Dieta protéica - Zootecnista criador de insetos é destaque na Revista Globo Rural

27/08/2013 19:38

Empresa de Minas Gerais produz 1,5 tonelada de insetos por mês para abastecer indústrias de ração animal

Alana Fraga | Fotos João Marcos Rosa, de Betim (MG)
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Quando se formou em zootecnia pela Universidade Federal de Lavras (MG), em 1999, Gilberto Schickler resolveu dedicar-se à elaboração de projetos para pessoas que queriam ser criadores comerciais de animais silvestres. Com o tempo, ele decidiu ter seu próprio criadouro de trinca-ferro. “Vi que seria necessário ter uma produção de alimentos vivos, principalmente para as aves que recebia do Ibama. Apreendidas, elas chegam debilitadas e não querem comer ração. Já o inseto é um alimento que aceitam facilmente, porque estão habituadas, desperta o instinto de caça do animal e é rico em proteína”, conta. 
Após três anos, o zootecnista percebeu que o potencial de negócio não estava na criação das aves, e sim na produção de seu alimento. Quando a produção de insetos começou a crescer muito além do normal para um criadouro de pássaros, ele investiu na pesquisa e descobriu que no mundo inteiro existem empresas especializadas nesse segmento. “Isso é um verdadeiro agronegócio nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia”, explica. 
 

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Desde 2001, quando começou a se dedicar exclusivamente à produção de insetos, Schickler passou a ser requisitado por criadores de animais silvestres e exóticos de diversos lugares do Brasil. Foi em 2007, ao ser apresentado ao empresário Luiz Otávio Pôssas, fundador do Museu da Cachaça e dono da fábrica de ração Mega Azul, que nasceu a Nutrinsecta, a primeira fábrica de insetos para alimentação animal do país. “Luiz Otávio fez uma pesquisa junto à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre os principais ingredientes que se deve ter numa ‘super’ ração para a alimentação animal. Um deles eram insetos, que têm proteína de alta qualidade e digestibilidade”, explica Schickler. 
O empreendimento foi instalado no Instituto Vale Verde, em Betim (MG), que congrega o alambique da cachaça Vale Verde e um parque ecológico de preservação da natureza. A princípio, a criação dos insetos serviria apenas aos animais do parque, mas a carência do produto no mercado nacional levou à ampliação da produção para atender a novos clientes. Atualmente, a empresa produz, por mês, cerca de 1,5 tonelada de moscas, larvas, tenébrios, gafanhotos e baratas, numa área de 1.000 metros quadrados. Ali, a mosca não pousa inconvenientemente na sopa: além de ser servida como comida aos pássaros do instituto, ela e os demais insetos produzidos são adicionados como ingredientes nas receitas de bolos e pães para os visitantes que, interessados em desafiar o paladar, pedem uma degustação. 
 

 SEGURANÇA ALIMENTAR 

“As pessoas ficam interessadas em experimentar os insetos. Embora haja esse bloqueio de mercado no Brasil, acreditamos muito nesse nicho. Existem cerca de 120 países no mundo com hábitos de entomofagia, muitos deles de coletas e compras”, destaca o zootecnista. Recentemente, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês) destacou a importância dos insetos comestíveis na luta contra a fome no mundo. Segundo a FAO, a criação de insetos em larga escala poderia contribuir para a segurança alimentar mundial. Hoje, cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo incluem esses animais na sua dieta. 
Schickler enfatiza que a produção é destinada apenas para a alimentação animal, já que a empresa tem o SIF (Serviço de Inspeção Federal) para essa finalidade. Embora a maneira de produção dos insetos siga as mesmas exigências sanitárias para animais e humanos, seriam necessários um SIF específico para cada destinação e um criatório à parte, um custo muito alto para um retorno ainda pouco compensador no mercado brasileiro. 
 

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O zootecnista Gilberto Schickler, fundador da Nutrinsecta

Como pioneira na criação de insetos para alimentação no Brasil, a empresa teve de desbravar essa atividade em quase todos os aspectos. Até o ano passado, quando a Nutrinsecta conseguiu o SIF para a comercialização, não havia nenhuma referência sobre criação de insetos no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). A empresa foi enquadrada na legislação de fabricantes de ingredientes para alimentação animal. “Até o ano passado, a gente vendia o mínimo possível, direto para a fábrica de ração, por não haver esse registro. Para obter o SIF, tivemos de fornecer todas as informações de como é feita essa criação, para que eles pudessem ver que é um produto de qualidade, que é uma criação como outra qualquer, que a gente produz nossas matrizes, e tudo isso é feito num ambiente sanitário seguro”, conta Schickler. 

Para triplicar o volume produzido – meta deste ano –, a empresa investiu na ampliação e modernização da área de produção: serão mais 1.000 metros quadrados. A tecnologia que eles criaram para essa nova etapa consiste num híbrido de estufas climatizadas e galpões avícolas. A partir do segundo semestre deste ano, além da climatização, o trato dos animais, que atualmente é 100% manual, será mecanizado. “Sem controlar a temperatura, o volume de produção varia de acordo com a época do ano. Temos uma produção muito alta na primavera-verão e que cai bastante no outono-inverno.” 

O sistema de criação é bem simples e rústico, mas há o cuidado de manter o ambiente sempre limpo e sem exposição a dejetos. A água dos insetos é fornecida por meio de pedaços de frutas, que são colocados diariamente um a um nas 2.500 caixas dos criatórios. A alimentação é semelhante à do frango: farelo à base de trigo, soja, milho e algumas leveduras. Os excrementos são retirados todos os dias. Os insetos criados em cativeiro ficam isolados, a fim de evitar contaminação ou contato com espécimes de fora. 

A empresa comercializa os animais vivos ou desidratados direto para as fábricas de ração. O abate é feito na própria empresa, de maneira bem simples: jejum de 24 horas e, a seguir, mergulho em água fervente. Depois, passam por um processo de secagem em um recipiente semelhante a um forno. Assim, eles conseguem manter as propriedades nutritivas. 
 

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As aves do instituto Vale Verde fazem a degustação dos insetos

Hoje, devido às restrições impostas pela legislação brasileira com relação ao transporte de animais vivos pelo correio, a Nutrinsecta só consegue atender a clientes de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Para Schickler, isso trava o desenvolvimento da atividade. “Os animais são lacrados em uma embalagem apropriada, que permite a ventilação, impede a fuga e não oferece risco nenhum a quem manipula ou a outras embalagens transportadas. Em vários países do mundo, o correio faz o transporte desses alimentos vivos. Se fosse possível fazer isso no Brasil, seria um comércio muito mais forte”, garante. 
Só a Biotroon Zootecnia, uma das clientes da Nutrinsecta, compra por ano 4 toneladas de insetos para a fabricação de ração. Um ingrediente ainda caro – aproximadamente R$ 130 o quilo. Dos mais de 40 produtos do portfolio, apenas um, lançado há um ano e meio, contém 15% do ingrediente em sua composição. “Pela própria dificuldade de encontrar a matéria-prima. Se houvesse disponibilidade maior, certamente teríamos outros produtos no mercado”, afirma o diretor da empresa, Carlos Benites. 
A ausência de uma legislação específica do Ibama para a comercialização de invertebrados para alimentação animal é outro gargalo. A empresa já aguarda, há alguns anos, “um espaço na agenda” do órgão ambiental para regulamentar a atividade. Para o empresário, com o uso de tecnologias que devem baratear a produção, os insetos serão alimentos viáveis para animais de produção. “Com as restrições ao uso de farinhas de origem animal na alimentação de bovinos, suínos e aves nos últimos anos, devido à doença da vaca louca, os insetos estão sendo apontados como uma alternativa, porque não possuem restrições do ponto de vista sanitário.”

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