Mangalarga Marchador - Zootecnistas são destaques na Revista Campo & Cidade

18/12/2015 16:28

Cavalo de ascendência portuguesa teve origem em Minas Gerais há 200 anos

Uma história que começa com a ocupação das terras que deram origem ao Estado de Minas Gerais, nos idos do século 17. Contam pesquisadores historiadores e publicações especializadas que as primeiras estradas de acesso à região mineira foram as picadas abertas por indígenas por onde passaram os bandeirantes, atravessando a Serra da Mantiqueira, em busca de ouro. Era um percurso feito a pé o qual normalmente, em média, levava-se dois meses para ser percorrido.

 

Dom João VI monta um cavalo da raça Alter, considerada precursora da raça Mangalarga Marchador no Brasil – Domínio Público/Museu Imperial de Petrópolis

Com o crescimento dos centros mineradores surgiu a necessidade de um caminho mais curto, menos sofrido. Coube ao capitão-mor Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias Paes Leme, a missão de fazê-lo. O “novo caminho” transpôs a Serra de Petropólis/RJ e ligou o Rio de Janeiro a Borda do Campo/MG. Ao longo da uma então estrada deserta foram surgindo estalagens, comércio e produções agrícolas.

Entre o Sul de Minas Gerais e o Rio de Janeiro existia a Comarca do Rio das Mortes, uma extensa região que hoje compreende os atuais municípios de São João Del Rei, Tiradentes, Barbacena, Queluz, Baependi, Campanha, Oliveira e Itapecerica entre outras cidades mineiras. Seu forte não era a extração do ouro e sua paisagem peculiar, com abundância de água e topografia acidentada, favoreceu a pecuária e a agricultura. Do cotidiano rural surgiram fazendeiros que desenvolveram habilidades para a criação de cavalos destinados a auxiliá-los na lida no campo.

 

Mapa mostra a Comarca de Rio das Mortes, existente no século 18 entre o Sul de Minas Gerais e o Rio de Janeiro – Reprodução/Livro A História do Cavalo Mangalarga Marchador

Foi nesse cenário de transformação econômica que o Brasil viu surgir uma nova raça de equinos: o cavalo Mangalarga Marchador. Para entendê-la é preciso voltar ao ano de 1750.

O nascimento

Por volta daquele ano, o português João Francisco, originário da aldeia de São Simão de Junqueira/Portugal, como era costume na época, incorporou a seu nome o topônimo “Junqueira”, e se instalou no Brasil, na região de Rio das Mortes, dedicando-se à agropecuária. João Francisco casou-se com Helena Maria do Espírito Santo em 16 de janeiro de 1758, na igreja de Nossa Senhora do Pilar, em São João Del Rei/MG, e deu origem à família Junqueira. Desse casamento nasceram doze filhos.

Em 1769, Junqueira recebeu do Governo da Capitania de Minas Gerais carta de sesmaria da Fazenda Campo Alegre localizada às margens do Rio Verde, distrito de Encruzilhada, atual cidade de Cruzília/MG.

 

Minas Gerais vivia, na época do surgimento do Mangalarga Marchador, um período de transformação econômica – Domínio Público

Dos filhos de João Francisco, dois se destacaram no trabalho com a agropecuária: Gabriel Francisco Junqueira – o futuro Barão de Alfenas –, nascido em 1782, e João Francisco Junqueira Filho, fundador da Fazenda Favacho. Após a morte do pai, ocorrida em 5 de abril de 1819, aos 92 anos, Gabriel recebeu por herança a Fazenda Campo Alegre. Essas duas fazendas são apontadas como o berço da raça de cavalos Mangalarga Marchador.

Das histórias sobre o surgimento do Mangalarga Marchador, são consenso entre os pesquisadores sua ascendência ibérica e o fato de seu principal formador ter sido um cavalo da raça Alter, atualmente conhecido como cavalo Lusitano. Esses animais, procedentes da Coudelaria Real de Alter do Chão, região de Alentejo/Portugal, chegaram ao Brasil pelas mãos da Família Real, em 1808. Um deles foi doado por Dom João VI ao Barão de Alfenas.
Conta-se que o animal recebeu do príncipe regente o nome de “Sublime”. Dos cruzamentos desse cavalo com éguas selecionadas da Fazenda de Junqueira surgiram os primeiros exemplares da raça Mangalarga Marchador.

 

Coudelaria Alter do Chão, Portugal, berço do cavalo lusitano – Domínio Público/portugalfotografiaaerea.blogspot.com

Algum tempo depois de criar o Marchador, membros da família Junqueira se mudaram para o Estado de São Paulo e levaram seus animais. A adaptação dos equinos a um novo tipo de terreno provocou modificações em sua marcha, fazendo surgir o Mangalarga Paulista, ou simplesmente Mangalarga – o que uma vertente de criadores considera o mais correto.

Em São Paulo

A nova raça fez muito sucesso em São Paulo, pois possuía uma diferença em relação aos marchadores: a marcha trotada. Conta-se que em 1928 o zootecnista Paulo de Lima Corrêa lançou as bases para a caracterização do cavalo Mangalarga, recebendo o apoio dos criadores paulistas Celso Torquato Junqueira e Renato Junqueira Neto que, posteriormente, fundaram a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalos da Raça Mangalarga (ABCCRM).

 

Desenho mostra a casa sede da Fazenda Campo Alegre, de João Francisco Junqueira, o patriarca da família Junqueira no Brasil – Reprodução/Livro O Romance da Raça

O objetivo desses criadores era formar animais adequados tanto para a lida diária com o gado no campo como para um esporte popular naquela época, a caça ao veado. Para isso, buscaram o desenvolvimento de uma raça com bom andamento, resistência, docilidade e nobreza de caráter, além da marcha trotada, obrigatória para que o animal fosse registrado na associação.

 

Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, recebeu um cavalo Alter de presente de Dom João VI – Reprodução/www.cosmologiapesquisa.blogspot.com

Nos dias atuais, a conformação e a resistência do Mangalarga fazem dele uma excelente montaria para as provas de enduro equestre. Seu pescoço esguio e forte permite grande equilíbrio, movimentos amplos e facilidade de engajamento dos membros posteriores. Garupa ampla e comprida e coxas com músculos definidos permitem arrancada rápida.
Característica singular do Mangalarga, a excelente flexão dos joelhos e a regularidade das trocas dos apoios diagonais garantem o conforto característico da marcha trotada apresentada apenas pelo “Paulista”.

As características

Originalmente, o Alter Real não marchava. Essa característica do Mangalarga Marchador veio do cruzamento das raças e também da adaptação à topografia do Sul de Minas Gerais.

A função original do Mangalarga Marchador eram serviços no campo e cavalgadas de transporte. Posteriormente, com o desenvolvimento, passaram também a ocupar a função de animais de passeio e prática esportiva. O animal reúne todas as qualidades de um cavalo de sela: docilidade, versatilidade, rusticidade, resistência e boa morfologia. Responde prontamente aos comandos do cavaleiro e esse, por sua vez, pode permanecer por muito tempo em seu dorso sem se cansar, graças ao andamento marchado desse equino.

 

O imponente cavalo lusitano deu origem ao Mangalarga – turismoepa.blogspot.com

Entre suas características, a frente leve, com pescoço bem dirigido. A paleta inclinada e comprida permite posição ideal para o cavaleiro. Enquanto o tronco forte, com linha dorso-lombar retilínea e paralela à linha do solo, costela amplas, lombo curto e peito amplo e profundo proporcionam segurança ao montar, resistência para trabalhos pesados, boa musculatura e boa saída de braço.

Os Mangalarga possuem ainda garupa forte, ampla e comprida e seus apreciadores dizem que essa característica lhe garante arrancadas rápidas. Membros fortes, bem estruturados e aprumados, além de articulações grandes e tendões nítidos são outras características do animal.

Outros marchadores

No Brasil, outras quatro raças possuem a característica de marcha: os cavalos Campolina, Piquira e Campeiro e o jumento Pêga.

 

Vista da antiga sede da Fazenda Favacho que, ao lado da Campo Alegre, é considerada o berço da raça Mangalarga Marchador – Reprodução/Livro O Romance da Raça

O Campolina também foi uma raça formada em Minas Gerais, resultado do trabalho de Cassiano Campolina, a partir de um garanhão de nome “Monarca”, filho de um Puro Sangue Lusitano que pertencia à Coudelaria Real de Alter, de Dom Pedro II. Os descendentes de “Monarca” sofreram a infusão de sangue das raças Percheron, Orloff e Oldenburger, Mangalarga Marchador e Puro Sangue Inglês. É considerado o “grande marchador” brasileiro por causa de sua estatura – cavalo e cavaleiro montado podem atingir dois metros de altura.

O Piquira também surgiu no Sul de Minas Gerais, espalhando-se inicialmente por Goiás, Bahia e Estados do Nordeste. A palavra “piquira” é de origem tupi e significa pequeno. Hoje esses animais são encontrados em todo o País. Originário de uma miscigenação de raças, o Piquira é um animal com altura máxima de 1,30 metros para os machos e 1,28 metros para as fêmeas. Com andamento marchado e cômodo, é ideal para pequenas propriedades e acabou sendo conhecido como o “cavalo da garotada”, pois, grosso modo, é parecido com o pônei em termos de estatura.

 

No Estado de São Paulo o Mangalarga era utilizado, por exemplo, para as caçadas da família Junqueira – Reprodução/Livro A História do Cavalo Mangalarga Marchador

Já o Campeiro é o “caçula” entre os marchadores. Animal provavelmente descendente das primeiras incursões espanholas na época da colonização, no Sul do Brasil, no século 17, é conhecido como “Marchador das Araucárias”. No século seguinte, para aprimorar a raça, presente especialmente na região dos planaltos catarinense e gaúcho, o Campeiro foi cruzado com Puro Sangue Inglês e Árabe. A Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Campeiro (ABRACCC) foi criada em 1976.

Por fim, surgiu em Minas Gerais o jumento Pêga, uma raça de asininos que possui também a característica da marcha. Seu cruzamento com éguas resulta geralmente em burros ou mulas (muares) bons de marcha. Já o cruzamento da jumenta com o cavalo dá origem ao bardoto, animal que tende a ter as características físicas mais parecidas com as do cavalo.
Sendo os muares uma necessidade brasileira, e especialmente mineira, nos séculos 18 e 19 por conta da indústria da mineração, não é de se espantar que os mineiros criassem seus próprios animais para essa finalidade. A raça de jumento Pêga, nascida nas cercanias de Lagoa Dourada/MG, transformou-se na queridinha do Brasil principalmente em razão de sua docilidade e resistência.

A marcha

O zootecnista Lúcio Sérgio Andrade é considerado um dos maiores estudiosos da raça Mangalarga Marchador, possuindo mais de 30 publicações na área. Em um artigo, Andrade explica que a marcha original da raça foi a de quatro tempos definidos: a batida clássica, a marcha de centro, a marcha picada ou a marcha trotada.

 

Juscelino Kubitschek de Oliveira, então governador de Minas Gerais, monta o Mangalarga Marchador “Passa Tempo”, Reservado Campeão da Raça em 1950 – Reprodução/Livro A História do Cavalo Mangalarga Marchador

Na marcha batida clássica vê-se bípede diagonal dominante com boa dissociação, o que implica na alternância entre os deslocamentos de bípedes diagonais e laterais, intercalados por momentos de apoio tríplice, exatamente como está definido no padrão racial. “Qualquer outra interpretação que favoreça o excesso de diagonalidade é anti-zootécnica”, diz ele.
Já na marcha de centro, os tempos de apoio diagonais são iguais, ou bem próximos, dos tempos de apoios laterais, com maior frequência e definição dos apoios tripedais. “A marcha em centro é como se fosse o andamento ao passo, porém em média velocidade, com as batidas dos cascos escutadas em iguais espaçadas”, explica.

Bípede lateral dominante, com bom equilíbrio entre os tempos de apoios diagonais e laterais, é a principal característica da marcha picada. As batidas também são escutadas igualmente espaçadas. Nela, “a comodidade é bem próxima da comodidade da marcha de centro”.

E, por fim, a marcha trotada, quando ocorre o deslocamento quase simultâneo dos bípedes diagonais, gerando um mecanismo peculiar de sustentação e locomoção. “O estilo é característico, pois os deslocamentos são nitidamente elevados e flexionados, tanto dos membros anteriores quanto dos posteriores”, diz o especialista.

Cristiane Guimarães