Em MG, cresce o número de criadores de pacas e cutias

22/08/2013 12:43

Pacas e cutias são animais silvestres que vêm sendo domesticados.
Criadores são poucos, mas a procura por reprodutores vem aumentando.

Editora Globo

Quando a noite cai, a criação no município mineiro de Baldim, perto de Belo Horizonte,  ganha mais vida. Nos recintos de criação de pacas, os animais de hábitos noturnos saem da toca para comer e passear.

De dia podemos conhecê-los melhor. As pacas são consorciadas com as cutias, dois roedores de hábitos semelhantes. Elas ficam escondidinhas na toca, mas se mexer, elas podem saltar bem alto.

As pacas têm pelo castanho e manchas claras no corpo. Nas cutias, a cor dos pelos é mais homogênea, mas orelhas, patas e caras são bem parecidas. Os dois animais são silvestres. Na natureza, ocorrem no Cerrado, na Mata Atlântica e na região Amazônica.

A criação só pode ser feita com autorização do Ibama. Na propriedade visitada há 30 piquetes com 120 pacas e cutias.

Os piquetes tentam simular o ambiente natural dos animais. O chão é de terra e no lugar da sombra das árvores, a área é coberta. Manilhas que parecem ser só decorativas, na verdade, funcionam como esconderijo para os animais e como tanto as pacas, quanto as cutias vivem sempre próximas da água, tem também uma piscina e claro, a toca, onde elas passam boa parte do dia.

Pacas e cutias são tímidas. Fogem temerosas e chegam a escalar as grades para escapar do perigo, por isso, o recinto tem um fechamento caprichado.

No local da criação, elas elegem um cantinho para suas necessidades, mantendo o resto da área limpo.

O zootecnista Fábio Hosken mostra que um dos problemas da criação são as brigas e para quem lida com os animais, um cuidado importante é com os dentes. Para gastá-los são oferecidos galhos de goiabeira e eucalipto e pelas marcas na madeira é possível notar que são bem apreciados.

Elas gostam também de tomate, berinjela, jiló, abobrinha, farelo de soja e grãos de milho. Tudo isso é plantado na própria fazenda para garantir a oferta. Na comida, Fábio coloca o vermífugo, principal medicamento dos animais.

O zootecnista destaca a simplicidade da criação. Como animais silvestres, quanto menos mexer com eles, menos estresse.

A cutia tem melhor desempenho reprodutivo e valor mais baixo no mercado, como explica o dono da criação Luiz Fernando Coelho de Souza.

Os principais clientes são pessoas que querem comprar o animal para ornamentação ou com interesse comercial. Luiz conta que pretende aumentar a criação e que tem projeto para abatedouro devido a procura.

Depois do desmame, aos três meses, os animais vão para um piquete de recria e engorda. Como tanto a paca quanto cutia são animais silvestres, o Ibama  exige, por lei, que eles sejam marcados e isso normalmente é feito através do implante de um microchip.

As pacas ficam em ponto de abate com idade entre 10 e 12 meses, quando atingem cerca de oito quilos e são vendidas a R$ 60 o quilo do animal vivo. As cutias, entre 8 e 12 meses chegam ao peso de abate, quando alcançam quatro quilos e meio. O preço de venda é de R$ 40 o quilo do animal vivo.

Paca

Mais profissionalizada, a atividade se espalha,visando à conservação do plantel nacional e ao lucrativo comércio de matrizes e carne

por João MathiasI Consultor Fábio Morais Hosken*

Se, de um lado, as carnes exóticas já não são novidade como eram há pouco mais de uma década, de outro, a maior presença delas nos canais de venda mostra como a proteína animal vem sendo bem aceita pelos brasileiros. Um bom exemplo do avanço do produto no mercado nacional é a multiplicação de criatórios de paca (Agouti paca) pelo país, com vistas a atender à demanda de um comércio lucrativo. 

Produtor da região do Cerrado, especializado em manejo de animais silvestres e exóticos, Fábio Morais Hosken informa que existem de norte a sul do Brasil dezenas de restaurantes e churrascarias que possuem carne de paca em seus cardápios. O produto também pode ser encontrado em redes de supermercados, butiques e lojas de carnes instaladas em grandes centros urbanos. 

O aumento da participação do alimento nos pratos dos consumidores é um reflexo da profissionalização dos criadores alcançada nos últimos anos. Leve, macia e saborosa, rica em proteínas, cálcio e fósforo, a carne de paca provém de animais tratados em estabelecimentos fiscalizados pelos Estados. Antes de responsabilidade do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), a autorização e fiscalização exigidas para a criação comercial de qualquer animal silvestre passaram a ser de competência exclusiva dos Oemas (Órgãos Estaduais de Meio Ambiente) desde a publicação da Lei Complementar (LC) 140/2011. 

A venda de matrizes para reprodução é outra atividade que pode trazer rendimentos para quem tem planos de iniciar uma criação. Ao mesmo tempo, o trabalho tem um caráter conservacionista e contribui para a recuperação do plantel de pacas no território nacional, que foi reduzido devido à caça predatória e à diminuição do hábitat natural promovida pelo desmatamento ao longo dos anos. 

De baixo custo e necessidade de pouco espaço, o manejo de pacas tem como desafios a adaptação dos animais à vida no cativeiro e a formação de famílias, pois elas são consideradas territorialistas e fáceis de se estressar. Contudo, se cuidadas com dedicação e com o aproveitamento de dicas de profissionais experientes, apresentam bom comportamento. 

Pacas nascidas em cativeiro, no entanto, tendem a ser mansas e não apresentam problemas de agressividade. De hábitos noturnos, o roedor tem pelos curtos e de cores que variam do castanho-pardo ao castanho-avermelhado. Com 32 a 70 centímetros de comprimento na idade adulta, pode viver até os 12 anos. 
 

RAIO X 

>>>CRIAÇÃO MÍNIMA: um macho e quatro fêmeas 
>>>CUSTO: R$ 1.000 é o preço médio de cada exemplar 
>>>RETORNO: 30 meses 
>>>REPRODUÇÃO: dois partos por ano com uma cria cada 
 

MÃOS À OBRA 

>>> INÍCIO> Obtenha informações sobre as exigências que devem ser cumpridas para começar a atividade e a autorização do projeto de criação junto a um Oema. Somente após contar com as instalações, adquira os animais de criatórios com referências e devidamente registrados. Também é indicado ao criador iniciante contar com o acompanhamento de uma assessoria profissionalizada, como um zootecnista, que pode orientar a respeito das melhores técnicas para lidar com as pacas. 
>>> AMBIENTE>As pacas vivem bem em locais com diferentes condições climáticas, por isso podem ser criadas em qualquer região do país. Como gostam de se molhar, é importante instalar um tanque ou piscina de, pelo menos, 1 x 1 metro de área, com profundidade de 25 centímetros. Para dar mais conforto aos animais, providencie uma caixa-ninho de 1,1 metro de comprimento e 70 centímetros de largura. 
>>> ESTRUTURA >O intensivo, considerado o melhor sistema de criação, utiliza um galpão dividido em baias de 3 x 4 metros até 5 x 5 metros, com piso de concreto, mureta de alvenaria de 50 centímetros e tela até o telhado. Um espaço ocioso, ou até mesmo um chiqueiro desativado na propriedade, pode ser adaptado para o confinamento dos animais, reduzindo os custos da implantação. Há como opção o sistema semi-intensivo, realizado em piquetes na mata com 100 metros quadrados cada, cercados de mourões de madeira, tela e arame farpado. Abaixo da cerca, faça um baldrame com 50 centímetros de profundidade a fim de evitar que as pacas fujam cavando buracos. 
>>> CUIDADOS >Antes de começar a lidar com a criação, é recomendado ao produtor tomar vacina antitetânica. O uso de botas é mais uma precaução necessária para realizar o manejo dos animais. Para evitar que a adaptação seja agressiva para as pacas, comece com dois exemplares e aos poucos vá introduzindo os demais integrantes. Entre as doenças comuns do roedor, estão estresse, vermes e eventuais problemas dentais. Contar com a visita de um médico-veterinário de dois em dois meses contribui para manter a saúde das pacas. 
>>>ALIMENTAÇÃO > Pode ser produzida no próprio local, pois as pacas se alimentam de vegetais, grãos, raízes, coquinhos, legumes e frutas em geral. Opte pelos plantios que se dão bem com o clima, solo e ambiente da região. Como complemento, ofereça aos animais ração destinada para coelhos ou apenas milho em grão. 
>>> REPRODUÇÃO >São dois partos realizados por ano, gerando uma cria cada. Enquanto as fêmeas estão prontas para ser mães a partir dos oito meses de vida, os machos iniciam o período de reprodução entre nove e dez meses. De março a setembro é a principal época de procriação do mamífero, com 31 dias de ciclo produtivo. O infanticídio é um ato comum entre as pacas, por isso recomenda-se isolar as fêmeas antes do parto, até que os filhotes ganhem mais peso e força. Se nascerem junto do grupo, podem ser atacados pelos demais nas primeiras semanas. 

*FÁBIO MORAIS HOSKEN é zootecnista e consultor para criação de animais silvestres e exóticos, elaboração de projetos e registros no Ibama, tel. (31) 8479-8949, planetarural@terra.com.br , www.zooassessoria.com.br  
ONDE ADQUIRIR: os criatórios em funcionamento estão registrados nos Oemas 
MAIS INFORMAÇÕES: para tirar dúvidas sobre criação de animais exóticos e silvestres, entrar em contato com a Divisão de Fauna da Superintendência mais próxima. O número para contato pode ser encontrado emhttp://www.ibama.gov.br/institucional/ibama-nos-estados