Cana-de-açúcar pode servir de alimento para cabras leiteiras. Pesquisa de Botucatu propõe medida para baratear custo de produção

10/08/2012 19:17

 

Um estudo da Unesp de Botucatu, com colaboração do Câmpus de Jaboticabal, demonstrou que o uso da cana-de-açúcar na alimentação de cabras pode ser tão eficaz quanto a adoção da tradicional silagem de milho. O resultado representa uma alternativa mais barata e ideal para pequenos produtores.

Comumente, a dieta de cabras leiteiras é composta por volumoso e por concentrado, em relações diferentes de acordo com a categoria animal e com o tamanho da produção. A silagem de milho é quase sempre utilizada como volumoso para animais de elevada produção leiteira. O experimento da Unesp usou a cana-de-açúcar in natura picada como substituto da silagem de milho na alimentação de cabras.

Gil Ignácio Lara Canizares, autor da pesquisa, testou a dieta em animais da fazenda experimental de Botucatu e em diferentes proporções – 100% silagem de milho no volumoso; 33% de cana e 67% de silagem; 67% de cana e 33% de silagem; e 100% de cana-de-açúcar. Nos quatro casos não houve variações no volume de produção de leite e nem nos parâmetros de digestibilidade dos nutrientes ou mesmo no teor de proteínas, lactose, gorduras e sólidos totais do leite de cabras.

Canizares fez o estudo durante seu doutorado defendido em 2011, sob a orientação de Heraldo César Gonçalves. O pesquisador é zootecnista formado pela USP de Pirassununga e, além do doutorado, fez mestrado em Nutrição de Pequenos Ruminantes na Unesp. Atualmente, é professor contratado na Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Artigo de luxo

Em média, o leite de cabra é menos calórico, tem mais cálcio e menor teor de colesterol do que o de vaca, além de ser considerado de mais fácil digestão. O preço, entretanto, ainda torna o produto e seus derivados pouco habituais na alimentação dos brasileiros. Em São Paulo, enquanto o litro do leite integral de vaca sai a R$ 1,80, o de cabra longa vida custa R$ 6 – mais do que o triplo do valor. Isso porque o produto já parte das fazendas a R$ 2,20 o litro.

De acordo com Gil, o barateamento dos custos de produção de caprinos é fundamental para a expansão do setor. “E sem a diminuição das despesas, fica muito difícil para o pequeno produtor participar desse mercado.”

Vantagens e desvantagens

A produção de leite de cabra pode ser influenciada por diferentes aspectos, como genética, saúde e manejo, mas o fator mais determinante é a alimentação que os animais recebem. Por isso, conforme explica Canizares eventuais substituições na dieta devem ser feitas de modo criterioso.

A silagem de milho, assim como feno, é uma fonte rica em proteína, carboidrato e pode ser armazenada por longos períodos. Sua aquisição, entretanto, é considerada cara e sua produção é sazonal e requer uma ocupação mais extensa do solo.

Já a cana-de-açúcar pode ser produzida em épocas críticas de cultivo de alimentos por ser adaptada ao tempo seco, além de ser largamente difundida no país. Assim, ela ajuda a estabilizar a produção leiteira ao logo do ano. Por outro lado, é considerada um alimento desbalanceado para alimentação animal porque, embora tenha alto índice de carboidrato, tem baixo teor de proteínas e minerais e fibras de baixa degradação ruminal.

Por isso, no experimento, o zootecnista usou uréia para elevar o teor de proteína da dieta que continha cana e adicionou suplemento para corrigir a concentração de minerais. “A administração da uréia deve ser feita com muita atenção, já que ela é potencialmente tóxica e pode matar o rebanho”, alerta o pesquisador.

No caso da produção em larga escala, quando os animais têm uma alta performance, a substituição da cana-de-açúcar por silagem de milho pode não ser indicada, já que a silagem ainda garante um maior fornecimento de energia. “Mas para pequenos produtores, que é o foco da nossa pesquisa, a troca é ideal porque racionaliza os custos”, diz Canizares. “O agricultor pode manter uma pequena plantação de cana em sua propriedade e cortar só o que vai usar diariamente, já que, como gramínea, a cana tem excelente crescimento.”

 

Fonte - UNESP

Cínthia Leone