Mulheres que movem o campo

19/04/2013 16:48

Um agronegócio menos manual e mais tecnológico abriu novas frentes de trabalho, o que ajudou a inserir mulheres no setor. Elas estão à frente de fazendas, dirigindo indústrias de carne, fazendo descobertas na pesquisa. Quase sempre, transformam locais por onde passam.


 

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São Paulo – Em Rondonópolis, interior do Mato Grosso, uma mulher chamada Cristiane Rabaioli, zootecnista, é responsável pelo processamento da carne de 1.200 cordeiros e dois mil bovinos ao mês. No município paulista de São João da Boa Vista, Silvia Morgulis leva adiante a produção de laranja, borracha e milho e a criação de gado em seis fazendas. Em Londrina, no Paraná, Mariângela Hungria cria soluções em nutrição do solo para lavouras de soja e feijão, e em Piracicaba, cidade do estado de São Paulo, Julia Martella de Almeida estuda para seguir um caminho parecido ao destas três mulheres, o do agronegócio.

 

Rabaioli, Morgulis, Hungria e também Elisandra Rosa Rodrigues, agricultora de pequeno porte que preside um sindicato de produtores rurais em Nova Resende, em Minas Gerais, são algumas das mulheres brasileiras que encontraram seu lugar em um universo profissional que era tradicionalmente masculino. A maior presença delas nas lavouras, laboratórios de pesquisas agrícolas, indústrias de defensivos ou frigoríficos é consequência de mudanças no próprio agronegócio brasileiro, mais moderno e menos manual. “O uso da tecnologia abriu novas frentes, hoje não é preciso ter força física para trabalhar no agronegócio, há novas áreas e novas tecnologias”, conclui Rabaioli, diretora executiva da Estância Celeiro.

 

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Somado a isso, o agronegócio é um dos setores que vêm gerando dividendos no País, o que atrai homens e mulheres na busca de uma colocação profissional. “É o que está bombando no Brasil”, afirma a headhunter Renata Bezerra, proprietária da consultoria Agritalents, de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A Agritalents é especializada em recrutamento de profissionais para o agronegócio e, segundo Bezerra, metade dos candidatos para as vagas é mulher e raramente as empresas contratantes exigem que sejam homens a preencher os cargos. “A não ser quando o profissional vai liderar um grupo de homens”, afirma ela.

Esse agronegócio mais unissex se reflete, inclusive, no mundo acadêmico. No curso de Engenharia Agronômica da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), de Piracicaba, um dos mais conceituados do Brasil na área, dos 196 alunos inscritos neste ano, 70 foram mulheres, o que corresponde a 36% do total. Há 11 anos, elas eram 30%, ou 54 matriculadas de um total de 180. “As mulheres estão, cada vez mais, ocupando espaços com competência e eficiência. Isto também ocorre na Engenharia Agronômica. A profissão é muito ampla, permitindo que a mulher possa participar em todas as áreas de concentração”, diz o coordenador do curso, José Otávio Menten.

 

 

 

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Hungria: apaixonada por pesquisa

 

 Apesar dessa abertura do mundo rural às mulheres, quase todas as que abriram a porteira profissional do agronegócio, não ganharam reconhecimento de graça, simplesmente pelo cargo ocupado. A pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Mariângela Hungria, entrou para Unidade Soja em 1991, onde pesquisa fixação de nitrogênio no solo com uso de bactérias. “Alguns diziam: é bom que ela fica lá no laboratório com os bichinhos, é bem feminino”, conta Hungria, rindo. Hoje ela é referência em pesquisas na área. “Quando se está começando, a gente ouve muita coisa, depois você prova que tem competência, o respeito acaba prevalecendo”, afirma.

Situação similar relata Rabaioli, sobre os primeiros tempos como zootecnista em Rondonópolis. “Me formei em 1998 e quando voltei para Rondonópolis só éramos eu e mais uma zootecnista, sofri muito preconceito, as pessoas achando que eu não tinha força”, conta a executiva, que estudou em Minas Gerais. Elisângela Rosa Rodrigues também afirmou que enfrentou descrença em relação ao seu trabalho quando assumiu a presidência do Sindicato dos Produtores Rurais de Nova Resende. “Muitos não acreditavam porque eu sou mulher. Então agora que eu não largo mesmo (o trabalho)”, diz Rodrigues. O pai de Silvia Morgulis, por exemplo, não queria que ela assumisse a fazenda assim que se formou em veterinária.

 

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Rodrigues lidera sindicato em Minas

 

 Algumas quase sem formação específica, como é caso de Rodrigues, que só concluiu o ensino médio, e outras com pós-doutorado como Hungria e Morgulis, grande parte das histórias de mulheres do agronegócio são de transformação. Morgulis lidera o núcleo feminino do agronegócio da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e convive com muitas produtoras, principalmente pecuaristas. “Elas são abertas à inovação, não vêm com ranços, aceitam consultorias com mais tranquilidade, são muito preocupadas com a gestão”, afirma. Entre as histórias das mulheres ouvidas pela ANBA, nenhuma é de quem ficou sentada na porteira vendo a boiada passar.

Morgulis, apesar de ser formada em veterinária pela USP, só assumiu as fazendas da família já com mestrado, doutorado e pós-doutorado nas áreas de Patologia Comparada e Farmacologia. “Meu pai não achava uma atividade apropriada, achava de segunda, achava que a gente não devia depender das propriedades e sim do trabalho”, relata a fazendeira. Há cerca de dez anos, porém, já com 70 anos, o pai resolveu deixar a filha cuidar de parte burocrática que envolve a criação do gado Guzerá. E Morgulis mostrou que era possível trabalhar na fazenda e fazer disso uma profissão respeitável.

 

 

 

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Até então a propriedade rural não era encarada como um negócio de fato pela família. A primeira coisa feita por Morgulis foi arrumar a equipe. “Havia empregado, mas não havia equipe”, conta. Foi aí que a veterinária, com toda experiência acadêmica, foi contratar as pessoas certas, depois foi para o curral acompanhar a desmama, a marcação do gado. Encontrou, para a criação de animais, um nicho mais rentável que a pecuária de corte, a venda de exemplares para reprodução, e para as laranjas, um mercado que a fez ser menos atingida pela crise do setor: o fornecimento para feirantes. Fez parceiras e aprendeu que a gestão é a chave do sucesso. “As margens são estreitas, tem que ter muita eficiência”, diz.

Mudança no Celeiro
Rabaioli, lá em Rondonópolis, também acertou os rumos da Estância Celeiro quando assumiu a diretoria executiva. A empresa, que era um frigorífico de ovinos, se transformou em processadora de carnes, não só ovina, mas também bovina, especializada em cortes especiais. “Terceirizamos o abate há três anos”, relata a diretora, sobre a iniciativa, que serviu para aumentar a produção e rentabilidade da empresa. Há seis anos, quando Rabaioli era ainda consultora da empresa, dois funcionários trabalhavam no local e 60 cordeiros eram abatidos por mês. Hoje a equipe tem 170 funcionários e 1.200 cordeiros e dois mil bovinos são  transformados ao mês.
Rabaioli se formou em zootecnia, tem pós-graduação em Ruminantes e mestrado e Agricultura Tropical, mas descobriu na gestão do agronegócio a sua maior vocação. Tanto que depois de entrar na Estância Celeiro, fez MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas. “Três vezes na semana eu estou dentro da unidade conversando com os funcionários, tenho reunião semanal com o financeiro e gerente administrativo. A minha sala está sempre de portas abertas. Converso diariamente com o RH, que para mim é um dos grandes setores da empresa”, diz a zootecnista. Rabaioli, que é filha de pecuarista e ajuda o pai nos negócios, afirma com toda a convicção que trabalha fazendo o que gosta.

Caçadora de nitrogênio
Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja, definiu o caminho que queria trilhar ainda criança, incentivada pela avó, professora de Ciências. A vovó fazia experiências no quintal e chamava a neta para participar. “Aos oito anos, ela me deu o livro 'Caçadores de Micróbios', com as histórias dos grandes microbiologistas”, afirma. Ali Hungria soube que queria trabalhar com pesquisa. “Eu fui fazer agronomia pensando na pesquisa”, conta para a ANBA. Na escola, como primeira aluna da classe, ninguém acreditou que ela não optaria pela Medicina e sim pela Agronomia como carreira. Assim, de estágio em estágio, Hungria conclui a graduação e o mestrado, na Esalq/USP de Piracicaba, e depois partiu para o doutorado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A entrada na Embrapa ocorreu nesta época.
A agrônoma fez pós-doutorado nos Estados Unidos, mas resolveu voltar para o Brasil, para a unidade da Embrapa em Londrina, motivada pela possibilidade de desenvolver sua própria pesquisa e dar qualidade de vida às duas filhas pequenas. “Fomos o primeiro país a provar que a reinoculação aumenta em 8% os rendimentos anuais da planta”, diz Cunha. A inoculação é o processo pelo qual uma bactéria é inserida no plantio, junto com a semente. Ela ajuda a fixar o nitrogênio no solo e com isso, se gasta menos com fertilizantes nitrogenados, que são poluentes. “Só a economia que traz para a soja é de R$ 20 bilhões por ano”, diz ela.
As bactérias identificadas pela pesquisadora e sua equipe são apropriadas para uso no cultivo de leguminosas, como soja e feijão. Ela também identificou bactérias para inoculação que ajudam no crescimento das plantas em geral e que absorvem mais a água, o que as tornam mais tolerantes à seca. Agora ela lidera estudos do genoma das bactérias que fixam o nitrogênio. A agrônoma, que é premiada, também dá aulas na pós-graduação da Universidade de Londrina, em microbiologia e biotecnologia, e já orientou mais de 50 mestrandos e doutorandos.

Sem títulos
Na outra ponta, sem títulos, também Elisângela Rodrigues Rosa trabalha pelo agronegócio brasileiro. Filha de produtores rurais, ele se casou com um agricultor e passou a ajudá-lo no cultivo de milho, soja, café, feijão e arroz. “De dois anos para cá plantamos só café. Só que agora o (mercado do) café também não está bom”, afirma. Na propriedade do casal, sempre foi Rosa quem cuidou da burocracia. “Mas eu também ajudo na roça”, fala. Há cerca de um ano e meio, vendo o sindicato rural da sua cidade pouco atuante e os agricultores com dificuldades, ela resolveu assumir a presidência da entidade.
“Eu peguei o sindicato com duas cadeiras, duas impressoras, dois computadores, sem mesa e sem teto”, relata. Os cursos oferecidos aos produtores eram cerca de oito ao ano. Hoje a entidade já tem terreno para construir a sede, um carro e ofereceu no ano passado cerca de 52 treinamentos. “Eu vi que falta faz a união dos produtores. Eu senti necessidade de ter conhecimento e passar para o outro. Então entrei no sindicato”, conta. Mãe de duas filhas, além de cuidar da gestão do sindicato, ela ainda ajuda a tomar conta da casa e coordena grupos na Igreja Católica.
Julia Martella de Almeida, de 20 anos, está se preparando para ser uma empreendedora do agronegócio. Estudante do quarto ano de Engenharia Agronômica da Esalq/USP, ela pretende trabalhar com floricultura. Parte de uma nova geração de mulheres do agronegócio, Almeida é filha de um engenheiro agrônomo que trabalha com gado de corte e flor de corte em um sítio em Lins, interior paulista. “Quando eu era pequena, ia até as estufas, colocava terra nos vasos”, relata, sobre o seu gosto pelas coisas do campo. Antes de montar seu negócio em floricultura, porém, a jovem pretende ir para fora do País, estudar e conhecer a tecnologia aplicada à área em nações que são referência neste segmento.

Aptidão feminina

O coordenador do curso de Engenharia Agronômica da Esalq/USP, José Otávio Machado Mentem, que convive com alunos e alunas todos os dias, destaca as aptidões das moças no aprendizado. “As mulheres são mais focadas e dedicadas. O desempenho acadêmico tem sido superior ao dos homens. Têm facilidade de desenvolver atividades como planejamento, pesquisa, estudos, laboratório, comunicação, etc. Ainda existem produtores rurais que têm algum preconceito ao serem orientados por mulheres, mas isto também está diminuindo”, afirma Menten.
Bezerra, da Agritalents, afirma que os setores que mais empregam mulheres no agronegócio, por meio da sua consultoria, são indústrias de defensivos, empresas da área financeira, de pesquisa e laboratórios. A Agritalents seleciona profissionais da área para todo o país, mas seu maior foco é o setor sucroalcooleiro. Segundo ela, uma das dificuldades das mulheres para assumir as vagas é a mobilidade, a troca de cidade para encarar um novo emprego. “Quando é solteira, é mais fácil”, relata. As mulheres, no entanto, diz Bezerra, estão em todas as áreas do agronegócio, inclusive operando colheitadeiras e dirigindo caminhões.