Brasil vende guzerá leiteiro por avião para o Senegal

31/01/2015 09:46
viracopos_guzera_boi (Foto: Teresa Raquel Bastos / Ed. Globo)

Longe do saguão de passageiros do aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), o cheiro de estrume no terminal de cargas já dá o "perfume" do que está atrás do portão de bloqueio: 194 cabeças de gado guzerá com destino ao Senegal, encomendadas pelo Governo Federal de lá.  São 20 touros, 109 vacas e 65 bezerros ao pé. Na segunda-feira (26/1), os animais foram colocados em baias num avião cargueiro, e às 22h15 decolaram.

A compra, intermediada pelas empresas GBC, AIB Internacional e Alvo Agro, sinaliza uma relação mais próxima entre Brasil e o país africano, que busca diminuir a dependência de importação de leite e o combater a fome. Os animais serão distribuídos a famílias senegalesas com dinheiro público.

O Brasil venceu uma disputa licitatória com a França por ter uma melhor qualidade genética e um gado rústico que atende às necessidades que o clima subsaariano pede. Uma raça europeia provavelmente sofreria com a adaptação. A escolha do zebuíno também não foi em vão: criar guzerá significa "status" para o pecuarista, além da alta produtividade leiteira e de corte.
viracopos_guzera_boi (Foto: Teresa Raquel Bastos / Ed. Globo)

Por ter essa "grife", o transporte tinha que ser de luxo. Os animais foram enviados de avião em "classe executiva" para prover bem-estar aos bois. A viagem aérea até o Senegal dura quase sete horas a partir de São Paulo. De navio, meio tradicional para o transporte bovino entre países, leva até 22 dias.

A escolha do modal é determinada pela quantidade dos animais embarcados – em um rebanho grande, acima de mil cabeças e de valor mais comercial, o indicado é a exportação via oceano. Já quando a raça é mais nobre, e em menor quantidade, a empresa de consultoria sugere aviões cargueiros. “Nesses casos vale o investimento”, explica a zootecnista Fabiana Guandalini, proprietária da Alvo Agro. Cada exportação via aéreo custa entre US$ 750 mil e US$ 1 milhão. “Quem paga o valor dessa operação não é um simples pecuarista, e sim um apaixonado por gado. Nunca é só comércio”, complementa.

viracopos_caixa_boi (Foto: Teresa Raquel Bastos / Ed. Globo)

O boeing 747 da Cargolux, empresa sediada em Luxemburgo, tem capacidade para 755m³ e viajou para o Senegal levando 34 caixas de madeira, cada uma com cinco exemplares de guzerá transportados em pé (para que  nenhum deite e seja pisoteado), e sem água nem comida. Machos e fêmeas viajam separados, em gaiolas de madeira medindo 3 metros x 2,30 metros, com o piso coberto por palha de arroz, uma manta absorvente e uma “fralda”, como é chamado o plástico que reverte a caixa pelo lado de fora para que a urina altamente corrosiva não danifique o piso do avião. Para compensar a transpiração do boi, a temperatura é regulada para 15°C. Até o destino final, nenhum animal morreu, segundo informou Cristiano Lima, proprietário da GBC, que viajou junto.

Omar Thiam, veterinário e dono da empresa senegalesa de mantimentos Soprodel - sediada em Dakar e vencedora da licitação, veio do Senegal pela segunda vez para escolher e comprar do rebanho. Na primeira, a remessa saiu do Rio Grande do Norte, no começo de janeiro, com 140 animais. As negociações entre os dois países devem durar cinco anos, envolvendo quase mil cabeças de guzerá.

Logística

A operação é complexa, requer atenção a detalhes. Envolve as três empresas de logística (GBC, AIB e Alvo Agro), além da Receita Federal e Ministério da Agricultura dos países negociantes, que fazem um protocolo exigindo vacinas e exames específicos. Os animais, escolhidos pelo cliente com consultoria da Alvo Agro, seguem para a quarentena na fazenda da empresa em Uberaba (MG), que é fiscalizada pelo Ministério brasileiro.

Todo o ambiente é esterilizado, até os carros e funcionários que ingressam na propriedade. Depois de confinados, a cerca é lacrada e só é reaberta por funcionários do Mapa na véspera da viagem. Após conferidos e aprovados, seguem viagem com a documentação completa. “É como se fosse um passaporte, com número de registro e a carteira de vacinação exigida. Tudo o que foi feito com o animal é documentado”, explica a zootecnista Fabiana Guandalini.
viracopos_caixa_boi_aviao (Foto: Teresa Raquel Bastos / Ed. Globo)

 

 

Os animais viajam de caminhão de Uberaba até o aeroporto de Campinas. Eles já adentram no veículo de uma forma que fiquem confortáveis no caminho e também de um jeito que facilite o desembarque. “Em nenhum momento o animal é tocado usando choques ou algo que os machuque. Usamos bandeirinhas, que são eficientes”, explica Fabiana. Para o percurso, a Alvo Agro também leva “uma lancheira” com comida e, para os bezerros que precisam, mamadeiras com leite.

No aeroporto de Viracopos, os bois ficam concentrados no curral construído no terminal de cargas em 2002. Essa estrutura fez com o que o local fosse o preferido para exportar via aéreo os animais no Brasil. No aeroporto de Natal (RN), foi preciso que a GBC construísse um estábulo privado capaz de condicionar os “passageiros” bovinos. Nesses locais, o plantel se alimenta antes da viagem, já que não há “serviço de bordo” e as vacas viajam separadas dos bezerros, não podendo amamentar.

Horas antes do embarque na aeronave, o gado é “embalado” nas caixas, que têm a porta de madeira lacrada com pregos e recebem identificação do Ministério. Só serão reabertas no Senegal.  As caixas são embarcadas pelo bico do avião e pela entrada traseira.

Durante o voo, um veterinário viaja junto e desce da cabine de passageiros até o compartimento de cargas para conferir se todos os animais estão bem. Caso algum esteja mais agitado, é aplicada uma dose de sedativo para seguir viagem.

Carga rock n’roll

O aeroporto de Viracopos está entre os principais terminais de carga do Brasil. Desde 1960 na ativa, o local foi palco de histórias curiosas. Funcionário de longa data, Oswaldo Canecchini Filho, proprietário da empresa de handing ACC, coleciona algumas delas. Presenciou a chegada de uma baleia vinda do parque aquático norte-americano SeaWorld, de uma girafa para um zoológico e até avestruzes após o boom de criação para consumo da carne por volta na década de 2000. Mas quanto questionado sobre a história mais bizarra, ele relata a vinda do roqueiro Alice Cooper. Em 1974, o cantor trouxe animais exóticos para a apresentação.

viracopos_caixa_boi_carioca (Foto: Teresa Raquel Bastos / Ed. Globo)

“O cara trouxe umas seis cobras para o Brasil, e havia nos comunicado. Só que ele embalou os animais em uma caixa de madeira frágil. Quando fui abrir o compartimento de malas do voo, no meio das malas e instrumentos musicais, estavam as cobras soltas. Quase tive um treco! Tivemos que chamar os bombeiros e quase que o cantor não fazia o show”, conta aos risos. "O gado é grande, mas é mais fácil de transportar. Não tem tanto susto".

Fonte: Globo Rural