Desaparecimento das abelhas preocupa apicultores de Maringá

17/03/2015 20:30

Os agrotóxicos utilizados nas lavouras de cana, soja e laranja são os principais suspeitos

Einstein

O fenômeno do desaparecimento das abelhas, que vem preocupando ambientalistas, cientistas e apicultores de vários países, já é uma realidade também na região de Maringá, onde várias colmeias foram perdidas nos últimos meses. As suspeitas de pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e dos próprios produtores recaem sobre agrotóxicos usados em larga escala nas lavouras de cana-de-açúcar, laranja e grãos como soja e milho.

A cada dia, mais abelhas abandonam as colônias

A cada dia, mais abelhas abandonam as colônias

Nós ainda não temos números oficiais, mas é cada vez mais constante a reclamação de produtores de que seus enxames estão desaparecendo”, disse a zootecnista Lucimar Pontara Peres, professora da UEM e membro da Confederação Brasileira de Apicultura. Desde o ano passado ela vem alertando os apicultores de que mais cedo ou mais tarde isto iaacontecer nesta região e relatos recentes comprovam as suspeitas dela.

A pesquisadora diz que esta dizimação em massa está acontecendo em praticamente todo o mundo e em algumas regiões da Europa foi registrado o sumiço de até 80% da população de abelhas. No Brasil o fenômeno já é evidente no Nordeste, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul e ultimamente são os produtores de São Paulo que dizem que o problema está cada vez maior,principalmente nas regiões de canaviais e laranjais.

Esta constatação traz preocupação”, diz a zootecnista, “pois as abelhas, além de produzirem mel, são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das culturas agrícolas, impulsionando a produtividade de frutos e grãos e garantindo a renovação das matas que contribuem com a geração do oxigênio necessário à vida no planeta”.

A flor de laranjeira é uma das principais fontes de pólen, mas os agrotóxicos podem estar prejudicando as abelhas

A flor de laranjeira é uma das principais fontes de pólen, mas os agrotóxicos podem estar prejudicando as abelhas

O produtor e secretário da Associação Regional dos Apicultores de Maringá, zootecnista Ricardo Cazotti, diz que o problema tem ocorrido de uma forma geral na região, mas é mais grave em determinadas áreas. Na região de Alto Paraná, por exemplo, as perdas de enxames tem sido uma constante nos últimos meses. Um produtor que tinha 120 caixas está com apenas 20 porque as abelhas não voltaram mais, abandonando a rainha. Outro, que tinha 1,5 mil caixas produzindo mel de flor de laranja, disse ter perdido 40% de suas colmeias.

Técnicos da Emater em Alto Paraná acreditam que o fato pode ser decorrente da aplicação de defensivos nos laranjais. Os laranjais são vastos na região e a principal fonte de pólen para as abelhas, porém estão sendo atacados pelo Greening, uma doença que causa a deformação dos frutos. Ultimamente, os produtores têm utilizado agrotóxicos fortes na tentativa de controlar a doença.

Na região de Floresta, a produtora Albertina Ambiel Jung, que participa da Feira dos Sabores do Paraná e de eventos regionais da agroindústria, perdeu parte de seus enxames nos últimos meses e acredita que a causa pode ter sido a aplicação de veneno nas lavouras de soja e milho próximas à sua propriedade, às margens da PR-317.

Ainda é cedo para termos noção do tamanho do problema na nossa região, pois não temos um cadastro dos produtores, com a quantidade de abelhas de cada um”, diz Lucimar Pontara. “A característica do noroeste paranaense é de pequenos apicultores e também não temos floradas como alimento para as abelhas. Geralmente o alimento se resume às culturas agrícolas da época, como soja, laranja e eucalipto, e quando acontece de perder algumas caixas fica difícil um diagnóstico, o produtor é levado a pensar que pode ter sido pelo frio, falta de alimento ou outro problema pontual”.

Que há algo errado, que abelhas estão sumindo, não temos mais dúvidas, só não sabemos a extensão do problema, nem a causa”, diz o secretário da Associação dos Apicultores. Segundo ele, as entidades ligadas à apicultura esperam ter ideia mais correta sobre as causas par que possam tomar providências.

Desordem na colônia

Há séculos que as colmeias, com as abelhas trabalhando em harmonia perfeita, são tidas como exemplo de organização, porém este conceito começa a mudar com os fatos que vêm ocorrendo nos últimos oito anos no mundo. De uma hora para outra, as abelhas surtam e, sem motivo aparente, não voltam para casa. Sozinha e sem o pólen, a rainha morre e a colmeia deixa de existir.

Este comportamento estranho, que até agora não ficou claro para os cientistas, foi batizado de “colony collapse disorder” e os cientistas se dividem entre os que culpam os agrotóxicos, especialmente os aplicados por avião, e os que acham que trata-se de uma infecção por vírus, que estaria danificando o código genético dos insetos.

3 mil

é o número aproximado de colmeias instaladas em um raio de 100 quilômetros de Maringá