É ético ferver as lagostas vivas?

07/02/2013 21:52

 

Manchetes de VEJA

Novo estudo desmente a ideia de que esses animais não são capazes de sentir dor. A descoberta pode impactar desde a gastronomia até a pesquisa científica

Juliana Santos

 

lagosta na panela

Lagosta na panela: vale o sofrimento em nome da alta gastronomia? (Thinkstock)

"Quando é despejada do recipiente para dentro do tacho fumegante, às vezes a lagosta tenta se segurar nas bordas do recipiente ou até mesmo enganchar as garras na beira do tacho como uma pessoa dependurada de um telhado, tentando não cair." - David Foster Wallace - "Pense na lagosta"

Na última quarta-feira, um estudo publicado no Journal of Experimental Biology reacendeu um debate que é caro tanto a biólogos quanto a defensores dos direitos dos animais e apreciadores da alta gastronomia: os crustáceos, em especial as lagostas, são capazes de sentir dor? 

A resposta é importante porque crustáceos, como lagostas e caranguejos, são os ingredientes principais de diversos pratos e iguarias consumidos pelo mundo afora. Métodos comuns de preparo desses animais incluem atirá-los em água fervente ou arrancar partes deles, tudo isso enquanto ainda estão vivos. Em restaurantes, é comum que os crustáceos fiquem em aquários, para serem escolhidos pelo consumidor e, assim, consumidos ainda frescos.

Pois o estudo, realizado com caranguejos-verdes (Carcinus maenas), concluiu que esses animais são capazes de sentir dor. "Bilhões de crustáceos são capturados ou criados para atender à demanda da indústria agroalimentar. Em comparação com os mamíferos, eles não gozam de quase nenhuma proteção sob a única presunção de que não podem sentir dor. Nossas pesquisas sugerem o contrário", resumiu Bob Elwood, biólogo da Universidade Queen's em Belfast,  na Irlanda.

Durante o experimento, noventa caranguejos foram colocados, um de cada vez, em um tanque iluminado, no qual havia dois abrigos, simulando os locais escuros entre as pedras nos quais eles costumam se esconder quando estão na natureza. Quando escolhiam um dos abrigos, localizados em pontas opostas, metade dos animais recebeu um choque. Depois de algum tempo de descanso, eles foram colocados de volta no tanque. A maioria deles escolheu novamente o mesmo abrigo, o que os fez levar outro choque. A partir da terceira vez em que foram colocados no tanque, porém, e nas outras sete que se seguiram, a maior parte dos caranguejos escolheu o outro abrigo, de modo que deixaram de receber os choques.

"Tendo vivenciado choques duas vezes, os caranguejos aprenderam a evitar o abrigo no qual eles recebiam o choque. Eles se mostraram dispostos a desistir de seu esconderijo natural para evitar uma possível fonte de dor", disse Elwood.

De acordo com o pesquisador, o estudo foi realizado de forma a impedir que a nocicepção, uma espécie de reflexo desses animais, que não envolve uma sensação desagradável, fosse confundida com a dor. Elwood, que já realizou estudos com outras espécies de crustáceos, acredita que as conclusões se aplicam a todos eles — inclusive as lagostas.

"Meu objetivo tem sido descobrir se as reações desses animais são meramente causadas por um reflexo ou se elas são mais prolongadas e envolvem o 'cérebro', de modo que não podem ser simples reflexos. O primeiro estudo mostrou que camarões, ao ter uma das antenas ferida com produtos químicos, passam um longo tempo esfregando-a, mas esse processo é reduzido quando um anestésico local é aplicado. O segundo estudo mostrou que o caranguejo-ermitão (Paguroidea) ao receber choques dentro de suas conchas, sai dela, mas tem tendência maior a sair de um tipo de concha que não aprecia tanto. Esse tipo de comportamento envolve o cérebro, não pode ser um reflexo", disse Elwood ao site de VEJA.

Festival medieval — É comum que as preocupações dos defensores dos direitos dos animais estejam voltadas para bichos parecidos com humanos, principalmente mamíferos. Por estarem mais distantes dessa imagem, pouco se costuma pensar no bem-estar dos crustáceos durante a preparação de receitas.

Em 2003, o renomado escritor e ensaísta americano David Foster Wallace (que se suicidou em 2008) voltou-se ao tema, curiosamente recrutado pela principal revista de gastronomia dos Estados Unidos, a Gourmet Magazine. As questões éticas e filosóficas que decorrem da ciência de que esses animais sentem dor e sofrem durante o processo pelo qual passam para chegar ao prato foi abordada em um longo e intenso texto intitulado "Pense na lagosta", que integra o livro Consider the Lobster and Other Essays (Pense na lagosta e outros ensaios, em tradução livre) lançado em 2005 pela editora Little, Brown and Co. O texto em português faz parte do recém-lançado livro Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo (Companhia das Letras).

No artigo que dá nome ao livro, Wallace compara o Festival da Lagosta do Maine, evento popular nos Estados Unidos, em que uma imensa panela ferve até 100 lagostas de uma só vez, a "um circo romano ou um festival de torturas medievais."

Mas, como ele mesmo admite, seu maior argumento não é teórico, mas prático. Trata-se da reação da lagosta ao ser fervida, descrita com clareza pelo autor: "Quando é despejada do seu recipiente para dentro do tacho fumegante, às vezes a lagosta tenta se segurar nas bordas do recipiente ou até mesmo enganchar as garras na beira do tacho como uma pessoa dependurada de um telhado, tentando não cair. Pior ainda é quando a lagosta fica imersa por completo. Mesmo que o sujeito tampe o tacho e saia de perto, normalmente é possível ouvir a tampa chacoalhando e rangendo enquanto a lagosta tenta empurrá-la. Ou escutar as garras da criatura raspando o interior do tacho enquanto se debate. Em outras palavras, a lagosta apresenta um comportamento muito parecido com o que eu ou você apresentaríamos se fôssemos atirados em água fervente (com a óbvia exceção dos gritos)”. 

Wallace prossegue: "Tente imaginar um Festival da Carne do Nebraska cujas festividades incluíssem caminhões estacionando e gado sendo descarregado por uma rampa para em seguida ser abatido diante do público no Maior Matadouro do Mundo ou coisa parecida – seria impossível."

"Sistema nervoso simples" — Segundo o texto do escritor americano, durante o festival do Maine o Conselho de Fomento à Lagosta, uma instituição local, distribuía um encarte que explicava, entre outras coisas, que as lagostas não sentem dor por terem um sistema nervoso muito simples.

O estudo publicado no Journal of Experimental Biology nesta quarta-feira não é o primeiro a demonstrar que os crustáceos sentem dor. Muitos estudos fazem coro com Wallace ao afirmar que boa parte do embasamento neurológico dessa afirmação é imprecisa.

Para os pesquisadores da área, um dos grandes problemas de definir se os animais sentem dor é saber primeiro o que é dor. Também é preciso saber se, além de sentir dor, esses animais têm consciência da dor. "Em termos de bem-estar animal, o que importa é a consciência da dor, porque se ele tem isso ele sofre, e se ele sofre a gente tem que tratá-lo de um jeito que evite qualquer tipo de sofrimento", afirma Gilson Volpato, especialista em bem-estar animal e professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu.

"Mas como saber que um animal não humano tem consciência da dor? Os estudos conseguem evidencias de que eles reagem de um jeito ou de outro, que foi o que o estudo de Elwood mostrou: algumas evidências que, para serem aceitas, requerem a aceitação da premissa de que esses animais devem estar sentido dor”, afirma ele.

Para Volpato, a dor nos animais é um importante sinalizador de que algo é ruim e deve ser evitado. "É difícil pensar em um organismo vivo que não sinta dor. Ele faria, sem perceber, coisas que iriam prejudicar a sua chance de sobrevivência", diz.

A ideia de que animais como crustáceos e outros invertebrados não sentem dor tem origem na grande diferença entre os humanos e esses animais. "É o problema de familiaridade", afirma Ashley Byrne, ativista do Peta (People for the Ethical Treatment of Animals. Em português, Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais). "Alguns animais são mais familiares para nós, como cachorros e gatos. Nós entendemos os sinais que eles dão quando sentem dor, a reação deles é mais parecida com a nossa. Mas animais marinhos frequentemente reagem de forma que não é familiar. Alguns peixes, por exemplo, mudam de cor.  Como crustáceos e peixes são menos parecidos com os seres humanos e outros mamíferos, as pessoas supõem coisas que não são baseadas na ciência.”

Apesar do debate científico sobre o assunto ainda não estar superado, estudos recentes apontam para a resposta positiva em relação à presença de dor. “No estado atual das pesquisas, faz mais sentido assumir que eles sentem dor do que o contrário. Darwin não provou a seleção natural, mas ele reuniu evidências suficientes para que as pessoas achassem que o discurso era fundamentado. As evidências são favoráveis a que os crustáceos sintam dor. Mesmo que algumas pessoas digam que eles não têm certas regiões do cérebro necessárias para sentir isso, estão falando em comparação com um modelo de mamíferos”, diz Volpato.

Ética de pesquisa – Não são apenas os cozinheiros que "não pensam na lagosta" (para inverter o título do ensaio de David Foster Wallace). Pesquisas científicas realizadas com essas espécies geralmente não precisam passar pela aprovação de uma comissão que avalia os cuidados com os animais.

A Diretriz Brasileira de Prática para o Cuidado e a Utilização de Animais para Fins Científicos e Didáticos (DBPA) e a Lei nº 11794, de 2008, que estabelece procedimentos para o uso científico de animais, considera como animal qualquer vertebrado vivo não humano, das espécies classificadas no filo Chordata, subfilo Vertebrata. “Isso significa que a legislação em vigor no Brasil não é relativa a animais invertebrados (como os caranguejos e insetos), mas apenas a espécies pertencentes aos grupos dos peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos”, afirma Marcelo Pinheiro, biólogo marinho da Unesp São Vicente.

Volpato, que realiza diversas pesquisas com peixes, explica que, apesar de ser aplicada a todos os vertebrados, a legislação é muito mais voltada para mamíferos. “É o mesmo que dizer que a legislação de diretos humanos só vale para pessoas que não são índias”, diz.

Para o pesquisador, a intensificação da luta pelos direitos dos animais, que ocorre desde a década de 90, apesar de ser positiva, gerou situações contraditórias. "Se eu vou fazer uma pesquisa com peixes, tenho que passar por uma comissão que vai avaliar cada procedimento ao qual o animal será submetido, mas se eu sou pescador, posso fazer os peixes sofrerem à vontade." Ele explica que mesmo pescarias nas quais os peixes são devolvidos ao mar depois de fisgados são prejudiciais, pois causam sofrimento aos animais apenas para o entretenimento.

"Quando se trabalha com produção animal você tem que entender que é necessário matar alguns animais para alimento. Mas a gente deve causar o mínimo de sofrimento possível. Só que existe sofrimento desnecessário", afirma.