Etnólogo da WSPA Michael Appleby: “Pobres não devem deixar de comer carne”

19/09/2012 20:54

 

O cientista da organização de proteção animal diz que come carne e veste couro. E que isso é correto – desde que o bicho tenha vivido e morrido sem sofrimento

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A HORA DA CAÇA O etnólogo Michael Appleby no Reino Unido. “Matar para comer não significa ser cruel”, diz (Foto: Jason Alden/WSPA)

Dá para criar gado para o abate sem maus-tratos? Devemos consumir pele de animais? O que os bichos sentem? Quem responde é o etnólogo britânico Michael Appleby, consultor científico da Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA), a mais importante entidade dedicada ao bem-estar dos bichos. Pesquisador da Universidade de Edimburgo, ele também integra o comitê do governo britânico que regula atividades com animais. Appleby diz que come carne e usa sapatos de couro.

ÉPOCA – Qual a razão ecológica para não maltratar os animais?
Michael Appleby –
 O que está em jogo aqui não são razões ecológicas, mas um sentido mais amplo, de sustentabilidade. Isso inclui a dimensão ética. Não é uma questão de fazer o certo. Mas o aceitável para as pessoas. A quantidade de animais que criamos influencia os cuidados que proporcionamos a eles. Se você tem poucos animais, é mais fácil cuidar bem deles. É bom para o ambiente. Manter o gado no pasto em vez de estábulos fechados pode reduzir as emissões de gases do aquecimento global.

ÉPOCA – Qual é a justificativa biológica para nos preocuparmos com bois, porcos ou galinhas que não estão ameaçados de extinção?
Appleby –
 Uma das razões pelas quais as pessoas se interessam pelos animais é a conservação das espécies. Mas existe outro motivo. Ninguém gosta de ver alguém chutando um cachorro. Não porque sejam raros na natureza. Mas porque nos preocupamos com aquele indivíduo. Achamos que algumas formas de lidar com animais nas fazendas estão erradas, mesmo que esses bichos sejam comuns.

ÉPOCA – Cada um tem um ponto de vista sobre o assunto. Existe alguma racionalidade por trás desse julgamento ou é apenas uma avaliação subjetiva?
Appleby – 
Há um consenso entre a maioria das pessoas. Tratar bem dos animais é comum a todas as culturas ou religiões. Existe um acúmulo de evidências científicas sobre como os animais lidam com o ambiente. São estudos que mostram como eles sentem e percebem a forma como são tratados.

ÉPOCA – Somos uma espécie caçadora. Evoluímos matando animais. Por que mudaríamos agora?
Appleby –
 Caçar faz parte de nossa história. Mas, quando você caça, precisa compreender o animal. Deve saber aonde ele vai, como reage diante de cada situação. Matar para comer não significa ser cruel nem matar o bicho da forma mais lenta. Os fazendeiros sabem que, se cuidarem bem dos animais, eles crescerão melhor. Muitos estão no negócio porque gostam de animais. Buscam a melhor forma de cuidar do gado, de evitar doenças. O que também gera retorno econômico. A agricultura e a pecuária não são um estilo de vida. A forma como você formulou a questão tem mais a ver com o pensamento dos cidadãos urbanos, que se distanciaram da produção agrícola, que apenas compram os produtos no supermercado.

ÉPOCA – O senhor come carne?
Appleby – 
Raramente. Tento comer apenas quando sei que os animais foram bem tratados. Na Europa e nos Estados Unidos, há sistemas de certificação. Prefiro comer carne de boi ou de galinha que sei que foram criados livres, e não confinados. Também dou preferência a animais de fazendas que conheço.

ÉPOCA – Se todos seguirmos esses padrões, será possível produzir carne para toda a população da Terra?
Appleby –
 Nem todos devem seguir esse padrão de alimentação com carne, como eu. Alguns podem preferir ser vegetarianos. De qualquer forma, boa parte dos que consomem muita carne poderia comer menos. Seria bom para a saúde, para o ambiente e também ajudaria a garantir que os animais foram bem criados. Não estou dizendo em momento algum que os pobres ou mal nutridos devem ter uma dieta restritiva. Alguns inclusive deveriam consumir mais produtos de origem animal por razões nutricionais. Mas, para mim, em vez de comer carne três vezes por dia, poderíamos reservar o produto para momentos especiais.

ÉPOCA – Qual é a vantagem de comermos menos carne se algum animal será morto de qualquer forma?
Appleby –
 Alguns não gostam da ideia de matar animais. Para eles, talvez matar menos seja melhor. Diria que, se puder comprar uma galinha orgânica no lugar de duas convencionais, ao menos saberia que a orgânica teve uma vida melhor.

ÉPOCA – Como o senhor sabe? Não perguntamos para a galinha.
Appleby –
 Sim, perguntamos. Experiências científicas mostram que, quando a galinha pode escolher entre uma granja convencional (com pequeno espaço e alimentação industrial) e uma fazenda orgânica, ela escolhe a segunda opção. Só não dá para determinar se esse animal está 80% ou 40% feliz. Não funciona assim conosco tampouco. O comitê do governo britânico para o bem-estar animal definiu que os bichos devem estar livres de fome, desconforto, dor, ferimentos e doenças, medo e tensão e receio de não atingir os objetivos (no caso de disputas esportivas). Em geral, a população se divide entre os que se preocupam a ponto de preferir alimentos orgânicos ou virar vegetariano e os que não ligam mesmo. Entre esses dois extremos, existe um grande grupo que prefere que os animais sejam bem tratados e relega essa tarefa a instituições independentes ou ao governo. Se houver uma lei proibindo cirurgia veterinária sem anestesia, eles apoiarão. Mas não entrarão em campanhas ou manifestações.

ÉPOCA – Por que isso é tão importante?
Appleby –
 Criamos 60 bilhões de animais em granjas e fazendas no mundo. Deles dependem a sobrevivência de famílias e economias inteiras. Se esses animais são bem cuidados, os fazendeiros conseguem recuperar melhor seu gado depois de algum acidente, como uma inundação. É um sistema mais inteligente de manejo da pecuária.

"Certos animais são mais importantes para nós que
alguns humanos"

ÉPOCA – É correto criar animais para comer ou usar a pele se fazemos isso de forma misericordiosa?
Appleby –
 Essa é a posição da WSPA. Para alguns, não adianta cudar da criação se o bicho será morto depois. Não é nossa posição. Para nós, se o animal será morto, é importante que ele seja criado em boas condições de vida. Sua morte deve ser a mais humana possível: rápida e indolor possível. A pele, para nós, é um luxo injustificável.

ÉPOCA – O senhor está usando um sapato de couro agora. Não é a pele do boi?
Appleby –
 Não. É o subproduto da carne. Se o animal será criado e morto pela sua carne, então é melhor usar o máximo possível dele. Criar animais por sua pele seria mais aceitável se também consumíssemos a carne. Mas a pele, como a da raposa, é um luxo dispensável.

ÉPOCA – Por que escolhemos algumas espécies para ter pena e outras, como ratos, não despertam nossa empatia?
Appleby –
 Isso envolve um histórico complexo de nossa evolução pessoal e como sociedade. Por razões históricas, algumas espécies foram domesticadas para fornecer carne.

ÉPOCA – As pessoas se importam com alguns bichos mortais, como ursos. Outros, como cobras e baratas, não comovem. Existe uma fronteira para nossa empatia?
Appleby –
 Certos animais, com sistema neurológico mais desenvolvido, são dotados de sentimentos. Em alguns países, as leis que regulam experiências com animais só se aplicam a vertebrados. O Reino Unido inclui polvos, lulas e caranguejos pelas evidências de como respondem à dor. Para mim, não há fronteira. Não gosto de baratas, mas não pisaria à toa numa.

ÉPOCA – Será que criamos um padrão duplo baseado em nossa sensibilidade?
Appleby –
 Em parte, essa divisão reflete o conhecimento científico sobre a sensibilidade dos animais. Mesmo assim, o campo ético é complicado. A ética não espera que eu gaste tanto dinheiro para salvar uma criança anônima na China do que outra que acabei de conhecer. É razoável dar atenção especial a meus próprios filhos. Da mesma forma, é natural que respeitemos mais os animais com que temos alguma relação. O mundo dos sentimentos poderia funcionar como vários círculos concêntricos. Estou no meio, meus parentes em volta, as outras pessoas do mundo nas imediações, e todos os outros animais do lado de fora. Mas não é assim que funciona. Certos animais são mais importantes para nós que alguns humanos. Isso não quer dizer que devamos proteger todos os cães e esquecer os humanos. Mas alguns bichos, como um gato da família, têm um valor especial para nós.

Fonte: Revista Época