New York Times: Rinhas de touro são tradição no golfo de Omã

26/06/2013 20:30

The New York TimesAL FUJAYRAH, Emirados Árabes Unidos - Um grande touro negro chamado Rocket, com chifres lixados para ficarem pontudos e afiados, entrou no ringue de terra batida. Seu adversário, outro touro igualmente grande e pesado, levantou nuvens de poeira com sua pata dianteira e bufou. Seu nome: Satan.

Quando os juízes deram o sinal, os touros investiram e se atracaram, chifres contra chifres, num tipo de disputa que vem divertindo plateias e orgulhando os donos dos touros ao longo do golfo de Omã há muito tempo.

Não se sabe ao certo de quando data a tradição, mas alguns acreditam que ela surgiu durante a colonização portuguesa da costa omani, no século 16. O embate entre touros é conhecido em árabe como "luta de touros", nome que o diferencia das touradas promovidas na Espanha, em Portugal e em outros lugares, em que o touro enfrenta o toureiro.

"É uma loucura deixarem um homem combater um animal", comentou Nasser Badr Abdulla, que organiza disputas de touros no local. Abdulla disse que os piores ferimentos sofridos pelos touros geralmente não requerem mais que alguns pontos. "Aqui, são os touros que têm vidas de cinco estrelas", explicou. "Eles lutam e depois nós os levamos de volta à fazenda para se alimentarem com o que há de melhor."

  Tara Todras-Whitehill/The New York Times  
Alguns acreditam que os portugueses levaram as touradas para a costa omani no século 16; rinha de touro em Al Fujayrah
Alguns acreditam que os portugueses levaram as touradas para a costa omani no século 16; rinha de touro em Al Fujayrah

Os embates de touros em Fujairah são uma das tradições culturais que continuam fortes desde antes do tempo em que esta região se tornou um país, em 1971.

Antes dessa época, as pessoas ganhavam a vida com a criação de camelos e ovelhas no deserto e, no litoral, com a pesca ou o cultivo de tâmaras e outras variedades. Desde então, o desenvolvimento vem sendo acelerado. O petróleo e os negócios internacionais converteram Dubai e Abu Dhabi em cidades movimentadas e repletas de arranha-céus.

Mas ainda restam ecos do passado. As corridas de camelos nos arredores de Abu Dhabi ainda atraem multidões, embora os jóqueis hoje sejam robôs -desde que o uso de meninos jóqueis foi proibido, em 2005-, e os homens de Fujairah ainda promovem lutas de touro contra touro.

"Este que você vê aqui é o mais forte do ringue", disse Yazid al Naimi, apontando para Rocket, touro de sua família.

Desde que sua família comprou o animal, dois anos atrás, Rocket segue a dieta e os treinos de um lutador de boxe, alimentando-se de capim, milho, tâmaras e peixe seco e caminhando 1,5 quilômetro por dia, às vezes na praia ou dentro do mar, para aumentar a resistência, contou Naimi.

Não há prêmios para os touros vencedores. "O importante é a reputação", explicou o dono de Satan, Salem Kalbani. "Se seu animal vence, as pessoas vão falar de sua fazenda e dizer que ela tem os touros mais fortes."

Há mais: um touro comprado por US$ 20 mil pode ser revendido pelo dobro desse valor depois de uma vitória (ou pela metade após uma derrota).

Numa sexta-feira recente, havia cerca de 60 touros inscritos. Cada um participaria de um combate. As lutas normais duram dois minutos, depois dos quais cerca de dez homens de branco entram correndo no ringue para separar os animais.

A multidão gritou quando Satan e Rocket se enfrentaram, mas Rocket de repente deu meia-volta e fugiu, deixando Satan como vencedor.

"Em última análise, eles são animais. Nunca se sabe o que podemos esperar", falou Naimi