Confinamento no piquete: Quando e como usar?

10/09/2014 21:06

Encarada por diferentes óticas, a pecuária de corte brasileira tem sido pauta de diversos debates por todo o mundo. Em muitos deles é colocada como vilã, como sendo a grande responsável pelo desmatamento da Amazônia e pelo aquecimento global, sendo estes os principais pontos abordados e comumente discutidos, na maioria das vezes por leigos, nos mais diversos meios de comunicação. 

Por outro lado, o Brasil tem sido colocado como o grande “salvador da pátria”, o responsável por produzir proteína de qualidade (proteína animal) para o mundo, dada demanda por alimentos em função da taxa de crescimento populacional e da renda mundial. 

Independente da atividade, as margens de lucros vêm se estreitando ano a ano o que promoveu a redução das margens individuais, fazendo-se necessário então o aumento da escala de produção e principalmente da adoção de tecnologias. A adoção de tecnologia é fundamental, principalmente em épocas de margens estreitas, pois quando se trabalha com grandes margens de lucratividade, mesmo com ineficiência técnica, há possibilidade de obter bons resultados financeiros. Esta tendência fez com que o produtor de gado de corte começasse a se preocupar com os números de sua fazenda, ou seja, a encarar a produção pecuária não mais como uma atividade extrativista e exploratória e sim como uma empresa de negócios. 

Torna-se evidente então a demanda por tecnologias, que além de agregar em escalas produtivas, devem se preocupar com o meio ambiente, com as exigências do mercado e com as margens de lucro. E é nesse contexto então que iremos lançar algumas perguntas e respostas para discutir e abordar pontos importantes sobre o abate de bovinos a pasto durante o período da seca de forma econômica e sustentável

Quais os desafios de terminar um animal a pasto? 

Sem dúvida a fase de cria é o gargalo do sistema da pecuária de corte, caracterizada por ser a etapa mais longa e onerosa do sistema. No entanto, se pensarmos somente na fase de engorda dos animais, a terminação seria a etapa crucial, uma vez que a arroba produzida exige maiores cuidados do que na recria. 

Na maioria dos casos a arroba produzida durante a fase de recria apresenta menor custo de produção. Nesta fase a maior parte da deposição de tecido no animal se dá por músculo, o que torna a conversão de alimento ingerido em produto animal mais eficiente, desse modo a recria dos animais em pastagens tem resultado em bons ganhos de peso e produção de uma arroba de baixo custo. Vale ressaltar ainda que atualmente existem inúmeras opções que permitem otimizar o ganho de peso dos animais durante a recria. Pode-se listar o manejo correto da pastagem (Difante, et al., 2010) e a suplementação estratégica (Roth et al., 2011) como tecnologias que tem se mostrado de extrema eficiência, desde que utilizadas de forma correta. 

O que acontece durante a terminação é que a deposição de tecidos no corpo do animal se dá de forma diferente do que na recria. Com o aumento do peso corporal, o animal passa a aumentar a deposição de tecido adiposo, diminuindo assim a eficiência de conversão de alimento em produto animal. Nesta fase o animal precisa ingerir mais energia para depositar um quilo de peso corporal do que precisaria durante a recria, pois nesse momento há maior proporção de tecido adiposo no ganho. Em contrapartida, com o avançar do peso dos animais durante a terminação, o consumo em porcentagem do peso corporal diminui. Tem-se então o problema, o aumento da exigência de energia e diminuição do consumo alimentar. 

Nesse contexto o confinamento surge como uma boa opção, permitindo a formulação de dietas com maiores teores de energia e menor teor de fibra, resultando em um consumo de energia mais elevado. Porém se o objetivo for terminar os animais em pastejo, qual seria a melhor opção para adequar essa problemática? 

Para isso, temos primeiro que caracterizar o cenário a ser trabalhado. Normalmente o período de terminação coincide com o período seco do ano. Nesta época, em função das condições climáticas (principalmente temperatura e umidade) as forrageiras apresentam baixo valor nutritivo, baixa ou quase nula taxa de crescimento, limitando severamente o consumo e o desempenho animal. Ou seja, o problema a ser encarado é o aumento na exigência para ganho de peso e um cenário extremamente desvantajoso para produção animal. 

O ponto chave neste cenário se aplica sobre o consumo, pois este é travado em quantidade, devido à baixa disponibilidade de forragem e/ou pelo elevado consumo de fibra na dieta, que promove o efeito de repleção ruminal. Além da baixa ingestão, a qualidade da forragem consumida é outro agravante, sendo observado normalmente níveis de proteína bruta abaixo dos 5% da matéria seca e níveis de FDN acima de 70% o que com certeza limita a atividade dos microorganismos ruminais. 

Nesse contexto, para terminar os animais na época seca em pastejo, o efeito substitutivo da dieta deve ser explorado, ou seja, fazer com que o animal deixe de consumir forragem e passe a consumir suplemento, e com isso ocorra maior ingestão de energia. 

Surge então o termo “confinamento no pasto”, em que, são fornecidas grandes quantidades de suplemento (1,5 a 2,0% do peso corporal (PC) do animal) no próprio piquete. Neste novo sistema de terminação o pasto não é mais o componente principal da dieta dos animais, sua função agora é de permitir uma quantidade mínima de fibra na dieta visando um ambiente ruminal saudável. 

Conclusão: Terminar um bovino inteiro no pasto com acabamento adequado é difícil. Se for durante a seca, requer elevado nível de suplementação. 

Quais as vantagens de um confinamento no piquete? 

Como qualquer coisa em nossas vidas, podemos sempre ressaltar vantagens e desvantagens sobre qualquer assunto, e com essas duas formas de terminar os animais (convencional e pasto) não é diferente. O que deve ser analisado são os pontos principais de cada um das formas e ver qual se enquadra melhor na propriedade. 

O confinamento convencional é indiscutivelmente uma tecnologia de extrema importância dentro do sistema de produção de carne. É possível desocupar áreas de pastagens, liberando as mesmas para receber categorias menos exigentes (recria), formação de lotes homogêneos, e principalmente, ajustar a exigência energética dos animais oferecendo uma dieta mais densa energeticamente, o que resulta em deposição de gordura, mesmo quando falamos de animais machos e não castrados, resultando em acabamentos de carcaça nos animais acima de mínimo exigido para um acabamento regular (3 mm gordura). 

Porém o custo de implantação de um confinamento convencional é alto e demanda uma logística operacional muito grande, o que pode inviabilizar sua adoção pontual. O que queremos elucidar com esse ponto é que nenhum pecuarista deve montar um confinamento para ser utilizado por um ou dois anos, no caso do confinamento no piquete como o investimento em infraestrutura é muito menor, pode ser utilizado dessa forma. 

Outro ponto fundamental é que no Brasil as dietas utilizadas nos confinamentos possuem em média 28,8% de volumoso (Millen et al., 2009). Com a exceção do bagaço de cana-de-açúcar os demais volumosos normalmente são produzidos na própria unidade confinadora, dessa forma a definição do número de animais a ser confinado e uma possível implantação ou expansão precisa ser planejada com bastante antecedência. Já no caso do confinamento no pasto, essa decisão será baseada na oferta de forragem existente na propriedade. 

Conclusão: A principal vantagem é não necessidade de produção de um volumoso suplementar e a logística operacional ser mais simples que o confinamento convencional. 

Nossa experiência 

Desde 2010, vem sendo conduzido uma série de estudos na Agência Paulista de Tecnologia do Agronegócio, Polo Regional da Alta Mogiana, na cidade de Colia/SP, com o objetivo de estudar a viabilidade do um “confinamento no piquete”. Entre inúmeras perguntas e dúvidas sobre o assunto, foram feitos desenhos experimentais que permitiram comparar o desempenho de animais terminados de forma convencional ou no pasto, estudar qual fonte energética e a taxa de lotação seriam mais adequadas, e ainda, qual aditivo utilizar. 

- Confinamento tradicional vs Confinamento no pasto, quais os ganhos? 

Até aqui abordamos assuntos teóricos, conceitos envolvendo a terminação dos animais e as estratégias disponíveis. Agora a pergunta que você deve estar se fazendo é: e o ganho de peso dos animais é o mesmo? 

Buscando responder a esta primeira pergunta foi feito um experimento em que o objetivo foi comparar os dois sistemas de terminação, convencional e no pasto. Foi fornecido o mesmo concentrado, na mesma quantidade em ambos os sistemas. O que diferia, além da estrutura física, é que no confinamento convencional foi fornecido 2,0% do peso do animal de suplemento e ajustado o consumo com bagaço de cana-de-açúcar, ou seja, em função das sobras era aumentada ou diminuída a quantidade de bagaço na dieta. Já no confinamento no pasto os animais recebiam 2,0% de seu peso de suplemento e tinham acesso aos piquetes (forragem). Foram avaliados 108 garrotes Nelore, com aproximadamente 387 kg, que receberam estas dietas por 125 dias. 

Ao final do período de confinamento os animais que foram terminados no sistema convencional apresentaram ganhos de peso médio diário 1,065 kg contra 0,840 kg dos animais terminados no pasto, o que resultou em um peso final de 521 e 492 kg para os animais do sistema convencional e pasto, respectivamente (Figura 1). O confinamento convencional resultou na produção de quase uma arroba a mais do que o confinamento no pasto. CUIDADO: Antes de considerar esses ganhos muito baixos e também já condenar o sistema de terminação no piquete ruim leia até o final do texto. 

Conclusão PARCIAL: Os ganhos de peso do confinamento no pasto são inferiores. 

 

Figura 1. Evolução do peso corporal em função dos sistemas de terminação (convencional vs pasto) 

Essa conclusão é verdadeira se analisarmos somente os dados com base no peso corporal, ou seja, se os animais foram vendidos vivos. Porém, normalmente o produtor vende seus animais para o frigorífico, e com isso passa a ser remunerado não pelo peso vivo final dos animais e sim pelo peso de carcaça. 

Nesse contexto, a forma correta de comparar os dois sistemas, ou na verdade qualquer sistema de produção, é com base no ganho em carcaça e não no ganho em peso corporal. 

Por uma questão experimental, na entrada dos animais no confinamento (convencional ou pasto) foram abatidos animais representativos do lote para se conhecer o peso real de carcaça inicial. Ao final do período de terminação os animais foram abatidos e com o peso de carcaça final foi possível calcular o ganho em carcaça dos animais. 

Nesse ponto podemos fazer um parêntese e explicar um conceito que vamos discutir bastante a partir de agora, o rendimento do ganho. Se dividirmos o ganho em carcaça pelo ganho de peso corporal teremos quanto do ganho em peso está sendo efetivamente em carcaça, ou seja, podemos fazer a seguinte conta: quando o animal ganho um quilo de peso vivo, quantos quilos estariam sendo depositado efetivamente em carcaça. Uma vez que a remuneração do produtor é realizada com base na carcaça. 

Voltando aos resultados do experimento, quando passamos a analisar os resultados comparando os diferentes sistemas de terminação, os animais terminados no pasto apresentam maior rendimento do ganho, ou seja, depositavam mais carcaça por quilo de peso corporal. A diferença observada no ganho de peso corporal, que era mais de 0,200 kg/dia, passa a ser de apenas 0,043 kg/dia quando comparada com base no ganho em carcaça (Figura 2). 

 

Figura 2. Ganho em carcaça, rendimento de carcaça e rendimento do ganho em função do sistema de terminação (convencional vs pasto). 

Para entender o porquê destas diferenças observadas na forma de medir o ganho dos animais, vamos dividir o peso corporal em três grupos, a carcaça, os componentes não carcaça (cabeça, patas, órgão, outros) e o conteúdo do trato gastrointestinal. Quando o animal ganha peso, cada uma dessas partes é responsável pelo o aumento do peso, a questão é que, a fração que cada uma dessas partes representa no aumento de peso pode variar em função de diversos fatores, sendo a dieta do animal um deles. 

A dieta pode afetar o rendimento do ganho por dois motivos. O primeiro seria pelo incremento na deposição de gordura na carcaça, isso seria observado em caso de dietas com diferentes densidades energéticas (Campos et al., 2012; Castro et al.; 2012) o que não é o caso. O segundo motivo seria por mudanças no conteúdo do trato gastrointestinal e tamanho dos órgãos digestivos. 

Essas mudanças no sistema digestivo acontecem provavelmente em função do consumo de fibra e pela taxa de passagem. Quando os animais recebem suplemento no cocho diretamente no piquete, o efeito substitutivo é elevado, sendo a quantidade de fibra na dieta muito pequena. Com o consumo de suplemento alto e consumo de forragem somente em determinados momentos do dia, tem-se como resultante o aumento da taxa de passagem em função da maior digestibilidade da dieta, resultando em diminuição do conteúdo do trato digestivo. Com a taxa de passagem mais elevada, o rúmen não precisa armazenar tanto o alimento, e acaba reduzindo de tamanho (Figura 3). 

 

Figura 3. A esquerda das fotos A e B, rúmen e conteúdo ruminal dos animais terminados no confinamento a esquerda e dos animais terminados no pasto a direita. *Peso dos animais da foto, 540 e 500 kg, confinamento e pasto respectivamente. 

Conclusão (final e correta): sim é possível substituir o confinamento convencional pelo confinamento no pasto. O ganho de peso na terminação a pasto pode ser subestimado se não for considerado as diferenças no rendimento de carcaça. 

- Posso utilizar qualquer fonte energética? 

Quando falamos em concentrado energético, com certeza o primeiro alimento que vem a nossa mente é o milho. Este é a fonte energética mais conhecida do mundo, porém por ser utilizada na alimentação humana, e na produção de aves e suínos, apresenta alta demanda o que resulta em preços mais competitivos, tornando sua utilização na terminação de ruminantes mais onerosa. 

No entanto, a utilização de subprodutos da indústria, surge como uma opção para a formulação de dietas para ruminantes (ex: polpa cítrica, casquinha de soja). A grande questão neste ponto seria a aceitação e/ou consumo do subproduto pelo animal e a manutenção dos ganhos quando comparado à utilização do milho. 

Ao avaliar a substituição do milho pela polpa cítrica no suplemento utilizado para a terminação dos animais em pastejo, constatou-se redução no consumo de suplemento dos animais que receberam polpa, (8,59 kg de suplemento/dia contra 7,63 kg, respectivamente). 

Provavelmente em função do menor consumo e consequentemente menor aporte de nutrientes, quando foi fornecida polpa cítrica, os animais apresentaram tendência (P=0,17) em ganhar menos peso, o que se consolidou quando foi avaliado o ganho em carcaça dos animais, 0,932 kg/dia contra 1,022 kg/dia quando utilizado milho (Figura 4). 

O que vale a pena ser analisado nesse ponto seria o custo da utilização de ambas as fontes energéticas. Ao avaliar a eficiência alimentar (kg ganho/ kg concentrado) e a eficiência biológica (kg concentrado/ @ ganha) os valores são os mesmos (Figura 4), independente da fonte utilizada, mostrando que os animais que receberam polpa ganharam menos peso em função do menor consumo, porém mantiveram a mesma eficiência biológica dos animais que receberam milho. 

 

Figura 4. Desempenho animal em função da fonte energética utilizada no suplemento para a terminação dos animais no piquete. 

Dessa forma como concluir qual seria a melhor forma energética a ser utilizada. A resposta é simples, ponderando desempenho e retorno econômico. Uma análise simplista dos valores obtidos com os desempenhos dos animais, contrastados com valores médios do mercado nos mostra alguns valores interessantes (Tabela 1). 

 

Quando utilizamos o milho como única fonte energética o custo da arroba produzida foi mais elevado, pois além dos animais consumirem maior quantidade de suplemento por dia, o custo da matéria prima utilizada normalmente é superior. Todavia a de se considerar que foram produzidas mais arrobas o que pode ser um anseio do produtor. 

O que vamos chamar de lucro alimentar é a subtração do lucro obtido com a venda das arrobas produzidas menos o valor gasto para a sua produção. Nessa simulação a vantagem seria para a utilização da polpa, com um lucro alimentar de R$ 73,41/ animal a mais do que quando utilizado milho. Vale ressaltar que esta é apenas uma simulação, devendo sempre ser ponderado para os cálculos, o desempenho animal com a fonte energética utilizada, e os valores das mesmas. 

Conclusão: milho e polpa apresentam eficiências semelhantes, o que deve ser ponderado é o lucro alimentar em cada situação. Vale ainda a ressalva de uma possível associação de substratos (milho e algum subproduto) buscando um melhor equilíbrio entre desempenho animal e retorno econômico. 

- Qual a taxa de lotação de usar? 

Se pensarmos que o consumo de forragem pelo animal seria somente desejado em função da manutenção da saúde ruminal, a oferta de forragem por animal poderia ser mais baixa e desse modo teríamos um maior número de animais por hectare. 

Analisando os dados de um experimento que avaliou duas taxas de lotação, mediana (6 animais/ha) e alta (9 animais/ha), com animais recebendo suplementação na quantidade de 2,0% do peso corporal, concluiu-se que os ganhos de peso e em carcaça não foram afetados pela lotação (Figura 5), média de 1,223 e 0,978 kg/dia respectivamente. 

O interessante nesse experimento foi o consumo de suplemento pelos animais, na lotação mais baixa os animais consumiram menor quantidade de suplemento do que na lotação mais alta, 7,86 e 8,36 kg/dia, respectivamente. 

Cabe aqui uma colocação sobre a presença da fibra na dieta dos animais. Sem dúvida, dietas de altas quantidades de inclusão de concentrado demandam um mínimo de fibra na dieta com o objetivo de manutenção da saúde do rúmen. Esta fibra atua de diversas formas na manutenção da homeostase ruminal. 

O que vamos discutir um pouco a partir de agora são os efeitos gerados pela presença da fibra na dieta, para tentar entender o porquê quando trabalhamos com uma lotação mais moderada houve um menor consumo de suplemento e o mesmo desempenho animal. 

A primeira pressuposição que vamos fazer é que, os animais na menor lotação consumiram mais forragem, o que resultou de forma direta no menor consumo de suplemento (menor efeito substitutivo). A ingestão de diferentes proporções de fibra na dieta pode apresentar valores distintos quanto ao tempo de mastigação, pH ruminal, tempo de retenção ruminal e taxas de digestão e passagem. 

 

Figura 5. Desempenho animal em função da taxa de lotação imposta na terminação dos animais no piquete. 

Um trabalho clássico de Hintz et al. (1964) demonstrou o efeito da fibra sobre a digestibilidade. Avaliando rações contendo casca de soja, com ou sem adição de feno, os autores observaram que quando a casca de soja foi fornecida de forma isolada, a digestibilidade da fibra bruta foi de 63,3%. No entanto, quando a casca de soja foi fornecida com feno, a digestibilidade da fibra bruta aumentou para 80,5%. 

Em outro estudo, Nakamura e Owen (1989) verificaram elevação de 8 unidades percentuais na taxa de passagem da casca de soja quando sua inclusão na ração total foi aumentada de 50 para 95,3%. Relataram ainda que a elevação na taxa de passagem pode ter sido a principal responsável pela diminuição da digestibilidade das frações FDN e FDA. 

Estes dois estudos nos auxiliam entender o que provavelmente aconteceu quando trabalhamos com 6 animais/ha. Ao consumir mais forragem, ou seja, maior ingestão de fibra, tem-se aumento no tempo de mastigação, que resulta em maior produção de saliva que atua como tamponante no rúmen auxiliando a manutenção e evitando a queda do pH ruminal. Outro ponto é o provável aumento no tempo de retenção do conteúdo ruminal, que faz o alimento ficar exposto à ação dos microorganismos ruminais por um período maior, resultando em maior produção de ácidos graxos voláteis e proteína microbiana. Esses pontos podem ser considerados explicações dos resultados obtidos quando os animais manejados em lotação mais moderada apresentaram eficiência alimentar 17% superior e eficiência biológica 13% melhor (Figura 5). 

Conclusão: Deve-se trabalhar com lotações mais moderadas, que permitam uma oferta de forragem razoável, e resultem em melhor eficiência na utilização de suplemento pelo animal. 

- Mas e se não quiser utilizar um nível de suplementação tão alto? 

Nesse momento devem existir ainda aquelas pessoas mais cautelosas, que devem estar questionando se não seria possível trabalhar com uma suplementação mais moderada (ex: 0,5; 0,7 ou 1,0% do peso do animal) para terminar os animais em sistema de pastejo, e com isso diminuir os custos com a suplementação. 

Para começar a discussão devemos relembrar que nosso objetivo é terminar animais no período da seca, e nesse período temos que trabalhar com a problemática da falta de disponibilidade e qualidade das forrageiras tropicais. Em um experimento realizado no centro de pesquisa com animais Nelore, não castrados, com peso inicial de 480 kg, testou-se por 89 dias a suplementação na quantidade de 0,5 ou 2,0% do peso do animal durante a fase de terminação. 

Como o esperado os animais que receberam 2,0% de suplemento apresentaram ganhos de peso corporal muito superiores àqueles animais que receberam 0,5% (1,505 contra 0,534kg/dia). O interessante de se discutir nesse caso são as diferenças observadas em relação ao peso corporal e de carcaça. Se compararmos os dados com base no peso final, considerando um rendimento de 50%, concluiríamos que agregamos 2,8 arrobas com aumento o nível de suplementação, e seriam essas arrobas produzidas a mais que teria que “pagar“ a conta do gasto excedente com a suplementação. Porém os rendimentos de carcaça são muito diferentes em função da suplementação utilizada (Figura 6). Comparando as diferenças reais de carcaça produzidas temos 5,1 arrobas produzidas a mais com a suplementação de 2,0%. 

 

Figura 6. Desempenho animal de animais recebendo 0,5 ou 2,0% do peso corporal durante a fase de terminação. 

Com base nas carcaças produzidas realizou-se o calculo do lucro alimentar, para avaliar qual dos dois sistemas seria mais interessante (Tabela 2). O custo total para a suplementação de 0,5% foi muito inferior ao de 2,0% como havia sido o questionamento inicial, porém a quantidade de arrobas produzidas é menor o que resulta em uma receita bruta inferior. Desse modo ao fazer a conta do lucro alimentar, a utilização do menor nível de suplementação gerou um prejuízo de R$ 34,24/ animal, ao passo que a “terminação no piquete” teve um retorno positivo de R$ 109,37/ animal. 

 

Conclusão: A terminação no piquete exige maior investimento de capital do que uma suplementação com níveis mais moderados (0,5% do PC), no entanto o retorno econômico é superior. Ou seja, gasta mais, porém o lucro é maior. 

- E por fim vale a pena utilizar aditivo? Qual? 

É praticamente impossível encontrarmos uma dieta de confinamento, principalmente as de alto grão, sem a presença de aditivos. Segundo Millen et al. (2009) 98,7% dos nutricionistas de bovinos de corte do Brasil utilizam algum aditivo nas dietas de confinamento. Dentre as opções mais utilizadas, podemos citar a utilização de tamponantes, ionóforos, antibióticos, leveduras, entre outros. O objetivo da utilização destes compostos seria o melhor aproveitamento da dieta consumida pelo animal, através da modulação do ambiente ruminal. 

Para entendermos melhor a ação dos aditivos vale resaltar o que acontece no rúmen dos animais. Após a colonização do alimento pelos microorganismos as partículas de alimentos começam a ser degradada. De maneira bem simples, pode-se dizer que a resultante desse processo é a multiplicação dos microorganismos (proteína microbiana) e a produção de ácidos graxos de cadeia curta (acético, propiônico e butírico), que são utilizados como fonte de energia pelo animal, podendo suprir até 80% da sua exigência energética (Van Soest, 1994). 

Quando é fornecido grande quantidade de concentrado na dieta, ou seja, grande quantidade de carboidratos prontamente fermentáveis, ocorre o aumento da produção de ácidos, que resulta na queda do pH, favorecendo a ação de bactérias produtoras de ácido lático que acentuam a queda de pH (Owens e Goetsch, 1993). 

Neste momento se destaca o importante papel dos aditivos como “moduladores” da fermentação ruminal. Um aditivo amplamente utilizado e que pode ser destacado é o ionóforo monensina. Ela atua sobre bactérias do gênero Gram positivas, sendo as bactérias produtoras de ácido lático pertencente a este grupo. Outro aditivo que vem sendo bastante estudado é a virginiamicina, está é um antibiótico não ionóforo que também atua sobre as bactérias produtoras de ácido lático. O que diferencia estes aditivos é o modo de ação e o local de atuação na célula bacteriana. 

Além de auxiliar na queda do pH, estes aditivos diminuem a produção de metano em função na melhora da relação acetato:propionato, o que resulta na melhora da eficiência energética no rúmen. A produção de metano pode representar até 9% de perda da energia consumida (Guan et al., 2006). 

Existem ainda alguns estudos relatando melhorias na absorção de nutrientes na parede intestinal com o uso da virginiamicina. Visando estudar melhor estes aditivos e/ou qual a melhor combinação de aditivos, foram estudadas diferentes misturas no suplemento utilizado para terminação dos animais no pasto. Testou-se um suplemento controle contra um suplemento acrescido de virginiamicina, ou a associação virginiamicina mais monensina ou salinomicina. 

Tanto o ganho de peso, como o peso final dos animais que receberam a associação virginiamicina mais monensina (Figura 7) foi superior às demais misturas. Apesar de atuarem sobre o mesmo grupo de microorganismos (bactérias Gram+), como os mecanismos de ação são diferentes observou-se efeito sinérgico da atuação dos dois antimicrobianos. Em avaliação semelhante a essa, porém com animais em confinamento convencional, Sitta (2009) observou melhora de 20% na eficiência alimentar com a combinação da virginiamicina e monensina em relação ao tratamento controle 

 

Figura 7. (A) Peso pré abate (B) ganho de peso, de machos Nelore, não castrados recebendo 2,0% de suplemento na fase de terminação com diferentes tipos e/ou combinação de aditivos. *Significativo a 5% de probabilidade 

Em relação a avaliação econômica observamos que a utilização combinada de virginiamicina e monensina aumenta o custo de produção por boi, porém em função em função do maior ganho em peso há diluição do custo adicional e o custo da arroba produzida é reduzido e consequentemente o lucro alimentar aumenta. 

 

Conclusão: A combinação de virginiamicina e monensina proporciona maior ganho em peso e melhor benefício econômico. 

Considerações finais 

A terminação de animais no piquete é viável e torna-se uma opção para terminação dos animais, por não demandar altos custos com instalação e maquinário. Contudo, alguns pontos devem ser analisados de forma criteriosa, como a escolha da fonte energética, a taxa de lotação e o tipo de aditivo. 

A métrica a ser utilizada na análise dos resultados é de extrema importância, sendo que os animais terminados no pasto apresentam maiores rendimentos de ganho do que os animais terminados no confinamento convencional. Dessa forma sua negociação final deve ser baseada no peso de carcaça. 

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SITTA, C. Aditivos (ionóforos, antibióticos não ionóforos e probióticos) em dietas com altos teores de concentrado para tourinhos da raça Nelore em terminação. Piracicaba, 2011. 88f. Dissertação (mestrado) – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo. 

VAN SOEST, P.J. Nutrition ecology of the ruminants. Ithaca: Cornell University Press, 1994 .476 p.

 

Autores:

Matheus Henrique Moretti (1), João Alexandrino Alves Neto (2), Flávio Dutra de Resende (3), Gustavo Rezende Siqueira (3)*

(1) Zootecnista, Doutorando em Zootecnia – FCAV – Unesp/Campus de Jaboticabal
(2) Médico Veterinário, Mestrando em Zootecnia - FCAV – Unesp/Campus de Jaboticabal
(3) Doutor em Zootecnia, Pesquisador da APTA – Alta Mogiana, Colina-SP e Prof do Programa de Pós-graduação em Zootecnia da FCAV – Unesp/Campus de Jaboticabal 
(3*) Autor correspondente: siqueiragr@apta.sp.gov.br