ÉTICA EM CLONAGEM

13/08/2012 20:29

 

Dolly, Noah, Marguerite, Vitória e alguns outros são animais especiais. Seu nascimento foi aguardado com ansiedade e curiosidade. Suas genitoras receberam cuidados especiais, e as gestações foram acompanhadas dia e noite por veterinários, cientistas, técnicos e curiosos. Dolly, Noah, Marguerite e Vitória são animais especiais porque compartilham (ou compartilharam, no caso dos que já morreram) uma qualidade rara, fruto de muito trabalho, pesquisa e experimento. Esses animais --todos eles clones-- representam o que há de mais audacioso na pesquisa biomédica moderna e são a prova de que já era tempo de rever um antigo dogma da biologia. 


Durante muitos anos, os cientistas acreditaram que as células de um indivíduo adulto já estariam com seu destino traçado e não poderiam ser reprogramadas. Mas nos anos 50, como até os dogmas da ciência estão sujeitos à curiosidade humana, iniciaram-se os primeiros experimentos de clonagem em sapos. Meio século se passou até que Dolly, o primeiro animal clonado de uma célula adulta de outro indivíduo, nascesse na Escócia. 


As primeiras reações do público ao nascimento de Dolly foram de espanto, fascínio, curiosidade --e, também, preocupação. Pelo menos do ponto de vista técnico, era apenas a primeira indicação de que talvez um dia a clonagem de seres humanos fosse possível. Logo se concluiu que a clonagem possibilitaria criar seres humanos sem necessidade da reprodução sexual, permitindo também que se produzisse grande número de indivíduos iguais do ponto de vista genético. 


Poucos dias após o nascimento de Dolly, o debate sobre a clonagem humana virou assunto urgente, e tomaram-se algumas medidas de curto prazo. Nos EUA, o então presidente Bill Clinton reuniu a recém-formada Comissão Nacional de Bioética para deliberar sobre a clonagem humana. Em apenas três meses, definiu-se que toda pesquisa voltada para clonagem humana seria banida naquele país e que não se forneceriam verbas federais para esse tipo de pesquisa. Muitos outros países já adotaram medidas semelhantes. 


Essa precaução é conseqüência das diversas questões éticas levantadas pela possibilidade da clonagem humana. Há grande preocupação de que ela infrinja os princípios de autonomia, dignidade e individualidade e seja prejudicial aos indivíduos porventura 


gerados. A individualidade humana não é apenas questão de princípios; em termos biológicos, ela representa diversidade biológica, já que todo indivíduo é único não somente em seus sonhos, desejos e personalidade, mas também em seu patrimônio genético. A diversidade biológica é fundamental para a sobrevivência de nossa espécie, e a clonagem humana, se realizada em larga escala, poderia constituir uma ameaça à espécie, pois diminuiria a variabilidade genética de nossa população. 


Por representar uma ameaça à espécie, mesmo que em escala limitada, não é de surpreender que a clonagem humana apresente também valor moral. Várias questões humanas que implicam valor biológico implicam também valor moral e, muitas vezes, até religioso - mesmo que tal valor não tenha sido estabelecido com base no conhecimento biológico. Qual o valor biológico de condenar o incesto ou o canibalismo? O incesto aumenta a possibilidade de que a descendência gerada acumule grande número de genes deletérios, ameaçando sua sobrevivência. Ingerir sangue humano pode causar várias doenças letais, conforme demonstrou recentemente um grupo do University College, de Londres, ao propor que o canibalismo praticado por indivíduos de certa parte da Nova Guiné seja o grande responsável por uma doença neurológica fatal, freqüente na região. 


Neste livro, veremos os caminhos que levaram ao desenvolvimento da clonagem em organismos superiores e as possíveis aplicações e conseqüências dessa tecnologia, tanto do ponto de vista biológico quanto do ético e moral, sobretudo no que diz respeito à clonagem humana. 


"Os Clones"

Autor: Marcia Lachtermacher-Triunfol

Editora: Publifolha

Páginas: 112

Quanto: R$ 16,00 (preço promocional*)

Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha 



 
Fonte: Folha de S. Paulo