Como o boi funciona – Particularidades de ingredientes e nutrientes na alimentação bovina

01/03/2014 10:54

Muitos bois criados no Brasil conhecerão apenas o leite materno, a forragem e o sal mineral como alimento em toda sua existência.  O que podemos afirmar sobre esses animais é que, ao longo da vida, deverão passar muita fome e que terão um desempenho bem aquém do seu potencial. Para o bem da nossa pecuária, esse grupo tem que se tornar minoria.

Para desempenhos aceitáveis (que garantam a sustentabilidade da atividade), outros ingredientes tem que fazer parte da nutrição, pelo menos, nos momentos em que a pastagem perde a qualidade, como na época da seca. Especialmente quando o objetivo é atingir desempenhos muito acima da média é necessário o uso de ingredientes concentrados. Como o próprio nome diz, são alimentos que apresentam concentrações elevadas dos nutrientes. Basicamente são divididos entre energéticos (milho, sorgo, polpa de citrus, etc.) e proteicos (farelo de soja, farelo de algodão, etc.). A classificação entre um e outro nem sempre é tão clara, mas se aceita que os proteicos teriam mais do que 200 g de proteína bruta/kg de MS (20%) e os energéticos valores menores do que esse de proteína e fibra bruta menor que 20%.

O desenvolvimento do rúmen, do ponto de vista evolutivo, está fortemente associado com dietas à base de forragens. Em função disso, os alimentos concentrados trazem alguns desafios ao ambiente ruminal.

O principal deles é a grande produção de ácidos orgânicos (os ácidos graxos voláteis) que fazem o rúmen ficar mais ácido. Dependendo da intensidade com que eles o acidificam, há uma mudança na população de bactérias ruminais que faz com que o pH caia ainda mais rapidamente. No final das contas, essa sequência de eventos pode terminar com um quadro de acidose que, eventualmente, leva o animal à morte.

Se não levar à morte, pode predispor outras doenças metabólicas, como laminite e timpanismo. A primeira decorre da ação de toxinas liberadas no processo de acidose. Já o timpanismo, por sua vez, ocorre pela incapacidade do animal expelir os gases produzidos pela fermentação dos alimentos que ficam presos às bolhas no rúmen. Isso decorre da mudança da flora ruminal que faz aumentar a viscosidade do fluido dentro do rúmen ao ponto das bolhas não estourarem. O timpanismo pode ocorrer também por obstrução da saída (por uma prega muscular chamada cardia) dos gases ruminais para o esôfago , o que independe da nutrição.

É por causa disso que alimentos energéticos devem ser incluídos em dietas com critério e, dê preferência, gradualmente. Deve-se, também, redobrar a preocupação com os outros fatores que garantem um bom funcionamento ruminal, particularmente, o nível mínimo de fibra que estimula a ruminação (chamada de fibra efetiva), o uso de aditivos, tamponantes e o manejo alimentar (assuntos abordados na semana passada).

Muito antes de chegar às doenças metabólicas citadas acima, a acidificação do rúmen já causa prejuízo à produção animal, pois compromete a degradação da fibra. Alguns concentrados energéticos, que tem composição baseada mais em pectina do que amido, acarretam em menor efeito sobre a redução do pH ruminal. Esse é um bom motivo para dar preferência a alimentos como casca de soja e polpa cítrica na suplementação em pastagens, ainda que haja alguma dúvida em quanto se ganharia a mais com isso.

Um caso bem interessante de amido e pectina é o dos experimentos que mostram desempenho inferior de animais zebuínos em dietas de alto concentrado, mas só quando elas têm a energia proveniente de alimentos ricos em amido. Os ganhos ficam equivalentes, contudo, quando a pectina é fonte importante de energia na dieta. Zebuínos parecem lidar pior com amido do que animais europeus e seus cruzamentos. Uma evidência clara disso é quando comparamos as sobras de uma mesma dieta oferecida a europeus e zebuínos: Na sobra dos primeiros predomina o material mais grosseiro, mais fibroso, enquanto na dos zebuínos frequentemente há apenas concentrado sobrando. Enfim, os zebuínos selecionam o volumoso preferencialmente em relação ao concentrado.

Alimentos ricos em gorduras são outro tipo de alimento com os quais o rúmen não está muito habituado, pois o teor de gordura das forragens é baixo e normalmente em torno de 30 g/kg de MS (3%). Como já visto na semana passada, valores superiores a 6% são prejudiciais.

No caso das gorduras, os ácidos graxos é que são tóxicos aos microrganismos ruminais e, quanto mais insaturada a composição deles, mais tóxicos serão. Por conta disso, o sebo (mais saturado) seria uma fonte menos tóxica que os óleos vegetais (mais insaturada). Estes últimos, por sua vez, seriam mais tóxicos na forma livre, como óleo, do que sendo ingeridos como parte integrante das sementes de oleaginosas. Isto, pois, assim, contidos dentro das sementes são mais lentamente liberados no rúmen. Importante lembrar que o uso de sebo está proibido, em função do risco de estar contaminado com proteínas priônicas que possam causar o mal da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina).

Além de se preocupar com excesso de energia (especialmente como carboidratos de pronta fermentação como o amido) e com o controle da oferta de gordura, alimentos proteicos em excesso também podem causar problemas. O que deve ocorrer no rúmen é que a quantidade de proteína degradável precisa estar em balanço com a quantidade de energia fermentável da dieta, de forma que toda proteína degradável seja transformada no rúmen em proteína microbiana.

Há duas vantagens para esse bom aproveitamento: a) Obtém-se uma elevada população microbiana ruminal, responsável por degradar o alimento e b) quando esses microrganismos passam para o trato digestivo inferior, são aproveitados como proteína de excelente quantidade. Essas são as grandes recompensas de dietas bem balanceadas.

Na hipótese de haver descompasso entre proteína degradável e energia, o excesso de proteína, ocorre o “custo ureia”, como comentado no texto da semana passada. Portanto, podemos ter pior desempenho mesmo aumentado a proteína da dieta, caso isto leve o organismo do animal a ter que se livrar desse excesso na urina.

O alimento que mais pode predispor a extrapolação do teor de proteína degradável é a ureia. Primeiro, porque ela tem muito nitrogênio (450 g/kg de MS ou 45%), que equivalem a 2,8 kg de proteína/kg de MS e, segundo, porque ela é 100% degradável no rúmen. É por causa destas características que ela pode ser tão perigosa. Todavia, com bom balanceamento, adaptação e correto manejo alimentar o uso da ureia é seguro e, normalmente, altamente compensador do ponto de vista econômico. Produzir proteína de alta qualidade a partir de fontes de nitrogênio não proteicas como a ureia é uma das grandes vantagens dos ruminantes.

Há situações em que um alimento, ou substância presente no alimento, interfere com os outros. Isso é que chamamos de “efeito associativo”, que pode ser positivo ou negativo. Um dos exemplos clássicos disso são alimentos com alto teor de tanino. O tanino é a substância responsável por aquela sensação de “amarrar a boca” que se tem quando se come um caju não totalmente maduro. Essa sensação decorre da complexação das proteínas presentes na nossa saliva.

Essa capacidade de complexar proteínas, as deixa menos aproveitáveis. Como isso ocorre no trato digestivo do animal entre as proteínas e o tanino da dieta, dietas com mais de 1% de tanino devem ter os teores de proteína superestimados em relação às exigências, pois uma parte vai se complexar ao tanino. Felizmente, são poucos os alimentos que tem alto teor de tanino no caso do Brasil. Algumas variedades de sorgo, conhecidas como “à prova de pássaros” comercializadas nos EUA tem alto teor de tanino (que é o que lhes confere essa propriedade).

Outro exemplo de efeito associativo é o que ocorre quando se usa gordura dentro do limite aceitável. A gordura aumenta a eficiência das dietas por uma série de fatores: 1) altera o ambiente ruminal para uma fermentação mais eficiente; 2) já entrega ácidos graxos pré-formados, havendo economia na síntese desses; 3) dentro da célula, a queima desses ácidos graxos pré-formados é mais eficiente do que a energia obtida partir da queima dos ácidos graxos voláteis.

Por isso que o caroço de algodão, que tem cerca de 200 g de gordura/kg de MS (20%), tem sido largamente utilizadas em confinamentos com excelentes resultados. Por outro lado, ele tem sido implicado em problemas de sabor na carne. Esse assunto ainda não foi elucidado pela pesquisa, mas há evidências que, desde que usado dentro do limite que não faz a dieta ultrapassar do nível máximo recomendado de gordura (já citado acima), não haveria prejuízo ao sabor da carne.

Outra situação interessante que envolve efeito associativo é, ao estar decidindo entre usar o milho ou sorgo na dieta, usar ambos, pois talvez seja a melhor opção. A razão para isso seria que eles têm velocidades de degradação diferentes, sendo a do milho maior que a do sorgo e, dessa forma, a mistura deles resultaria em uma quantidade de energia fermentável mais bem distribuída no tempo que, assim, sincroniza melhor com a degradação de outros nutrientes (proteína, principalmente) e aumenta a chance de ser mais bem aproveitada pelos microrganismos ruminais. Mas é difícil dizer, de fato, o quanto objetivamente estamos melhorando a dieta com essa decisão.

Esse é o grande problema com o efeito associativo: a maioria é difícil de ser bem quantificada, de maneira a sabermos até que ponto compensa gastar mais para justificar usá-las. Nesse ponto, a escolha dos ingredientes que serão testados em formulações e os que serão efetivamente escolhidos exige mesclar a pura matemática dos programas de formulação de ração com outro tanto de conhecimento e a perspicácia do formulador. Assim, não é muito exagero falar na “arte de formular uma dieta”. Enquanto for assim, o computador não substituirá o nutricionista. Pela complexidade do tema, o emprego deste último está garantido ainda por um bom tempo.

Sérgio Raposo

Pesquisador da Embrapa Gado de Corte, agrônomo com mestrado (1992) e doutorado (2002) pela ESALQ/USP, especialista em nutrição animal, atuação em pesquisa com os seguintes temas: exigência e eficiência na produção animal, qualidade de produtos animais e soluções tecnológicas para produção sustentável. Nas horas vagas, toca violino e, de atividade física, nada! sergio.medeiros@embrapa.br