Causa animal ganha atenção de ONGs e do poder público

28/03/2013 21:09

 

Aproximadamente 1.200 cães vivem no abrigo da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa)

Aproximadamente 1.200 cães vivem no abrigo da União Internacional Protetora dos Animais (Uipa)

Quem é que nunca se deparou com a seguinte situação: visitar um local em que uma organização não-governamental (ONG) realizava uma ação com diversos animais, que estavam a procura de um novo lar?

Pois é, este trabalho tem se intensificado através dos anos, mas é algo que surgiu há muito tempo, com a União Internacional Protetora dos Animais (Uipa). Em 1893, o suíço Henri Ruegger, começou a se incomodar com a maneira como um cavalo era tratado na região central de São Paulo e decidiu denunciar os maus-tratos. Mas ficou indignado ao descobrir que não existia uma entidade de proteção animal no Brasil.  

Foi então que o jornalista Furtado Filho, inspirado por Ruegger, escreveu um artigo sobre os maus-tratos e publicou no jornal “Diário Popular”, o que teve como consequência uma série de manifestações em relação aos animais.

A partir disso, veio a ideia de se criar uma associação protetora dos animais no País, e então uma comissão fundou a Uipa, que teve as informações base vindas das entidades estrangeiras.  

Em maio deste ano, a associação completa 118 anos e continua com o objetivo de apoiar a criação de leis em favor da proteção aos animais e fazer com que elas fossem cumpridas. “Também temos um trabalho de assistência, com 1.200 animais recolhidos, vítimas de maus-tratos, acidentes, abandono, entre outros fatores. Eles são recuperados por uma equipe veterinária e ficam disponíveis para a adoção.  Então é uma espécie de um centro de recuperação e conforme são doados, acolhemos outros. Se eles não forem adotados, vivem em nosso abrigo até o fim da vida”, conta  a presidente da entidade, Vanice Orlandi.

Segundo ela, o número de organizações criadas para defender essa causa animal cresceu bastante, principalmente nos últimos 20 anos. “As primeiras ONGs surgiram quando a Uipa já tinha 60 anos de vida. Mas isso vem principalmente desde os anos 90 para cá, época em que pipocou demais. Isso nem sempre é bom, porque nem todas têm o mesmo discurso, as vezes não é coeso. Acredito que seria melhor terem poucas unidade fortes e bem estruturadas, com muita representatividade do que  algumas centenas e todas fracas com poucos sócios e pouco atuantes”, revela.  

Em relação ao número de adoções, Vanice é enfática ao afirmar que aumentou significativamente. “Hoje, adotar um animal é uma ideia bem mais divulgada e aceita pela sociedade do que há 20 anos, por exemplo”, explica. Antes, ou as pessoas pegavam um cachorro na rua ou compravam um de raça. Não se tinha um trabalho tão intenso em relação às feiras de adoção. “Essa com certeza foi uma boa evolução. Isso junto à lei que obriga o animal a ser castrado antes de ser doado. E todo esse trabalho de conscientização e de popularização dessa ideia se deve aos esforços das ONGs”, complementa.  

Nos últimos anos, um dos fatores que têm contribuído com esse aumento de adoções e de divulgação desse trabalho, é a Internet, e, principalmente as redes sociais. “Hoje é muito mais fácil doar um animal. Você divulga uma foto dele no Facebook, ou no fotoblog da entidade e as pessoas compartilham. Em poucos minutos, um post chega a ter cerca de 3, 4 mil compartilhamentos. Essas ferramentas potencializaram muito as chances daquele bichinho ser adotado”, explica Vanice.

Apesar de toda essa conscientização e evolução em relação aos animais domésticos, que ganham mais atenção que há tempos atrás, a presidente da entidade alerta para outros problemas. “Falta conquistar alguns direitos ainda, porque hoje em dia muitos animais não têm mais nem direito a vida. A criação intensiva de animais de corte, por exemplo, tirou o direito a vida do animal, porque antigamente ele era morto depois de viver solto, no pasto, por alguns anos. Dos anos 80 para cá, piorou muito por conta dessa criação industrial. Muitos morrem sem ter pisado na grama, sem ter visto a luz do dia, morrem depois de semanas de vida”, ressalta.  

Os cães e gatos, em compensação, conseguiram importantes conquistas, como ser considerado crime a eliminação de um animal no Centro de Controle de Zoonoses que não esteja doente, que esteja com alguma enfermidade curável ou não contagiosa. “Também é uma evolução. Outro ponto importante foi aqui no município de São Paulo, a proibição da circulação de veículos de tração animal. Nosso maior problema não é ter leis, mas ter autoridades que as cumpram. A lei e  a pena são muito brandas e a pessoa não perde a primariedade. Ela nunca vai presa e na maioria das vezes nem responde a processo, é beneficiada pela transação penal”, completa.

Legislação

Com o passar dos anos, diversas leis em prol da causa animal ganharam a atenção de políticos. Um dos exemplos é o vereador Roberto Tripoli, que como principal mote de campanha tem o bem estar dos bichinhos. “Nasci assim. Desde criança comecei a colaborar e sempre fui sensível a essa questão, tanto que aos 18 anos de idade comecei a militar no movimento ecológico”, conta.

O vereador é o autor de algumas das principais leis que favorecem os animais, como a implantação do Centro de Triagem dos Animais Silvestres (Cetas) e Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras); a lei de esterilização de cães e gatos com campanhas; posse responsável; e a criação do 1º Hospital Veterinário Público para Cães e Gatos. “Acho que cabe ao estado não só cuidar dos humanos, mas de todos os seres vivos. As entidades ambientalistas sempre fizeram esse trabalho, mas cabe ao estado ser responsável por esse direito”,   afirma Tripoli.

Segundo ele, a batalha para fazer desse projeto uma realidade foi muito complicada. “Nunca tive nenhum prefeito sensível a essa questão. Só consegui sensibilizar o prefeito Gilberto Kassab, que colaborou com este projeto e tenho a certeza que o prefeito Fernando Haddad vai dar sequência e criar outros hospitais públicos para cães e gatos. Um na zona norte e outro na zona sul. Será o segundo de fato, porque o primeiro foi na zona leste. E mais para o fim do ano deve-se inaugurar um na zona sul”, revela o vereador.

Para ele, existe essa dificuldade na conscientização das pessoas por uma questão cultural. “Antigamente os pais incentivavam as crianças a atirarem o pau no gato, usar estilingue, a chutar cachorro. Mas isso virou um novo conceito e as pessoas de fato, aprenderam que o animal doméstico faz parte do cotidiano, da vida urbana. Faz bem ao ser humano”.

“Temos muitas pessoas que ainda estão vivas graças aos animais domésticos, porque perderam um pai ou um filho. No meu entendimento, o animal tem os mesmos direitos que os humanos, porque, fica magoado, triste, contente, namora, tem filhos. Só a comunicação com eles que é diferente. Por isso digo, quanto mais  conheço o ser humano, mais gosto dos animais. Você tem ali um amigo, independentemente da sua situação financeira, ou da situação de saúde”, finaliza o vereador.