Estresse calórico e o equilíbrio acido-basico

02/05/2014 17:03

 

Avicultura é uma das atividades agropecuárias com maior evolução nas últimas décadas. Esta evolução teve como suporte a melhoria constante no desempenho das linhagens, pela seleção genética e pelo melhoramento nas condições de alimentação, manejo, instalações, sanidade, etc. Desde o início do moderno processo de melhoramento avícola, o objetivo principal a ser alcançado foi o aumento da taxa de crescimento e eficiência dos frangos de corte. Por sua intensidade, este processo terminou desencadeando alguns transtornos metabólicos relacionados aos órgãos de suporte, além de uma menor resistência aos desafios sanitários de campo. Uma das maneiras desenvolvidas para contornar estes transtornos metabólicos foram os mecanismos de ajuste do equilíbrio ácido-base. Um dos principais agentes desencadeadores do desequilíbrio ácido-básico é o estresse calórico. A susceptibilidade das aves ao estresse calórico aumenta à medida que o binômio umidade relativa e temperatura ambiente ultrapassa a zona de conforto térmico. Sob estresse calórico, a ave tem dificuldade de dissipar calor, incrementando a temperatura corporal; com efeito negativo sobre o desempenho.

A manutenção do equilíbrio ácido-básico do meio interno tem grande importância fisiológica e bioquímica, visto que as atividades das enzimas celulares, as trocas eletrolíticas e a manutenção do estado esavestrutural das proteínas do organismo são profundamente influenciadas por pequenas alterações no pH sanguíneo (Macari, 1994). O equilíbrio ácido-básico pode influenciar o crescimento, o apetite, o desenvolvimento ósseo, a resposta ao estresse térmico e o metabolismo de certos nutrientes como aminoácidos, minerais e vitaminas (PATIENCE, 1990), assim como a imunidade das aves (PIMENTEL e COOK , 1987). Sob condições normais, a utilização dos alimentos leva a uma produção contínua de metabólitos ácidos e básicos, que devem ser metabolizados e/ou excretados para que a constância do pH seja mantida. Destes, o mais abundante é o ácido carbônico (H2CO3); mas também há a formação de ácidos provenientes da oxidação incompleta de aminoácidos, carboidratos e gorduras. Lembrando que as reações químicas que geram ácidos têm como consequência a produção de íons H+. As pequenas variações na concentração do íon hidrogênio (mudanças de pH) em relação ao valor normal podem causar mudanças acentuadas na velocidade dos processos orgânicos vitais. Por outro lado, o balanço ácido-base não pode somente ser definido em termos da concentração de íons hidrogênio no sangue, pois a manutenção desse equilíbrio é complexa, havendo o envolvimento de substâncias tampões bem como o controle dos sistemas respiratório e renal (Figura 1). Essas substâncias químicas são encontradas nos fluidos do organismo e podem se combinar com ácidos ou bases, com a finalidade de prevenir as mudanças bruscas no pH. A essas substâncias dá-se o nome de tampões e sabe-se que o íon bicarbonato (HCO3-) e o dióxido de carbono (CO2), junto com os aminoácidos e proteínas circulantes, constituem-se no mais importante sistema tampão para todos os vertebrados. Portanto, o balanço entre ácidos e bases é influenciado pela concentração de anions e cátions da dieta, bem como por outros fatores ligados ao meio ambiente da produção avícola.

FISIOLOGIA DAS AVES X ESTRESSE CALÓRICO

As aves, sendo animais homeotermos, dispõem de um centro termorregulador localizado no hipotálamo. Este centro é capaz de controlar a temperatura corporal através de mecanismos fisiológicos e respostas comportamentais mediante a produção e liberação de calor, determinando assim a manutenção da temperatura corporal normal (MACARI et al., 2002). Entre as respostas fisiológicas compensatórias das aves, quando expostas ao calor, inclui-se a vasodilatação periférica, resultando em aumento da perda de calor não evaporativo. Assim, na tentativa de aumentar a dissipação do calor, a ave consegue aumentar a área superficial, mantendo as asas afastadas do corpo, eriçando as penas e intensificando a circulação periférica. A perda de calor não evaporativo também pode ocorrer com o aumento da produção de urina, se esta perda de água for compensada pelo maior consumo de água “fria”. Outra resposta fisiológica é o aumento na taxa respiratória. A ofegação permite que ave controle a temperatura do corpo pela evaporação da água das superfícies respiratórias e sacos aéreos. A frequência respiratória do frango de corte é em torno de 25 movimentos por minuto em ambiente de conforto térmico. Mas, quando submetidas ao estresse calórico agudo, as aves têm a frequência aumentada para até 250 movimentos por minuto (LINSLEY & BERGER, 1964).

A ave em estado de ofegação tem perdas excessivas de dióxido de carbono (CO2). Assim, a pressão parcial de CO2 (pCO2) diminui, levando à queda na concentração de ácido carbônico (H2CO3) e, consequentemente, de hidrogênio (H+). Em resposta, os rins aumentam a excreção de HCO3- (bicarbonato) e reduzem a excreção de H+ na tentativa de manter o equilíbrio ácido-básico da ave. Esta alteração do equilíbrio ácido-básico é denominada alcalose respiratória (Figura 2). Desta maneira, os pulmões são fundamentais na regulação do equilíbrio ácido-base por meio da regulação da pCO2 no sangue, pois a taxa de ventilação alveolar (trocas entre o ar atmosférico e o ar alveolar) é que irá determinar a concentração de CO2 no organismo. ESTRESSE CALÓRICO X ELETRÓLITOS Eletrólito pode ser definido como uma substância química que se dissocia nos seus constituintes iônicos, tendo como importante função fisiológica a manutenção do equilíbrio ácido-básico corporal. Função dos eletrólitos: Sódio (Na+) – Principal cátion extracelular – Atua na regulação da pressão osmótica, balanço hídrico,equilíbrio ácido-básico, manutenção dos potenciais de membrana, absorção de monossacarídeos, aminoácidos e sais biliares.

ESTRESSE CALÓRICO X ELETRÓLITOS

Eletrólito pode ser definido como uma substância química que se dissocia nos seus constituintes iônicos, tendo como importante função fisiológica a manutenção do equilíbrio ácido-básico corporal. Função dos eletrólitos:
Sódio (Na+) – Principal cátion extracelular – Atua Fonte: Borges et al., 1999 na regulação da pressão osmótica, balanço hídrico,equilíbrio ácido-básico, manutenção dos potenciais de membrana, absorção de monossacarídeos, aminoácidos e sais biliares.

Cloro (Cl-) – Principal ânion extracelular – Atua na regulação da pressão osmótica, balanço hídrico, equilíbrio ácido-básico, formação do HCl (ativação enzimática no estômago).

Potássio (K+) – Principal cátion intracelular – Atua na regulação da pressão osmótica, despolarização de membrana, síntese protéica e equilíbrio ácido-básico.

O sódio (Na+), o potássio (K+) e o cloro (Cl-) são íons fundamentais na manutenção da pressão osmótica e equilíbrio ácido-básico dos líquidos corporais. Assim, os efeitos do balanço iônico da dieta no desempenho das aves podem estar relacionados com as variações no equilíbrio ácido-básico (MONGI GI N, 1981). Portanto, é de fundamental importância o conhecimento do balanço iônico (“número de Mongin”) da dieta, demonstrado no cálculo abaixo:

A osmorregulação é conseguida pela homeostasia destes íons intra e extra celular. Em condições ótimas, os conteúdos de água e eletrólitos são mantidos dentro de limites estreitos. Mas a perda de eletrólitos (Na+ ou K+), sem alteração no conteúdo de água do corpo, reduz a osmolalidade destes fluídos. Os níveis de Na+, K+ e Cl- do plasma também são afetados pelo estresse calórico. À medida que a temperatura aumenta, as concentrações de K+ e Na+ diminuem, enquanto que o Cl- aumenta (BELAY & TEETER, 1993; BORGES et al., 1999b). A alcalose respiratória provoca a redução da competição entre H+ e K+ para excreção urinária e, portanto, aumenta a perda de K+ na urina. Este mecanismo pode aumentar a necessidade de K+ durante o período de estresse calórico. A taxa de excreção de K+ pela urina é variável, estando ligada à concentração plasmática de Na+ e ao estado de hidratação da ave, sendo que as perdas podem ser causadas por um aumento no consumo de água, já que o gradiente osmótico favorece o movimento de água do fluído intracelular para urina, podendo carrear o K+. Por outro lado o aumento na ingestão de K+ também resulta em maior perda urinária, visto que a ave tem pouca capacidade de conservar o K+ corporal. O nível sérico de K+ diminui durante o estresse (BORGES et al., 1999b; SALVADO DO R et al., 1999). A diminuição dos níveis plasmáticos de K+ é atribuída a um aumento na excreção deste íon durante o estresse crônico e um aumento do K+ intracelular comumente encontrado durante o estresse agudo.

BORGES (2001) concluiu que a resposta ao balanço eletrolítico da dieta depende da temperatura ambiente. A ingestão de água está na dependência direta da idade da ave e da relação Na+K-Cl na ração, sendo que o aumento na ingestão de água provocado pela maior relação desses eletrólitos afeta diretamente a umidade da cama e reduz a temperatura retal nas aves. A relação eletrolítica da dieta interfere no desempenho das aves, sendo que a relação ideal variou de 186 a 250mEq/kg. Balanço eletrolítico elevado (340 e 360mEq) pode resultar em alcalose metabólica. A quantidade de eletrólitos excretados via urinária depende da concentração destes na ração e da temperatura ambiente.

MEDIDAS DE CONTROLE

Algumas medidas podem ser tomadas para minimizar as perdas decorrentes do estresse calórico, podendo-se citar, entre outras, aclimatação das aves, manipulação da proteína e energia da dieta, utilização de antitérmicos, ácido ascórbico, eletrólitos, manejo do arraçoamento e da água de bebida. A utilização de sais via água de bebida e/ou ração é uma alternativa frequentemente empregada pelos avicultores na tentativa de manter o equilíbrio ácido-básico e reduzir as perdas decorrentes do estresse calórico. Dentre os sais utilizados, podemos citar o carbonato de potássio (K2CO3), cloreto de potássio (KCl), bicarbonato de sódio (NaHCO3). Considerando a abordagem teórica detalhada até o momento, podemos concluir que em termos práticos a nutrição pode ajudar a contornar as situações adversas de estresse calórico, porém os pontos mais importantes para evitarmos perdas de produtividade e de aves são:

  • Prover as aves uma ambiência adequada com as • condições climáticas de cada região. Em locais muito quentes, é indicado prever a estrutura de ambiente controlado, com adequada renovação de ar, objetivando menor ofegação das aves e, consequentemente, menor perda de CO2, na tentativa de evitar a alcalose respiratória.
  • Manter a temperatura da água fresca para as • aves, nunca deixando canos expostos ao sol ou próximos a locais quentes como telhados. Fazer regularmente flushing da água parada nos canos, lembrando que a temperatura adequada para consumo pelas aves é ao redor de 24° C. E, quando a temperatura chega a 36° C, a ave cessa o consumo de água, com impactos severos sobre o ganho de peso.
  • Evitar o manejo em períodos quentes e estimular • a alimentação das aves nos horários mais frescos. Deve-se analisar a necessária iluminação nestes horários (noite) e ter equipes treinadas para fazer a distribuição de forma uniforme no caso de reprodutoras.
  • Manter a cama seca, sendo que a movimentação • deve ser feita sempre nos horários mais frescos, com boa ventilação. Lembrar que toda a água excedente consumida em condições de estresse calórico será eliminada e deverá ser removida do aviário. Se as aves consomem água fresca necessitarão ingerir menor quantidade para redução do estresse calórico, evitando a piora da qualidade da cama.
  • Utilizar o balanço eletrolítico como um coadjuvan• te no processo de estresse calórico. É interessante entender o momento de fazer a utilização do bicarbonato de sódio e/ou carbonato de potássio. Em termos gerais, podemos dizer que em relação a uma dieta a base de sal, o bicarbonato de sódio pode elevar o Número de Mongin em 30 a 40 meq/kg, já que o bicarbonato de sódio substitui o cloro do cloreto de sódio. Entretanto, não devemos esquecer que existe um mínimo necessário de cloro que deve ser respeitado na dieta. A partir disto, temos que utilizar o carbonato de potássio
  • Reduzir proteína das dietas (levemente) e se ne• cessário adensar as rações de forma a reduzir o volume ingerido, sem alterar a necessidade das aves. Esta última medida deve ser feita com muito cuidado, pois pode aumentar excessivamente os custos das rações.
  • Em dietas vegetais, pode haver excesso de po• tássio (proveniente do farelo de soja). Este problema pode ser contornado com redução da proteína ou com o uso de outra fonte protéica, como o glúten 60.
  • Outra possibilidade é a utilização de vitamina C • (125 ppm), podendo ser adicionada na água ou ração. Entretanto, é importante lembrar que a mesma deve ser administrada logo após o estresse calórico para obtenção de bons resultados.
  • Avaliar a qualidade da água. Lembrar que em re• giões que possuem água “dura”, ou seja, rica em minerais, força as aves a eliminarem esses minerais em excesso e estes, seguramente, carrearão outros minerais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A exposição das aves a temperatura ambiente elevada resulta em alcalose respiratória e, consequentemente, no desequilíbrio ácido-básico, afetando a produtividade por prejudicar a taxa de crescimento, produção de ovos, qualidade da casca do ovo, além do aparecimento de problemas locomotores, etc. Quando os desequilíbrios não são compensados, determinam aumento na mortalidade. A formulação de rações com base no conceito de balanço eletrolítico, a adição de sais na água e/ou na ração e um manejo adequado são práticas que podem ser adotadas para corrigir distorções no equilíbrio ácido-básico, com o objetivo de minimizar os prejuízos na produção avícola.