O Clã da Revolução Azul

07/02/2013 21:27

 

 

Dinheiro Rural

Criar peixe em cativeiro foi a fórmula encontrada pelo pecuarista Antônio Carlos Lopes do Amaral para manter os três filhos no agronegócio.

Time de campo: Ramon (à esquerda), Amaral e Felipe apostam no crescimento da piscicultura em tanques-rede, enquanto o outro filho, Guilherme, toca as fazendas de gado em Mato Grosso

Há pouco mais de 25 anos, o zootecnista Antônio Carlos Lopes do Amaral, hoje com 57 anos, deixou de trabalhar nas fazendas de gado do pai, em Santa Fé do Sul, município do interior paulista, distante 640 quilômetros da capital, e se mudou para Pontes e Lacerda, em Mato Grosso, a 460 quilômetros de Cuiabá. Entre os dois extremos – Santa Fé do Sul e Pontes e Lacerda – são quase 1.600 quilômetros e 20 horas de viagem por rodovia. Em Mato Grosso, Amaral fez a vida como pecuarista e hoje é dono de 20 mil hectares de terras e 30 mil animais da raça nelore. Também construiu uma família: teve três filhos, o mais velho, Ramon, e os gêmeos, Guilherme e Felipe, que todos os dias viajavam 80 quilômetros de ida e volta à escola mais próxima da fazenda. Saldo da história? Quase três décadas depois, a família tem mais um zootecnista e dois veterinários. Com os filhos formados, Amaral decidiu que era hora de novamente mudar o rumo da vida.

Sem abandonar a pecuária, em 2006, o time de zootecnistas e veterinários de sobrenome Amaral iniciou mais um negócio, desta vez na água, ao apostar na criação de peixe em cativeiro e fazer o caminho de volta a Santa Fé do Sul. “O peixe serviu para unir a família e fazer com que os três irmãos trabalhassem juntos, embora de forma independente”, diz Amaral. Ao todo, a família já investiu R$ 15 milhões em uma fazenda d’água, uma fábrica de ração e um frigorífico, a partir de um aporte inicial de capital de R$ 700 mil. “Tudo o que ganhamos nestes cinco anos, reinvestimos”, diz Amaral. “E estamos só começando nosso negócio de piscicultura.”

Amaral e os três filhos estão de olho na chamada revolução azul, nome dado na última década ao desenvolvimento da produção de pescados em todo o mundo, que é uma referência à revolução verde ocorrida na agricultura no final da primeira metade do século passado. Ao utilizar novas tecnologias, os agricultores multiplicaram a produção das lavouras de grãos, em especial com fertilizantes cada vez mais potentes. Na revolução azul, o movimento acontece sem muito alarde, mas vai ocupando espaços cada vez maiores, como os dos reservatórios de água das usinas que produzem eletricidade. Em todo o País, são mais de dez milhões de hectares de lâmina d’água, dos quais metade está disponível à aquicultura em 23 hidrelétricas. Nesses reservatórios, de modo geral, a tilápia é a espécie que mais tem se adaptado às técnicas disponíveis. Santa Fé do Sul está à beira de um desses reservatórios, o da hidrelétrica de Ilha Solteira – em potência, a terceira maior do País, atrás de Itaipu e Tucuruí –, com uma lâmina d’água de 1.195 quilômetros quadrados de extensão.

Produção: os peixes são criados em 350 tanques, em área arrendada, mas serão transferidos para uma fazenda própria ainda este ano

Para iniciar o negócio na aquicultura, Amaral não fugiu à regra: investiu na tilápia. “Visitamos todos os projetos de criação e os poucos frigoríficos de abate de peixes na região para chegarmos ao nosso modelo de produção”, diz Amaral. Entre 2006 e o início de 2009, quando foi inaugurada a fábrica de ração, a família fechou o que eles consideram o primeiro ciclo do negócio. Na divisão de trabalho, o veterinário Guilherme, um dos gêmeos, ficou encarregado de tocar as fazendas de gado e permanece em Mato Grosso. Na piscicultura, Amaral colocou à frente da produção de peixe e do frigorífico o filho mais velho, o veterinário Ramon. O outro gêmeo, Felipe, que também é zootecnista como o pai, administra a fábrica de ração, que atualmente produz 20 mil toneladas, por ano, de alimento destinado a cavalos e peixes. “Além de suprir nossas necessidades, cerca de 25% da produção, a fábrica vende o excedente e deve cada vez mais ganhar escala”, diz Felipe.

Atualmente, a fábrica fornece ração para 37 dos 45 piscicultores que criam em tanques-rede na região de Santa Fé do Sul. “Nosso próximo passo será entrar no competitivo mercado pet, com rações para cães e gatos.”

Integrados: a fábrica de ração produz 20 mil toneladas por ano, com 25% para consumo próprio. No frigorífico, são processadas 160 toneladas de peixe por mês

A produção de tilápia na fazenda d’água começou com três hectares arrendados e 150 tanques-rede de 21,6 metros cúbicos cada um. Hoje são 350 tanques e nos próximos meses a produção será transferida para uma fazenda própria, com oito hectares de lâmina d’água. Além da transferência dos tanques antigos, a nova fazenda está ganhando mais 20 tanques-rede com capacidade seis vezes superior aos atuais.

Hoje, a produção de tilápia é de 120 toneladas por mês. “Com a nova fazenda, vamos dobrar essa produção porque o frigorífico está ocioso”, diz Ramon. Inaugurada em 2008, a empresa funciona com um turno de seis horas por dia, mas poderiam ser três turnos de abate. Para ampliar a utilização da capacidade instalada, são compradas 40 toneladas de peixe por mês de criadores da região, totalizando 160 toneladas. “No ano passado, chegamos a comprar 100 toneladas por mês, porém neste ano está faltando peixe”, diz Ramon. As duas principais razões foram o inverno rigoroso, com a queda natural da produção, e o abate informal de peixe pelos próprios criadores, que os vendem diretamente ao consumidor final.

Segundo Ramon, para cobrir a atual demanda do frigorífico seria necessário abater 13 toneladas de peixe por dia, 260 toneladas por mês, quase o dobro do que vem sendo registrado. “No médio prazo, acreditamos numa expansão da demanda por peixe ainda maior”, diz Amaral.

Grandes redes: os peixes precisam ser abatidos e enviados aos consumidores em um período máximo de 24 horas

Por isso, além do aumento da criação de peixes na fazenda própria, o frigorífico também está em obras, com as instalações sendo ampliadas para o abate de 25 toneladas de peixe por dia, o que daria 500 toneladas por mês. “A piscicultura vai crescer na região e mesmo com o abate informal de peixes vamos nos abastecer aqui mesmo”, afirma Ramon. Essa previsão tem fundamento. As capturas de peixe na natureza estão no limite e a oferta mundial de pescado deverá acontecer através da oferta dessa espécie criada em cativeiro. A projeção para 2050 é de uma produção mundial de 240 milhões de toneladas de peixes e crustáceos, o dobro da atual, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). No ano passado, a produção brasileira de pescado foi de 1,2 milhão de toneladas, das quais 460 mil foram produzidas em cativeiro, conforme o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). “O consumo de cerca de sete quilos de peixe per capita ao ano no País é muito pequeno se comparado à média mundial, acima de 16 quilos”, diz Ramon. “Mas esse quadro deve mudar e a tilápia está mostrando isso. Há 10 anos pouco se falava a respeito desse peixe”, diz Amaral. Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Tilápia (ABTilápia), a atual produção é estimada em 130 mil toneladas por ano, quase quatro vezes mais do que se produzia há uma década. Pelos dados do MPA, o crescimento da criação de peixe em cativeiro, no Brasil, com destaque para a tilápia, mas incluindo também a carpa, o tambaqui e o curimatã, tem sido de 6,6% ao ano nas últimas décadas, o dobro do crescimento médio mundial.

Os principais clientes dos peixes da família Amaral são as redes de supermercados Pão de Açúcar e o Carrefour. Do frigorífico saem por mês 44 toneladas de filé e entre 10 e 15 toneladas de peixe inteiro, que são todas vendidas ao Carrefour. Da produção de filés, 13 toneladas vão para o Pão de Açúcar. “Vendemos para essa rede o filé fresco, que deve chegar à loja em um intervalo de 24 horas, entre a despesca e a entrega ao consumidor”, diz Ramon. “É um bom negócio, porque o peixe fresco agrega valor à nossa marca.” O restante dos filés, 31 toneladas por mês, vai para supermercados e restaurantes da região. Para a produção destinada ao consumidor final, o clã Amaral criou a marca Brazilian Fish. “O foco é o mercado interno, mas, quem sabe, no futuro, não seja também uma opção a exportação do nosso pescado”, diz Amaral. “O nome da marca faz jus à produção e já está em uma língua que o mundo entende.”