Nutrição exige bem-estar animal

25/02/2013 22:30

 

A conexão entre nutrição e bem-estar animal deve ser afinada. Está provado que uma boa dieta não se basta, que não apresenta o resultado esperado se as vacas não dispõem de boas instalações e de conforto. Se as condições ambientais forem deficientes, o sistema alimentar não vai responder

 

Edson Lemos

 

 

Daniel Lefebvre é um dos mais conceituados nomes no mundo quando o assunto é alimentação animal. Doutor em nutrição de gado leiteiro pela McGill University, de Montreal, Canadá, depois de 18 anos de trabalho no setor, ele é hoje gerente geral do Programa de Gerenciamento de Rebanhos Leiteiros da Província de Quebec, que recebe o nome de Valacta. Além de PhD reconhecido e altamente capacitado na pecuária de leite, Lefebvre é também pesquisador e professor da citada universidade.

Pela terceira vez no Brasil em setembro último, ele visitou fazendas na região sul do Paraná e proferiu palestras no Fórum de Atualização em Nutrição de Bovinos Leiteiros, organizado em Curitiba-PR pela parceria mantida entre a Universidade Federal do Paraná, McGill University, Emater-PR, Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa e Federação da Agricultura do Estado do Paraná.

Conhecedor da realidade leiteira da América Latina, Lefebvre se mostrou impressionado com a qualidade das forragens produzidas em fazendas paranaenses, especialmente a silagem de milho, destacando a forma como é guardada e conservada. Nesta entrevista exclusiva à Balde Branco, ele admite que a base do desenvolvimento, crescimento e melhoramento da indústria leiteira está no conhecimento e que a estratégia para entregar ao consumidor um produto de alta qualidade depende da profissionalização de toda a cadeia leiteira. Foi assim no Canadá e assim será também por aqui, segundo ele.

 
 

Balde Branco - Por onde o sr. passa, faz questão de destacar a importância do conceito de gerenciamento de rebanhos leiteiros. No Canadá, como isso funciona?

Daniel Lefebvre - No Canadá, mais especificamente em Quebec, o conceito de gerenciamento de rebanhos leiteiros tem um nome, chama-se Valacta. Em termos de estrutura, é um dos projetos mais capacitados para o que se propõe. Na prática, significa um centro de excelência em produção leiteira, reunindo profissionais de diferentes campos, como nutricionistas, geneticistas, economistas, veterinários, todos que tenham a ver com o leite e possam atender ao produtor de forma competente e constante. É um centro que atende a cerca de 80% das vacas de Quebec, uma província que possui atualmente cerca de 350 mil animais.

 

BB - Como se concebeu tal projeto?

DL - O projeto Valacta foi criado dentro da Universidade McGill, que aos poucos foi abrindo espaço para que os produtores assumissem e se responsabilizassem pelo seu funcionamento e crescimento. Hoje, a universidade continua participando e é co-proprietária do projeto junto com o governo provincial e os produtores, os quais já são maioria na sua gestão.

 

BB - Quais são os serviços executados pela Valacta?

DL - Em síntese, estamos falando de uma empresa privada de assistência técnica voltada para fazendas leiteiras. Há 20 anos fazia apenas controle leiteiro e hoje presta também outros serviços, como análise da qualidade do leite, elaboração de sistemas de pagamento de leite por qualidade e também de programas de manejo e de nutrição de rebanhos. A instituição também atende aos interesses da área de melhoramento genético. Os dados coletados nos rebanhos de Quebec servem para avaliações de centrais para realizar, por exemplo, o teste de progênie. A Valacta conta com 300 funcionários, dos quais, 70 são profissionais de campo e 150 são controladores de rebanhos. O produtor também pode entrar no sistema e colocar seus dados, sem interferência de nenhum técnico. Nesse caso, deixa de ser controle oficial para se tornar não-oficial.

 

 

Ao nutricionista cabe manter
uma vaca de alta produtividade
sadia, que se reproduza todo
ano e que tenha longa
vida produtiva

 

BB - A nutrição de vacas leiteiras no Canadá se faz por etapas, através do controle leiteiro. Como exatamente isso acontece?

DL - Fazemos um diagnóstico de desempenho e de performance individual de vacas e de desempenho da fazenda, antes de propor medidas de correção e melhoramento. Depois de avaliar os números, passa-se a avaliar o estado físico e a condição corporal dos animais. Para isso, verificamos o que estão comendo, como é o ambiente, o que estão defecando; enfim, como está sendo utilizada a energia consumida. A terceira etapa é conferir os alimentos, tanto os insumos primários, antes da mistura, como a maneira como são tratados, misturados, servidos, cortados e o que está sobrando nos cochos... Todas essas análises proporcionam um diagnóstico de como está o processo produtivo em determinado projeto de produção.

 

BB - E com esses indicadores na mão...

DL - Faz-se o cálculo da eficiência da relação entre o que foi consumido e o que foi produzido. Isso permite conferir se realmente o animal está transformando os alimentos em produto de qualidade e na quantidade correspondente. É a medida da eficiência alimentar entre consumo de alimento e produção de leite. Quando tem a visão de como está funcionando a fazenda, o profissional pode calcular o arraçoamento do rebanho com maior precisão. E isso pode ser feito com qualquer categoria animal. Com as novilhas, por exemplo, se dá pela curva de crescimento, idade, altura, peso... São indicadores que determinam a composição da ração a ser preparada. Igualmente acontece com as vacas secas e as vacas de primeira cria, de segunda, de terceira...

 

BB - Que tipo de relação o sr. estabelece entre nutrição, qualidade do leite e o papel do nutricionista?

DL - Antes de tudo, é preciso enfatizar que as ações do nutricionista acontecem de acordo com cada etapa da vida da vaca, sendo que umas têm mais importância do que outras para determinar a vida produtiva do animal. Um exemplo é o período de transição, que se dá em torno da época do parto, que se mostra como extremamente importante do ponto de vista nutricional. O produtor de leite deve ter em mente que a nutrição é uma ferramenta que determina a qualidade do produto, como rendimento e eficiência da produtividade. Ao mesmo tempo, é fundamental que o nutricionista saiba interpretar os dados gerados pelo computador, como o cálculo de ração, uma tarefa que se constitui na arte da nutrição. Isso faz a diferença entre um bom nutricionista e um simples técnico. O bom nutricionista deve contar com um sistema que colete dados de qualidade a respeito dos animais, da composição do leite, a respeito da vida da vaca, inclusive, sobre seu estado corporal, porque tudo isso vai determinar qual vai ser a estratégia nutricional que permitirá manter um animal de alta produtividade sadio, que se reproduz todo ano regularmente e que tem uma longa vida produtiva.

 

BB - Qual é a lactação média de uma vaca bem nutrida, hoje, no Canadá?

DL - A lactação média de uma vaca canadense Holandesa é de 9.000 kg, com 305 dias de lactação, com 4,0% de gordura e 3,3% de proteína. Lembro que os produtores canadenses são pagos por quilos de gordura, de proteína e de lactose, ou seja, os preços têm o percentual de sólidos como sua principal referência de cálculo.

 

 

A composição do leite, além
de referência de pagamento,
é muito importante como
indicador do que está
acontecendo com a vaca

 

BB - Quem é o profissional de nutrição no Canadá? Alguém com formação na área ou o próprio fazendeiro que recebe treinamento?

DL - A capacitação dos produtores de leite tem se mostrado cada vez melhor. Posso garantir que o novo produtor de leite, comparado com o antigo, é muito diferente. O novo produtor, por exemplo, é alguém que já terminou a escola secundária e fez uma preparação técnica, equivalente a um pré-universitário ou técnico agrícola, e hoje se mostra pronto para assumir os negócios da família. Nesse tipo de passagem, está bem mais preparado do que a geração anterior. Por que isso ocorre? Porque está se entendendo que a produção de leite é uma atividade complexa, que precisa de profissionalização. Diante do fato de o produtor estar melhor preparado, o técnico que o atende, seja agrônomo, veterinário, zootecnista ou mesmo nutricionista, deve ter um bom nível para orientar sobre qualquer tipo de necessidade.

 

BB - Então, os produtores e os técnicos estão mudando?

DL - Antes, o nutricionista era apenas um técnico. Sua orientação era suficiente para o produtor, que não tinha nenhuma ou pouca informação sobre alimentação animal. Hoje, ele está precisando de um agrônomo, de um zootecnista, de um veterinário, e até mesmo de profissionais com mestrado e doutorado. Nossa equipe de profissionais, que atende aos produtores de Quebec, precisa, além da formação obtida na universidade, estar em constante evolução para se manter bem informada sobre tudo o que envolve sua função e a atividade leiteira.

 

BB - Falando em dieta, qual o peso e a importância que se atribui ao uso de aditivos nas rações e silagens no seu país?

DL - Reconhecemos o valor dos aditivos e dos conservantes que acompanham a utilização de ração, mas no fundo eles só servem mesmo para fazer o refinamento. Mais importante é o técnico adotar os ajustes básicos que se fazem durante o processo, a começar pelo tamanho do corte da planta. Digo isso porque, às vezes, os técnicos têm a tendência de usar aditivo para resolver um problema que, na verdade, não deveria ter ocorrido se tudo transcorresse como se deve. O aditivo é algo que serve para quando todo o básico e o bom manejo foram devidamente aplicados e já não existe outra maneira de corrigir o resultado. Aí, então, o aditivo pode fazer a diferença.

 

BB - É um investimento, então, que compensa?

DL - É preciso levar em conta que o aditivo significa um investimento extra e deve ser monitorado através do controle leiteiro, ou seja, avaliar como se comporta um animal com e sem aditivo. Deve ser usado com bastante cuidado. Por isso mesmo é importante que o técnico seja uma pessoa capaz de interpretar e diferenciar as recomendações que vêm da indústria e que sempre mantenha uma posição crítica em relação ao uso de aditivos para poder controlar, medir e ver quais são os efeitos. Enfim, deve responder a questões como: quando aumenta a eficiência? Quanto custa? Qual a melhora real? As respostas são de responsabilidade do nutricionista. Ele deve ser muito cuidadoso, crítico e observador na utilização desse tipo de ferramenta.

 

BB - Nutrição e bem-estar animal são coisas separadas ou se complementam?

DL - É muito importante a conexão entre bem-estar animal e nutrição. Por diferentes razões. Uma boa nutrição pode manter o animal produzindo por longo tempo, tem efeito em sua saúde, e uma nutrição deficiente pode causar grandes problemas na vida produtiva do animal. Pode até encurtar essa vida. O bem-estar do animal tem a ver com as instalações, com o lugar onde ele vive, com o conforto que lhe é ofertado. Vai influenciar tanto quanto a nutrição, vai ter impacto na produção. A nutrição pode até ser boa, mas não dá o resultado esperado porque o animal não está confortável, não está bem. Esse quadro é muito comum. Se as condições ambientais ou de conforto forem deficientes, o sistema alimentar não vai funcionar, não irá responder.

 

 

O novo produtor de leite,
comparado ao antigo, é muito
diferente. Ele se mostra
pronto para assumir os
negócios da família

BB - Como o sr. vê o consumidor de leite nesse tipo de relação?

DL - A percepção do consumidor a respeito do bem-estar animal está transformando a cadeia alimentar. Nos dias atuais, ele se mostra bastante consciente, especialmente o jovem, que está atento às condições de produção dos alimentos. E isso afeta diretamente a indústria. Se o consumidor perceber que os animais estão sendo maltratados, vai restringir o consumo de determinado produto, e isso afetará o mercado. O consumidor não quer vaca com cara de sofrimento. Ele quer ver vacas felizes. No entanto, muitas vezes, a aplicação do resultado da ciência é um pouco difícil. Se a pesquisa diz a maneira adequada de fazer um manejo, aumentando ou diminuindo o período de secagem, de fazer um descarte, isso pode parecer muito rigoroso para o consumidor. Então, antes de aplicar a medida técnica é preciso preparar o consumidor para receber tais informações. Do contrário, isso pode até mesmo parecer um crime.

 

BB - Qual é a importância de o produtor contar com a análise da qualidade do leite, considerando gordura, proteína e ureia, em função dos desequilíbrios que pode observar na fazenda?

DL - A síndrome da baixa gordura no leite é uma indicação de que o rúmen não está trabalhando bem, de que a ração não está sendo transformada de forma eficiente, podendo provocar uma acidose no animal, que vai ficar doente. Isso vai forçar uma baixa na produção de gordura do leite. Se a análise do leite indicar no começo da lactação que a gordura está muito alta, vai indicar também que a vaca está utilizando suas reservas corporais para serem transformadas em energia. Na prática, essas questões podem ser controladas através da nutrição. Pela análise de tanque não é possível visualizar esses problemas. A solução, então, se dá por meio da análise de leite individual do animal, pois cada indivíduo é um caso diferente. Quase sempre o que está no tanque é a média dos problemas.

 

BB - O que lhe chamou a atenção nesse retorno ao Brasil, no contato com técnicos, produtores e visitas às fazendas?

DL - A qualidade das forragens da região sul do Paraná chama a atenção, especialmente a silagem de milho, que é bem guardada e conservada. Mas não estou seguro de que o aproveitamento seja igualmente bom. É muito importante que o nutricionista participe de todas as fases da produção de forragem, desde a colheita, para que a qualidade do alimento que está sendo conservado possa ser aproveitada da melhor maneira possível pela vaca. Isso não deve ser perdido de vista porque é um ponto crítico para o produtor em qualquer parte do mundo.

 

BB - E sobre o leite produzido?

DL - Também me causou surpresa notar que o produtor tem a tendência de não dar grande valor à composição do leite. Isso ocorre logicamente por algumas razões. A principal delas é não ter o leite pago pelo índice de sólidos – gordura, proteína e lactose. A composição, além de referência de pagamento, é muito importante como indicador do que está acontecendo com a vaca. Às vezes, só pelo desejo de produzir mais volume a vaca pode ficar doente. O produtor consegue obter muito leite, mas a qualidade de sua composição não é boa. Ao mesmo tempo, se observa que a indústria dá pouca importância à composição do leite, o que diz respeito diretamente ao pagamento pelo produto. Se pensarmos no mercado internacional, fora de nossas fronteiras, a composição do leite é o principal fator que vai determinar o valor do leite, como também do queijo, iogurte, manteiga... Ao que parece, não há interesse da indústria brasileira em compensar, fomentar e promover um leite rico, de elevada composição de sólidos, capaz de resultar em produtos de alta qualidade, tanto para o mercado nacional como internacional.