Meio século do leite brasileiro

23/03/2015 22:33

A produção de leite no Brasil, há 50 anos, era de 6,150 bilhões de litros. A atividade se desenvolvia principalmente próxima dos grandes centros urbanos com o propósito de abastecer o mercado consumidor das cidades, como citou João Castanho Dias, no seu livro 500 Anos de Leite no Brasil,Editora Barleus.

Por se tratar de um alimento importante para a sociedade e por ser perecível se não armazenado adequadamente, a produção se concentrava principalmente próxima dos consumidores. Na época ainda não estavam disponíveis as atuais tecnologias de processamento, conservação e transporte de hoje.



Em 1964 a população brasileira estava formada por 77,6 milhões de habitantes e 54% dos brasileiros viviam no meio rural . Nas regiões Norte, Nordeste e Sul, o meio rural abrigava em média dois terços da população, cerca de 66%; no Centro-Oeste, 77%, enquanto na no Sudeste acontecia o inverso, 63% da população já era urbana. Na época, o País contava com 3.239 cidades. 



Após 50 anos, 84% da população brasileira vive nas cidades. Na região Sudeste, esse porcentual chega a 93%. As regiões Norte e Nordeste ainda possuem em torno de 26% da população vivendo no meio rural e atualmente o País possui 5.565 municípios.

Considerando que a maior parte do leite produzido é destinado a abastecer os consumidores dos centros urbanos, em 1964 havia uma disponibilidade anual de 175 litros de leite por habitante, que vivia nas cidades; em 2014, passou para 202 litros com um volume estimado de 34,6 bilhões de litros. Esse índice representou um crescimento de 15,6% na disponibilidade de leite por pessoa, que representa um crescimento pequeno, quando comparado ao crescimento do volume produzido no período de 50 anos, que foi de 463%. 

No Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, a produção de leite não acompanhou o crescimento e a urbanização da população, com redução da disponibilidade de leite produzido por pessoa vivendo em cidades. Apesar da redução da disponibilidade, o Centro-Oeste é a segunda maior região produtora de leite por habitante urbano, atrás somente do Sul com 492 litros/ano. Nessa região o aumento foi de 200 litros de leite por habitante urbano por ano.

No Norte, apesar de que a menor parte da população vivia nas cidades em 1964, a produção também era muito pequena, de apenas 50 milhões de litros por ano, que resultava em 64 litros/habitante/ano. Essa disponibilidade de leite para os consumidores dos centros urbanos mais que dobrou no período e passou para 132 litros. A região Sudeste, com o maior volume de produção, tem a maior concentração de população urbana e a disponibilidade de leite sofreu pequena redução para o público urbano.

Durante o período de 50 anos, a produção de leite brasileira cresceu 28,5 bilhões de litros e o maior volume foi oriundo da região Sul (figura 1), com 10,8 bilhões de litros anuais. O Sudeste contribuiu com 9 bilhões, o Centro-Oeste com 4,7 bilhões, o Nordeste com 2,6 bilhões e o Norte com 1,5 bilhão de litros para os atuais 34,6 bilhões de litros. Vale destacar o grande crescimento dos três estados do Sul, que em 1964 produziam 1,4 bilhão de litros de leite e que neste ano deve chegar a 12,2 bilhões.


Com as tecnologias disponíveis de armazenamento, processamento e transporte do leite, em que os consumidores dos grandes centros urbanos podem ter acesso a um produto de boa qualidade oriundo de qualquer região brasileira, as áreas de produção têm se deslocado para regiões mais distantes das grandes cidades. Outros fatores que “empurram” o leite dos grandes centros são os altos preços da terra e a proximidade dos insumos de produção.

Se a sobrevivência do produtor de leite, em 1964, dependia de estar próximo do consumidor, hoje ele depende da competitividade do sistema de produção, porque, graças aos atuais recursos que envolvem produção e processamento é possível ter produtos lácteos em qualquer lugar e a qualquer hora, independentemente do local que se produza.  


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Rosangela Zoccal é Zootecnista, pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, de Juiz de Fora-MG; e-mail: rosangela.zoccal@embrapa.br