Minha fazenda dá lucro? E quanto pode me pagar?

24/02/2016 13:01

Zootecnista ensina a fazer levantamento de custos na propriedade e calcular pro labore do proprietário

Marina Salles
 

A chamada “conta de padaria”, em que apenas se subtraem as despesas da receita, está longe de atender às necessidades de gestão econômica de um empreendimento, qualquer que seja; e muito menos determinar qual a sua rentabilidade e o valor do pro labore do proprietário. No caso de uma fazenda de pecuária, por exemplo, muitos fatores interferem no resultado. “É preciso ir mais fundo, não dá para parar por aí”, diz Dalmo Machado, zootecnista e co-fundador da Suporte Consultoria Pecuária. Em suas andanças por propriedades Brasil afora, ele conta que não raro precisa partir das bases para organizar as finanças das fazendas.

Nesses casos, seu primeiro passo é definir de que tipo de negócio pecuário está tratando. “Se for uma fazenda de cria, por exemplo, eu sei que a saída de produtos se dá no momento da desmama. Sei que há venda de machos e de excedente de fêmeas, e que o produtor fica com parte delas para reposição de matrizes”, diz. Com um modelo claro na cabeça, é viável fazer planejamentos de longo prazo e propor desvios na rota. “O modelo não precisa ser engessado. Uma fazenda de cria pode vender matrizes se o preço desses animais subir. O que não dá é para mudar de estratégia todo ano”, afirma o zootecnista.

Tendo nítida qual a sua atividade, o pecuarista deve fazer um levantamento patrimonial, que nada mais é do que uma relação de todos os bens da fazenda e seu respectivo valor, à exceção da terra. Entram aí precificação de benfeitorias: casas, galpões, curral, cocho - tudo que for infraestrutura. De itens com motor: caminhonete, moto, trator, máquinas em geral. De implementos: roçadeira, guincho, grade. De equipamentos: motosserra, jogo de ferramentas, freezer, geladeira, ar-condicionado. “A venda desse patrimônio geraria um valor X e é sobre ele que se aplicam fórmulas para calcular a manutenção e depreciação”, diz Dalmo. Ambos os valores devem, obrigatoriamente, entrar no custo anual das fazendas, sendo recomendado ao produtor com menos familiaridade com o assunto buscar assistência técnica. 

“A depreciação, eu costumo dizer, é um valor fantasma que bate à porta quando você precisa trocar aquele trator velho”, lembra Dalmo, e ele explica por que.“Vamos supor que eu comprei uma máquina lá atrás por R$ 100 mil. Hoje, com dez anos de uso, ela vale 40% disso, vale 40 mil. Isso quer dizer que a cada ano eu deveria ter economizado R$ 6 mil para ter os R$ 60 mil que se perderam com a desvalorização”. Em resumo, a depreciação é quanto você precisa poupar para restituir o bem ao final de sua vida útil. O exemplo é ilustrativo, mas ajuda a entender por que a depreciação é uma peça chave no levantamento de custos da propriedade. Somada a ela vem, claro, a manutenção – gasto que faz com que os bens se conservem até o momento da troca. Atualizações nos valores dos bens podem ser feitas ao longo do tempo para corrigir preços e acompanhar o desenvolvimento do mercado.

Feito o levantamento patrimonial e aplicado sobre ele gastos com depreciação e manutenção, é preciso checar outros custos, como os fixos – que independem da atividade pecuária e estão relacionados a gastos com telefonia e alimentação, por exemplo. Os custos variáveis, por sua vez, estão ligados à atividade pecuária em si e mudam conforme o tamanho do rebanho. A esses custos é dado o nome de desembolsos (as famosas “despesas”). Abaixo, o que não pode ficar de fora da sua planilha de controle:

- Impostos: considerando que o produtor seja pessoa física, os mais comuns são o Imposto Sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR) e o Imposto de Renda (IR). De acordo com o estado, podem haver outros.

Sendo pessoa jurídica, há ainda encargos diferentes, como a Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins). Para mais informações, clique aqui.

- Assessoria: se enquadram neste item a prestação de serviços esporádicos por médicos-veterinários, agrônomos e zootecnistas. Escritórios de contabilidade, mais comumente, e de advocacia, quando necessário, também estão sob o mesmo chapéu.

- Custos com infraestrutura: abarcam contas com energia, telefone, internet, combustível e também gastos da sede (com alimentação, limpeza).

- Suplementação do rebanho: dependendo da prática de cada fazenda, pode corresponder a custos com sal mineral, proteico-energético ou ração concentrada.

- Gastos com a pastagem: no geral, adubação e limpeza.

- Sanidade: dividido em três, contempla gastos com vacinas, vermífugos e medicamentos de rotina.

- Reprodução (item levantado em propriedades de cria, não se aplica a fazendas de recria e engorda): agrega custos com inseminação artificial, geralmente anuais, sêmen e hormônios.

- Mão de obra/Recursos Humanos: são os custos com folha de pagamento, ou seja, com profissionais registrados.

Nesse tópico não entram gastos com a figura do empreiteiro, que tem seus próprios funcionários e geralmente presta serviço de manutenção ao produtor. “Quando conserta uma cerca, o pecuarista que calculou depreciação e manutenção tem reservado aí não só o valor do material, mas também da mão de obra, que está prevista no cálculo”, explica Dalmo. Daí a importância de não registrar esse custo uma segunda vez, para que não fique duplicado. 

- Pro labore: último item da lista, é a margem líquida anual que a fazenda pode gerar para o proprietário. Para obtê-la basta subtrair da receita o custo operacional total (depreciação + manutenção + desembolsos) anuais. Dividindo o valor final por 12, o produtor chega ao teto para o seu pro labore mensal. Obviamente, parte desse recurso será reinvestido na propriedade.

“Com todos esses dados, é possível que o pecuarista note que tem maquinário de mais considerando o tamanho do seu rebanho. Ou chegue à conclusão de que vale a pena terceirizar uma atividade a adquirir implementos para sua realização”, afirma Dalmo. Diagnóstico técnico e econômico, o levantamento de custos tem por objetivo fornecer um raio-X das finanças da fazenda e ajudar a identificar problemas que passam despercebidos no dia a dia. O resultado é a melhoria da gestão, seja reduzindo gastos desnecessários ou direcionando estrategicamente os recursos.  

Fonte: Portal DBO