Criadores de MG ganham dinheiro com porcos-do-mato brasileiros

17/11/2014 19:24

Globo Rural acompanhou o trabalho de dois produtores de Minas Gerais.
Criações de cateto e queixada possuem autorização dos órgãos ambientais.

Do Globo Rural

 
 
 
 

É na zona rural de Conceição da Barra de Minas, município vizinho à histórica cidade de São João del Rei que fica um piquete de criação do maior porco do mato das américas, conhecido pelo topete, a barba branca e o inconfundível bater dos dentes.

Solta na natureza, a queixada é um animal agressivo e que só anda em grupo, com cerca de 150 indivíduos, para se defender dos predadores. Só a onça e homem é que se atrevem a encarar esse tipo de porco do mato.
Dentro do cercado, o animal até se acostuma com a presença do tratador, mas ainda assim, está longe de ser considerado dócil.

Ronaldo Coelho é o dono da propriedade, que há dois anos investiu 25 mil reais para dar início à criação. “Atualmente o que rende mais é a venda de matrizes”, explica. Enquanto uma matriz ou reprodutor vale R$ 800, um animal para abate rende a metade. “Pretendo aumentar, quero chegar com cem, duzentas matrizes em dois anos”, declara o criador.

De norte a sul do Brasil, a braveza da queixada é bastante conhecida. Animal típico das florestas tropicais úmidas, ele ocorre em grande parte dos países das américas do Sul e Central.

O zootecnista Fábio Hosken já implantou 16 criatórios de queixadas, em propriedades de Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo, Tocantins e Minas Gerais. “É um animal muito fácil de criar, muito rústico, mas é um porco que mete medo. É com o trato diário, com a rotina do criatório que os animais associam a presença do criador com uma coisa boa, daí sim não tem problema durante a alimentação”, diz Fábio Hosken, Zootecnista.

Eles são onívoros. Comem alimentos tanto de origem animal, quanto de origem vegetal. Pode ser fruta, legume, cana, capim e até vísceras de algum animal, soro de leite. Setenta por cento são desses alimentos e 30% de uma ração feita na própria propriedade.
O que eles não comem são alimentos em putrefação, tipo carniça. Eles engordam bem, de dez a doze meses já atingem 30 a 35 quilos. Esse é ponto de abate.

A ração preparada na propriedade é servida no cocho. “Essa ração tem 70% de MDPS, milho desintegrado com palha e sabugo, 20% de farelo de trigo e 10% de farelo de soja. São 200 gramas dessa ração, por animal/ dia”, explica Fábio Hosken, zootecnista.

Por ser bastante resistente, a queixada exige pouco dos tratadores. “O plantel não tem vacinação. Os cuidados se resumem a vermifugação periódica. Utilizamos o vermífugo em pó para suínos comum. Conforme o fabricante tem que consultar a dosagem. E a gente mistura esse vermífugo nessa ração de farelo, de três em três meses”, orienta o zootecnista.

É fundamental que o piquete se aproxime ao máximo do ambiente que os animais encontrariam se estivessem livres. Com sombra, água fresca e até um barreiro para eles se refrescarem. “Um piquete ideal teria 10 a 20% de pasto, onde terá o brete de manejo, o bebedouro, o que vai facilitar a fiscalização. E o restante, 80% de capoeira, de cerrado, de mato, já que é um bicho de floresta, de áreas de vegetação densa”, explica.

A esfregação também é um dos hábitos da queixada. Serve para passar o cheiro de um animal para o outro, como forma de reconhecimento do bando.

A contenção da queixada na gaiola se dá no máximo quatro, cinco vezes no ano. O trabalho ajuda a identificar o plantel, uma exigência legal, para que haja controle dos nascimentos em cativeiros.

Seguindo a rota das cidades históricas de Minas Gerais, na fazenda Engenho d´Água, em Ouro Preto, fica uma criação de cateto.

A mata que hoje ocupa 80% da propriedade contou com a ajuda de outro porco do mato para se recuperar dos cortes feitos pelo antigo dono. ”A gente fala que o cateto é um produto florestal, não madeireiro. Ele é um integrante de uma floresta. Ele promove através da dispersão de frutos e sementes essa restauração, nessa recuperação”, conta Helton Aguiar Neves, criador.

O cateto, conhecido ainda como catitu ou caititu, também é nativo do Brasil e de outros países das américas do Sul e Central. Para saber se o porco é ou não cateto, basta observar uma mancha clara no pescoço, que lembra um colar.

Enquanto a queixada adulta mede em torno de 55 centímetros de altura e pesa de 35 a 40 quilos, o cateto também adulto tem cerca de 45 centímetros e pesa de 25 a 30 quilos. Apesar das diferenças, o sistema de criação dessas duas espécies é bem parecido.

Na propriedade de Helton Neves, o plantel de cateto conta hoje com 66 animais. Começou com 12, vindos de um zoológico desativado.  “Eu sou fiel depositário dessas matrizes, reprodutores do Ibama. Os descendentes eu estou apto a comercializar”, diz o criador.

Atualmente, Helton consegue pelo menos 24 crias por ano e para que os animais não estranhem o cativeiro, o piquete é cheio de manilhas, que imitam as tocas que eles encontrariam se estivessem livres.

Assim como a queixada, o cateto é um animal rústico, com baixo índice de mortalidade e difícil de ficar doente. Com esse bicho também o único cuidado veterinário é com a vermifugação, que na propriedade fica a cargo da semente de abóbora.

Tanto o cateto quanto a queixada podem ser abatidos com um ano de idade e nem um, nem outro precisam ser castrados. “Cinquenta por cento de tudo que se produz de cateto e queixada é destinado ao mercado de matriz e reprodutores, para formar novos criatórios. Os outros 50% vão para o abate que, por enquanto, abastece principalmente os restaurantes de alta gastronomia. Isso devido ao custo, que para o consumidor final, chega aí por volta de R$ 80 o quilo”, explica o Fábio Hosken, zootecnista.

Só de olhar as carnes, já é possível perceber a diferença. O queixada tem uma carne com vermelho mais forte, mais vivo e o cateto tem uma cor bem mais clara, mais opaca.  “Comparando essas dois cortes com a carne do porco de granja, de suíno, a diferença está o teor de gordura. É muito menor o das duas carnes, do que a de suíno, em torno de 30% menor”, explica.

Veja no vídeo acima o preparo das duas carnes. A chef Rosilene Campolina prepara o cateto e o chef Nivaldo Miranda Pio, a carne de queixada.

É sempre bom fazer uma pesquisa de mercado antes de começar a criação de animais ainda pouco conhecidos. Sem mercado, não tem negócio. E vale lembrar: o trabalho, tanto com a queixada quanto com o cateto, precisa de autorização dos órgãos ambientais.