofisticados”, analisa ele, campeão por Mangueira, Vila Isabel e Beija-Flor. “Houve uma era de irracionalidade, motivada pela necessidade de ostentar, exibir riqueza. Passou. Hoje a conscientização tem aumentado, com uma racionalização dos gastos. O próprio júri avalia melhor desfiles com menos penas e plumas”, comprova o artista plástico, mostrando os itens artificiais no estoque do barracão.

Na parte da produção, a imensa maioria das penas naturais é comprada em criadouros regulamentados, garante Vinicius Ferreira, zootecnista com década e meia de atuação no mercado. “Não existe crueldade com os animais”, referenda. “Com os faisões e pavões, as penas caem naturalmente; no caso dos avestruzes, as aves são criadas para produção comercial”, acrescenta, explicando que o material sintético irá prevalecer “se o mercado quiser”. Enquanto isso, as criações em cativeiro dão conta, preservando os animais que vivem na natureza.

Outras agendas, igualmente urgentes, seguem por serem cumpridas. Nos barracões e quadras, muitos funcionários operam maçaricos e utilizam colas e tintas, entre outros materiais tóxicos, sem a precaução necessárias de luvas, óculos e capacetes; as relações de trabalhos, na maioria das vezes, prescindem da formalização. A transparência na conta do dinheiro de patrocínios e subvenções tampouco vigora completamente.

A caminhada na direção das melhores práticas, ao menos, começou; mas ainda falta muito para a sustentabilidade ser campeã do carnaval.

Escrito por Aydano André Motta

 

Niteroiense de 50 anos, Aydano é jornalista há 30. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Foi comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”.