Gado para salvar o planeta

15/09/2013 11:44
 
Editora Globo

Na luta contra a desertificação, o ambientalista africano Allan Savory já mandou matar 40 mil elefantes. Agora, arrependido, defende as grandes pastagens como resposta para acabar com as áreas de desertos e amenizar os efeitos do aquecimento global

por texto: Tiago Cordeiro | ilustrações: Dalts

É lugar-comum entre ambientalistas: quando grandes grupos de animais herbívoros pastam em um determinado local, o solo fica muito prejudicado. Os animais podem destruir a vegetação à medida que comem parte das plantas e pisoteiam o restante. Sem a vegetação e as raízes que ajudam a absorver a água, o ecossistema pode ser comprometido a ponto de transformar a região em deserto. O biólogo africano Allan Savory pensava assim. Em 1950, ele tomou uma atitude polêmica em favor da hipótese: comandou a matança de 40 mil elefantes que, em tese, estariam acabando com a vegetação de um parque africano na Rodésia, atual Zimbábue. 

A medida sugerida pelo especialista foi levada a cabo e os elefantes foram sacrificados a tiros ao longo de dez anos. Mas a situação do parque só piorou. Hoje, Savory se arrepende da decisão. “Foi o maior erro da minha vida”, diz. “Vou carregar o arrependimento para meu caixão.” Movido pela culpa, ele colocou como meta pessoal o estudo de soluções para acabar com o problema da desertificação no mundo. 

Depois de anos de pesquisas, tornou-se militante de um movimento que propõe uma solução que soa inusitada aos ouvidos dos ambientalistas tradicionais: a pastagem holística. Nessa técnica, os rebanhos são estimulados a pastar como faziam antigamente sem a interferência humana, não confinados a apenas um local. Nos dois últimos anos, a ideia começou a ganhar mais força e adeptos: em fevereiro deste ano, Savory apresentou os resultados mais recentes de seu trabalho em uma palestra no TED (o vídeo no YouTube já rendeu mais de 1,2 milhão de acessos) e suas teorias passaram a ser replicadas por mais de 2,5 mil fazendeiros nesse período. “Não existe outra técnica mais eficiente para resgatar áreas em processo de desertificação”, afirma. “Plantar grama e árvore, criar sistemas de irrigação, usar máquinas para revirar o solo artificialmente, nada disso é tão eficaz quanto deixar a natureza voltar a seu curso natural, que nós interrompemos.” 
 

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REI DO PASTO: O biólogo africano Allan Savory (esq.) faz palestra no TED 2013 sobre sua técnica de pastagem. Na parte superior, com o chão avermelhado, um terreno devastado em Wyoming: abaixo, o mesmo local com a vegetação recuperada por meio da sua técnica

O GADO É A SOLUÇÃO 
A técnica proposta por Savory é simples: deixar grandes grupos de animais pastando poucos dias em um único local e em movimento constante, a fim de garantir a alimentação e fugir de predadores. Para o biólogo, foi assim que a natureza funcionou em equilíbrio por milênios — até que o ser humano começasse a encurralar o gado e a limitar seu espaço de movimentação. “O problema não está no gado, mas na forma como ensinamos os animais a pastar, sempre no mesmo local”, afirma. Segundo ele, as patas dos animais ajudam a quebrar o solo endurecido em muitos casos, o que aumenta a infiltração de água. O importante é que eles não permaneçam tempo demais no mesmo local, a ponto de pisotear e acabar com a vegetação. 

Ao longo de dois anos, Savory agrupou o gado em blocos compactos, movimentou os rebanhos por locais diferentes e analisou a vegetação. Ao fim do período, ele identificou um aumento na quantidade de nutrientes minerais do solo, fundamentais para a dieta das plantas: nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio e magnésio. Mais do que isso, viu a vegetação voltar a crescer rapidamente. 

Savory crê tanto na técnica que vem globalizando-a nas últimas três décadas. Já colocou teoria em prática na África, na Austrália e na Nova Zelândia e também nas Américas do Norte e do Sul, com 10 mil fazendeiros, que, somados, detêm uma área de 16 milhões de hectares, o equivalente ao estado do Acre. Eles usam animais como vacas, bois, búfalos, zebras, girafas e elefantes para recuperar o solo e prevenir a desertificação. Quem adotou a técnica se diz empolgado. É o caso do fazendeiro Ivan Aguirre, do Rancho Inmaculada, no estado de Sonora, no noroeste do México. “Depois de 15 anos, meu gado está bem alimentado, as plantas estão mais saudáveis e o número de áreas secas é bem menor em relação às propriedades vizinhas”, diz ele. Em Dimbangombe, no Zimbábue, uma região de 2,9 mil hectares que estava a caminho de se tornar um deserto experimentou um aumento do número de plantas em quatro vezes em apenas cinco anos. Na Patagônia, o engenheiro agrônomo argentino Pablo Borreli diz que “os resultados começaram a aparecer muito rápido. Em dois anos, a vegetação já estava se recuperando”. Na sua fazenda, 25 mil ovelhas foram colocadas para pastar em bloco. Depois de um ano, o volume de vegetação aumentou em 50%. 
 

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INGENUIDADE À PROVA 
Nascido há 77 anos na Rodésia, atual Zimbábue, Savory passou boa parte da infância no Quênia. Desde criança, gostava muito das paisagens vastas e não hesitou em se formar em biologia. Ainda jovem, virou técnico consultor na sua terra de origem. O governo do primeiro-ministro Ian Douglas Smith queria criar um parque no norte do país, e ele foi encarregado de pesquisar a desertificação acelerada do local, dominado pelos elefantes. “Na época, fui ingênuo e apenas segui meu treinamento universitário”, diz. Foi nessa época que teve a experiência malsucedida com os animais. Mesmo com o fracasso, continuou trabalhando com o governo rodésio. “Eu ainda não achava que os animais poderiam ajudar na manutenção da vegetação, mas queria reverter a intervenção agressiva que minha medida tinha provocado.” Em 1970, o biólogo entrou para a política e mudou seu foco de atenção. Nove anos depois, os conflitos com o governo local o levaram a se mudar para os Estados Unidos. O exílio voluntário serviu para que deixasse a política de lado e voltasse as atenções novamente para o problema da desertificação. 

Ao aprofundar os estudos nos EUA, ele concluiu que a técnica, apesar de promissora, não é aplicável a qualquer terreno. Ao longo dos anos 1990, ele fez tentativas em espaços pequenos e de vegetação fechada na Nova Zelândia e no México e concluiu que, em muitos locais, são os insetos que fazem o trabalho de digestão das folhas e mantém o equilíbrio. “O manejo holístico deve ser realizado em locais onde o equilíbrio do bioma dependia no passado de grandes pastagens em movimento.” Ou seja, não funcionaria na região da Amazônia, por exemplo. Mas pode dar certo em qualquer lugar que tenha períodos longos de secas e histórico de uso do solo por manadas de animais herbívoros. 

TEORIA ANTIQUADA 
Muitos cientistas e pesquisadores permanecem céticos em relação à técnica de Savory. “É surpreendente que as ideias dele repercutam tanto. Sua teoria é antiquada e apoiada em muitos conceitos que não contam com o apoio de nenhum ambientalista sério”, diz o professor de ciência de ecossistemas David Briske, da Texas A&M University. “A técnica de Savory deixa o gado fatigado e mais magro, o que tira boa parte de seu valor comercial.” 

Outro crítico da técnica, o ecologista George Wuerthner, biólogo formado pela Universidade de Montana e especializado nos ecossistemas do Alasca e do Novo México, reforça que o desmatamento, as queimadas para fins de plantio e também a pecuária são os fatores que provocam erosão no solo. “Savory consegue aumentar a quantidade de vegetação da mesma forma como uma pessoa que só se alimenta de donuts pode emagrecer. Ela parece melhor, mas não está saudável”, diz. “O solo das regiões onde Savory atua não ganha nutrientes suficientes.” 

Em defesa de Savory, o biólogo Justin D. Derner, chefe de desenvolvimento do Serviço de Pesquisa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, diz que não entende a indisposição contra o africano. “Depois de tantas décadas estudando os mecanismos globais deste grande organismo vivo que é a Terra, ainda não conseguimos nem sequer afirmar com certeza o que provoca a desertificação”, diz. “O trabalho de Allan carece de fundamentação científica em muitos pontos, mas ainda assim dá resultados.” 

Savory diz que entende as críticas. “Quando eu demonstro que a pecuária integrada ao ecossistema pode fazer bem para o solo, parece simplista e bom demais para ser verdade.” É graças à influência de seus críticos, diz o biólogo, que os governos reagem a adotar as iniciativas do Instituto Savory. O Brasil, por exemplo, não considera o uso sustentável do pastoreio como uma alternativa à desertificação da caatinga e de parte do cerrado. Para restaurar estas áreas, o Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente aposta em projetos de cisternas, curvas de nível, manejo florestal e pecuária apenas nas bordas das plantações. 

Longe de vez das decisões públicas, Allan Savory segue trabalhando com fazendas privadas. “Por enquanto, nosso trabalho ainda depende de donos de fazendas corajosos e de cabeças abertas”, diz. “Eles estão conseguindo resultados maravilhosos.” Neste ano, Savory está entre os finalistas do Virgin Earth Challenge, concurso que oferece US$ 25 milhões para quem encontrar uma forma de retirar 1 bilhão de toneladas de CO2 da atmosfera todos os anos. Missão que ele acredita ser possível com a pastagem holística.

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