Jornal da Pecuária apresenta série especial sobre confinamento

25/10/2013 21:29
 
Merce Gregório/Canal Rural
Foto: Merce Gregório/Canal Rural
Equipe percorreu fazendas de confinamento no Estado de Goiás
 

Cinco reportagens mostram os aspectos mais importantes do sistema, como planejamento, nutrição e manejo

A programação comemorativa dos dos anos do Jornal da Pecuária estreou uma especial sobre o confinamento de gado bovino no Brasil. São cinco reportagens mostrando os aspectos mais importantes do sistema, como planejamento, nutrição e manejo.

Confira a galeria de imagens feitas durante a produção e veja abaixo todas as reportagens da série:

• Produtores da região central apostam no confinamento para garantir rentabilidade (Exibida em 02/09/2013)

preço do boi gordo na região central do Brasil sobe no período da seca devido a pouca oferta de animais. Atentos a essa oportunidade de ganhar mais dinheiro, na década de 80, muitos produtores rurais começaram a fechar o gado e tratar no cocho. Porém, no início dos anos 2000, que o confinamento se tornou popular no país.

O pecuarista Donizeth Peixoto da Costa, do município de Bela Vista, em Goiânia, começou a confinar em 1989, com 86 cabeças de gado. Hoje, ele engorda mil animais por ano.
 
Segundo Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), em 2012, foram confinadas 3.400 milhões de cabeças de gado. A maioria dos currais de engorda está nos Estados onde a seca é mais acentuada nos meses do outono e do inverno. Goiás, Mato Grosso, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais respondem por quase 90% dos confinamentos no Brasil. Outros Estados, como Rondônia e Paraná, já começam a aparecer nas pesquisas.
 
Os confinamentos no Brasil têm tamanhos muito variados. De acordo com a Assocon, entre as 770 unidades identificadas e que operaram no ano passado, algumas estruturas tinham apenas 30 cabeças e outras mais de 100 mil. Mas, a maioria, cerca de 80%, trabalha com até 5 mil cabeças fechadas. Os pequenos e médios confinamentos são responsáveis apenas pela metade dos animais confinados. Os outros 50% estão nos grandes projetos, que representam 8% do total de confinamentos no país.
 
Este ano o setor deve manter o mesmo ritmo de 2012, com um crescimento ainda tímido. Em 2013, o número de animais confinados deve aumentar 4% em comparação com o ano passado.

– Não é um número grande, muito por conta do custo que ainda está caro, apesar de mais barato que no ano passado. Mas em alguns Estados a conta ainda não fecha. O preço do boi magro acaba ficando alto para esses Estados também – disse o gerente executivo da Assocon, Bruno Andrade

Especialistas nas mais diversas áreas do agronegócio acreditam que o pecuarista brasileiro vai aprender a aliar o confinamento à pecuária intensiva à pasto, melhorando as forragens e aumentando a taxa de lotação nas propriedades.
 
– Acho que o que vai acontecer agora é otimizar mais o pasto, aprimorar a integração lavoura pecuária e maximizar os dois. Eu acredito muito na junção dos dois, do confinamento com o pasto – disse o coordenador do confinamento experimental da EVZ/UFG, Juliano Fernandes.

• Boa gestão do gado confinado diminui a taxa de risco do negócio (Exibida em 03/09/2013)

Para muita gente, o confinamento é considerado uma atividade de risco. O presidente da Comissão da Pecuária de Corte da Federação de Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), José Manoel Caixeta Haun, alerta que se o pecuarista investir em confinamento como sua única atividade, o risco é alto. A segunda reportagem da série especial Confina Brasil, do Jornal da Pecuária, mostra como o confinamento pode ser usado para fazer uma gestão eficiente da pecuária ao aumentar a produtividade por área, enfrentando os riscos de perdas para o produtor.

– Tem que ser muito eficiente para ter resultado, tem que ser eficiente na compra do boi, tem que travar preço, tem que ser eficiente para produzir arroba – diz o pecuarista José Eduardo Vilela.

Está está provado que, se for bem conduzido em todas as etapas, o confinamento pode trazer retorno significativo para o pecuarista. É uma das opções para alcançar a eficiência: produzir mais arrobas em menos tempo e espaço.

De um lado há mais demanda por alimento, cada vez maior por causa do crescimento da população mundial. De outro, a redução na oferta de novas áreas para produção e a elevação dos preços das já existentes. Nos últimos dez anos o valor médio do hectare mais do que dobrou no país. Como na seca não há pasto bom o suficiente para engordar o boi, o confinamento surge como uma das alternativas para não perder tempo e, consequentemente, dinheiro.

Mas, para visualizar essa eficiência, é preciso fazer as contas. Engordar um boi para o abate custa hoje, em valores aproximados, R$ 1.450,00. Neste valor estão incluídos três cusstos: o preço do garrote de oito arrobas, que custa cerca de R$ 730; os custos para manter o aninal no pasto até ele atingir 13 arrobas, cerca de R$ 250; mais de R$ 470 do custo do confinamento por 90 dias, considerando uma diária de R$ 5 por cabeça.

Se bem alimentado, esse animal pode ganhar até sete arrobas no confinamento, somando 20 arrobas no fim do ciclo. Com a arroba valendo R$ 98 no dia do abate, esse animal vai valer R$ 1.960,00, ou seja, sobram R$ 510 para o pecuarista.

– No pasto a gente não consegue mais que 52% de aproveitamento, no confinamento eu consigo uns 55% – afirma o pecuarista Orlando Resende.

– A conta passa a fazer sentido quando consideramos que esse animal vai para o abate até um ano mais cedo do que se estivesse apenas no pasto. No período da seca, o boi alimentado somente com capim, pode até perder peso, dependendo da qualidade da pastagem e do manejo. Aumentando o giro de animais na propriedade durante o ano, o pecuarista aumenta a produção de arrobas por hectare.

– No período da seca, que não tem alimento, eu trago o animal para um sistema mais eficiente, é um jeito de medir essa eficiência – diz Juliano Fernandes, coordenador do confinamento experimental da Escola de Veterinária e Zooctecnia da Universidade Federal de Goiás.

Escolher boa genética, criar e recriar bem um bezerro ou saber apartar o boi magro, manejar bem as pastagens, tudo isso vai influenciar no resultado da atividade. Essas regras valem para todos os tamanhos de confinamento.

– Se tiver boa genética, boa sanidade, boa nutrição, uma mão de obra pelo menos um pouco especializada, você consegue ótimos resultados assim como os grandes confinadores – afirma o zootecnista Renner Rodrigues.

• Montar confinamento exige estudo detalhado da atividade (Exibida em 04/09/2013)

Montar um confinamento exige um estudo detalhado de toda a atividade. Fatores como a localização da fazenda, a estrutura dos currais, e as quantidades de maquinário e de mão de obra devem ser levados em conta na hora de começar o sistema. E a regra número um para quem quer entrar ou se manter na atividade ganhando dinheiro é agir como um bom administrador.

>> Confira imagens de bastidores da série do Jornal da Pecuária

A localização da fazenda está diretamente ligada aos custos de transporte, tanto dos insumos quanto dos animais. Quanto mais distante dos fornecedores, maior é o custo do sistema. A estrutura dos currais e de toda a parte de apoio, como da fábrica de ração e do reservatório de água, precisa ser funcional e facilitar o trabalho do dia a dia. As quantidades de maquinário e de mão de obra devem ser calculadas levando em consideração o número de animais que serão confinados.

– Às vezes a pessoa não tem conhecimento para saber se o número é bom ou ruim. Mas, se ela tiver os números em mãos, qualquer técnico vai poder dizer se ele é bom ou ruim – afirma o coordenador do confinamento experimental da Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ/UFG), Juliano Fernandes.

O valor das instalações pode variar muito. De acordo com a Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), o custa da estrutura pode variar de R$ 185 a R$ 500 por cabeça.

Mas não basta economizar na estrutura, se a compra, tanto do boi magro quando dos insumos, não for bem feita. O boi magro representa cerca de 65% do custo de um confinamento e a alimentação, de 25%. Por isso, é preciso se antecipar à demanda e negociar com fornecedores para garantir bons preços.

– No passado, eu trabalhei com torta de algodão. Minha torta saiu por mais ou menos R$ 350. Quem fechou o segundo ciclo e comprou em cima da hora a torta de algodão, chegou a R$ 650. Eu pergunto: essa conta fecha? – afirma o pecuarista Orlando Resende, que confina até 2 mil cabeças por ano em Anicuns (GO).

O operacional representa os outros 10% do custo da atividade. A ociosidade dos currais só é saudável nas fazendas em que o confinamento é usado para terminar o gado da propriedade. Já onde o confinamento é a atividade principal, é preciso trabalhar o ano todo, mesmo na época de chuva, com lotes menores.

Fazendo o dever de casa, ao reduzir os custos e otimizar a produção, resta ainda uma última missão: saber vender o boi gordo. Usar as possibilidades que o mercado oferece, como boi futuro e contrato de opção, é uma das sugestões dos profissionais do setor para evitar surpresas desagradáveis na hora de mandar o animal para o frigorífico.

– Se você ficar esperando preço, poderá se decepcionar. Pelo menos uns 60% do gado deve ser vendido com antecedência – afirma o pecuarista José Eduardo Vilela.

• Confinamento requer atenção à alimentação e ao manejo (Exibida em 05/09/2013)

Não é só o olho do dono que engorda o boi. Nesta reportagem da série Confina Brasil, você vai ver que no confinamento a alimentação e o manejo precisam ser vigiados com rigor. Isso para que o peso na balança justifique os custos de produção.

Considerando que o boi engordado no confinamento morre, em média, com 30 meses de idade e que ele fica apenas três meses confinado, o período que ele passa nos currais de engorda representa apenas 10% da vida do animal. Os outros 90% do tempo de vida ele passa no pasto. Por isso, para o zootecnista Pedro Veiga Paulino, quem faz cria e recria também é responsável pela qualidade da rês que vai para ao abate.

– Grande parte da vida, o boi passa na recria, num manejo nutricional muito aquém do potencial de ganho de peso dele. Temos que evoluir na recria – diz Paulino.

A partir do momento em que o gado entra nos currais de engorda, a responsabilidade do bom desempenho do animal passa a ser de quem vai terminar o boi. Fornecer alimentação adequada e água em abundância é essencial. Em média, um boi consome 14 quilos de comida e até 60 litros de água por dia. Para engordar, o animal precisa de fibras, proteínas, fonte de energia, minerais e vitaminas. A dieta tem que ser balanceada por um nutricionista, que precisa encontrar o equilíbrio entre o menor custo e o bom desempenho.

– O parâmetro para a alimentação do gado no confinamento é o milho e o farelo de soja. Se você balancear com milho e farelo de soja, é muito difícil errar. Porque eles são como o arroz e o feijão no prato do brasileiro – diz o coordenador do confinamento experimental da Escola de Veterinária e Zootecnica da Universidade Federal de Goiás (EVZ/UFG), Juliano Fernandes.

Conhecer a origem dos produtos que compõem a alimentação dos animais ajuda a evitar problemas com contaminação, por exemplo. Muitos confinamentos, independentemente do tamanho, preferem produzir alguns dos ingredientes, principalmente a silagem, para controlar a qualidade e, ao mesmo tempo, reduzir custos. As fazendas goianas de Conforto, em Nova Crixás, e Planura, em Aruanã, por exemplo, produzem boa parte do que o gado come.

Cuidados com manejo também influenciam na engorda do boi. Separar os lotes de acordo com o peso de chegada e predominância de raça padroniza o consumo de alimento e evita grandes diferenças de comportamento.

– Ter vários de tipos de gado e várias idades no mesmo lote é um problema – diz Márcio Sena, diretor da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás.

Respeitar um espaço mínimo, entre 6 e 12 metros quadrados por animal, e 50 centímetros de linha de cocho, propicia conforto dentro do curral e diminui disputas por alimento. Molhar os currais gera bem-estar, pois refresca o calor, segura a poeira, e ainda ajuda a evitar problemas respiratórios. E os currais precisam ser vistoriados todos os dias. Pois o olho do dono é fundamental para fiscalizar se tudo está correndo bem para que o animal ganhe peso.

– Eu preciso ter um acompanhamento semanal aqui no confinamento. Não posso esperar um mês pra ver como ele está se desenrolando. Se alguma coisa estiver errada, preciso tomar atitude imediatamente – diz Cláudio Braga, diretor de agronegócios da Fazenda Conforto.

• Cresce confinamento para engorda de bois de terceiros no Brasil (Exibida em 06/09/2013)

Nos últimos anos, o Brasil viu aumentar o número de confinamentos que se especializaram em engordar bois de terceiros, assim como acontece em outros países. E a missão de quem presta esse serviço é fazer o pecuarista e o confinador ganharem dinheiro com a atividade.

No dia da visita da reportagem à Fazenda Planura, em Aruanã (GO), 26,8 mil animais estavam fechados nos currais de engorda. E nenhum deles era de propriedade da fazenda. A estrutura, uma das mais modernas do país, é usada para engordar bois de pecuaristas parceiros. O mesmo modelo de confinamento foi encontrado na Fazenda Conforto, em Nova Crixás, também em Goiás, e na Fazenda Mirante, em Nerópolis, região metropolitana de Goiânia.

Os usuários do  serviço são pecuaristas que não têm área o suficiente ou interesse em montar confinamento próprio. Mas também pessoas como Mário Bittar Filho, que usam a prestação do serviço para engordar bois que não couberam nos confinamentos que eles possuem em suas propriedades.

– Na nossa fazenda, ainda estamos aprendendo, e aqui eles já são profissionais no confinamento – afirma Mário Bittar.

Na maioria dos prestadores de serviço, o lote mínimo é de 120 cabeças. O pagamento geralmente é feito de duas formas: a parceria ou o pagamento de diária no sistema de boitel. Na parceria, o pecuarista que fornece os animais receberá depois do abate apenas o valor referente ao peso do boi magro, mas a preço de boi gordo. Já no sistema de boitel é paga uma diária por cabeça e o dono do animal recebe o valor referente a todas as arrobas abatidas. A diária de um boitel fica em torno de R$ 6,40.

– Em determinado momento, vai ser mais interessante fazer parceria. Em outro, fazer boitel. Quando a dieta está muito cara, por exemplo, quase não vemos o pagamento de diária – afirma o gerente executivo da Associação Nacional de Confinadores (Assocon), Bruno Andrade.

Na maioria dos casos, o confinamento fica responsável também por negociar a venda dos animais para os frigoríficos e quase sempre fecha parceria com as indústrias, se comprometendo a fornecer o boi gordo. Em alguns casos, como o da Fazenda Planura, são os próprios frigoríficos que administram a estrutura. O grupo tem outras seis unidades espalhadas pelo país. A gestão por parte das indústrias e o sistema de parceria fazem os confinamentos no Brasil parecerem um pouco com o modelo norte-americano.

– Nos Estados Unidos, muitos confinamentos são de fábricas de ração. Eles pegam o boi de terceiros e oferecem a ração – afirma o diretor da associação dos engenheiros agrônomos de Goiás.

Mas, em volume de animais confinados, há bastante diferenças entre os países.

– Na Austrália, 50% dos animais abatidos saem dos confinamentos. Nos Estados Unidos, esse número chega a 85%. Enquanto que aqui, no Brasil, apenas 9% das rezes que chegam aos frigoríficos foram engordadas exclusivamente no cocho. 
Essa diferença está diretamente ligada ao perfil de produção a pasto do Brasil, apesar da redução na oferta de novas áreas. E, por isso, os especialistas daqui apostam no casamento entre o confinamento e as pastagens.

– Eu acredito que o melhor para a sociedade brasileira é o crescimento de projetos menores, mais disseminados e voltados para a produção a pasto e terminação no confinamento – presidente da Comissão de Pecuária de Corte da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), José Manoel Caixeta Haun.

Juliano Fernandes, coordenador do confinamento experimental da Escola de Veterinária e Zootecnia da Universidade Federal de Goiás (EVZ/UFG), acrescenta:

– Se você olhar as duas atividades isoladamente, você nunca vai querer mexer com confinamento. Mas, se você atrelar as duas, você aumenta tanto sua rentabilidade que nunca mais vai querer sair do confinamento.

CANAL RURAL

Confinamento da fazenda Conforto:imagem 4

Confinamento do sr. Donizeth, no município de Bela Vista de Goiás:imagem 5

Confinamento Mirante:imagem 6

Confinamento Mirante, no município de Nerópolis-GO; prestador de serviço:imagem 7

Confinamento na fazenda do João Carlos, metade da estrutura foi feita com material reaproveitado:imagem 8