Mais perto do homem

18/12/2015 15:32

Cuidados com o bem-estar do rebanho aumentam ganho na produção de arrobas por hectare

Mônica Costa

Pesquisa realizada por uma dupla de pesquisadoras do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Grupo ETCO), da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp  Jaboticabal) atestou que o contato mais frequente de humanos com bovinos mantidos em pasto rotacionado pode reduzir a reatividade e ainda trazer benefícios para o sistema produtivo, como aumento da lotação por hectare, redução dos acidentes no curral e do tempo de trabalho.

Os dados foram coletados com base na observação de 3.600 animais em três das seis fazendas da região de Paragominas, nordeste do Pará, a 320 km de Belém, que participaram do Projeto Pecuária Verde, iniciativa que promoveu, entre 2012 e 2014, ações para a aumentar a produtividade dos pastos, adotar técnicas de bem-estar animal e adequação às exigências ambientais.

Entre as iniciativas estavam a intensificação dos pastos e a introdução do pastejo rotacionado, que obrigou os vaqueiros a transferirem o rebanho de piquetes com maior regularidade. Além disso, os animais deveriam ser pesados uma vez por mês para verificar se o manejo estava dando os resultados esperados. “A necessidade de um manejo mais frequente suscitou, entre os criadores, o receio de que esta medida afetasse o desempenho do ganho de peso dos animais”, lembra o Zootecnista Mateus Paranhos, coordenador do ETCO e um dos consultores especialistas do projeto.

“Muitos pecuaristas resistem em adotar o pastejo rotacionado. Alguns argumentam que ‘mexer com os bois’ é ruim para o processo de engorda, outros acham que é muito complicado fazer o manejo entre os vários piquetes. Outros, ainda, que os animais ficam muito reativos. Porém, os produtores do projeto Pecuária Verde afirmam que os animais se adaptam de tal maneira que, espontaneamente, já se posicionam para mudar de piquete no dia certo, facilitando o trabalho dos vaqueiros. Ou seja, o contato mais frequente deixa os animais mais mansos, desde que seja feito respeitando suas características”, explica. Os resultados alcançados pelas fazendas apontam para o aumento dos índices de produtividade, lucratividade e redução de custos de produção. Em três anos a produção aumentou de 7 para 36 arrobas por hectare.

Na Fazenda Marupiara, os lotes de bovinos adultos são transferidos de piquetes a cada dois dias e levados para a pesagem uma vez por mês. A proximidade dos vaqueiros, ao contrário do que se prega, mantém a boiada calma, menos reativa. “Adotamos um sistema de manejo sem gritos ou pancadas. Com os animais menos assustados, a lida com o rebanho ficou mais rápida e segura”, afirma Mauro Lúcio Costa, dono da propriedade, localizada em Tomé-Açu, na região de Paragominas, PA.

Costa é presidente do Sindicato Produtores Rurais de Paragominas, idealizador do Projeto Pecuária Verde. Segundo ele, “quando as pessoas são treinadas para trabalhar com rebanho bovino de maneira correta, as coisas ficam mais fáceis e, ao contrário do que se preconiza, o desempenho dos animais não é afetado quando eles são levados para pesar. Isso só acontece se o manejo for inadequado e a boiada apanha ou se machuca, aí eles comem menos porque estão sentindo dor. Sem isso e com instalações adequadas os animais respondem melhor”.

Na fazenda, onde são mantidas 2.000 cabeças de gado anelorado, a melhoria do temperamento dos bovinos permitiu o aumento da lotação nos pastos intensificados de 1,44 UA/ha em 2012 para 2,21 UA/ha no fim do projeto. A área destinada para a pecuária foi reduzida em 25% e direcionada para a agricultura. O ganho médio de peso aumentou em mais de 100 gramas/ dia/cabeça e o peso ao abate registrou aumento de 2,5%.

 

Além dos benefícios para temperamento dos animais, foram constatados outros ganhos como a melhoria da rotina de manejo nas fazendas, com a maior facilidade de condução dos animais para a realização de procedimentos usuais no curral. "Antes do treinamento, a vacinação do rebanho levava até seis dias para ser concluída e ainda havia muitos problemas, como animais que não recebiam a dose correta da medição ou com abscessos por terem sido furados no lugar errado. Agora em quatro dias todos os animais estão vacinados e não há mais problemas", explica Marcus Vinícius Scaramusa, gerente da Fazenda São Luiz, que mantém um rebanho com até 1.800 cabeças em ciclo completo.

Segundo os criadores, antes da adoção do projeto, o manejo dos animais era estressante e resultava, muitas vezes, em acidentes. Depois os vaqueiros passaram a trabalhar com atenção e dedicação, resultando, na maioria das vezes, em finalização de um dia de trabalho sem a ocorrência de animais agredidos, machucados ou conduzidos de forma inadequada.
Com animais menos reativos, todo o trabalho de contenção para manejo de vermífugos, vacinação ou pesagem é mais rápido e eficiente. "Conseguimos registrar uma redução de mais de 60% no tempo de trabalho com cada animal, o que significa uma queda de 2 minutos para 40 segundos por manejo e a liberação de funcionários para fazer outras atividades na fazenda", afirma a zootecnista Carla Ferrarini, coordenadora do Projeto Pecuária Verde.

Mais dóceis

As pesquisadoras Maria Camila Ceballos e Karina Góis observaram, entre os meses de maio e junho de 2013, 3.600 bovinos machos inteiros de raças distintas em fase de terminação, mantidos a pasto, nas Fazendas Santa Maria, Marupiara e São Luiz. Com base em conceitos como docilidade, medo, curiosidade, tensão, tranquilidade e reatividade dos bovinos, foram avaliados os efeitos de duas diferentes frequências de manejo sobre o temperamento dos bovinos de corte mantidos a pasto, e a relação entre o temperamento dos animais e seu ganho de peso médio diário em cada um das condições de manejo frequente ou pouco frequente.
Sob manejo frequente (MF) ficaram 2.007 animais submetidos ao sistema rotativo. Estes bovinos mudavam de piquete a cada quatro dias, tendo a altura da forragem como critério para mudança. A lotação média dos piquetes era de 3 UA/ha, o manejo de pesagem era mensal e os procedimentos sanitários realizados semestralmente. Os outros 1.593 animais instalados em pasto alternado recebiam um manejo considerado pouco frequente (MPF). A transferência de piquete ocorria em média a cada 20 dias, de acordo com a experiência dos trabalhadores. A densidade de lotação foi em torno de 1 UA/ha e a frequência de manejo dos animais no curral era de seis meses, para a realização de procedimentos sanitários de vacinação e pesagem.

Foram utilizadas três metodologias de avaliação do temperamento no tronco de contenção: escore composto de reatividade (ECR), que avalia o grau de movimentação tensão, respiração audível, postura corporal e ocorrências de mugidos e de coices durante o manejo. A pontuação do escore de reatividade obedece a valores cuja maior nota aponta animais agressivos e a menor, animais dóceis. A velocidade de saída, medida em metros por segundo (VS) de cada animal do tronco de contenção, mostra que os animais mais rápidos são os mais reativos e a avaliação qualitativa do temperamento (QBA) estabelece uma escala de adjetivos que inclui 14 termos (ativo, relaxado, amedrontado, agitado, calmo, atento, positivamente ocupado, curioso, irritado, apático, confortável, agressivo, sociável e indiferente) para cada animal para classificar o animal (veja gráficos).

Os resultados mostram que os rebanhos mantidos sobre manejo frequente registraram os menores índices na velocidade de saída, assim como os patamares mais baixos em reatividade. Os dados podem ser atribuídos ao maior contato dos bovinos com o manejador, em decorrência da maior frequência de manejos, tanto no curral quanto durante a troca de piquetes.

Quanto ao indicador de temperamento as melhores respostas - menor grau de medo e de agitação, mais relaxados, calmos e confortáveis - foram encontradas nos animais mantidos sob a condição de manejo frequente, para duas das três fazendas avaliadas. O que confirma que há melhoria do temperamento dos bovinos em função de manejos constantes no curral, sugerindo estar relacionado a um processo de habituação aos humanos e ao manejo, bem como pelo condicionamento dos animais, que passaram a associar a presença de humanos à oferta de alimento, ou seja, à maior disponibilidade de pastagem, que pode ser caracterizado como um reforço positivo. Os dados também atestam que as atividades no manejo frequente não alteraram o ritmo de ganho de peso diário dos animais. 

* Matéria originalmente publicada na Revista DBO de fevereiro de 2015 (páginas 56 e 57).

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