Avicultura: técnicas no campo avançam mais de 20% com auxílio da ciência

05/04/2016 14:18
Em um espaço de tempo relativamente curto, o Brasil se tornou o maior exportador e um dos maiores produtores mundiais de carne de frango. Foto: Divulgação

Em um espaço de tempo relativamente curto, o Brasil se tornou o maior exportador e um dos maiores produtores mundiais de carne de frango. Foto: Divulgação

A avicultura brasileira, em especial a dedicada à produção de carne de frango, desde sua introdução no Brasil, dos modelos padronizados e tecnificados, após a década de 1950, sempre foi uma cadeia produtiva ágil e dinâmica na busca e utilização de novas tecnologias, tanto naquelas geradas no País quanto nas demais nações. É o que destaca o pesquisador Dirceu João Duarte Talamini, da Embrapa Suínos e Aves (SC).

Ele é responsável por um estudo, realizado em parceria com o cientista Antônio Pinheiro, da Universidade Évora, de Portugal, que aponta: entre os anos de 1982 e 2010, a pesquisa científica foi responsável por 20,8% do progresso técnico do setor avícola nacional.

“Os processos de produção tem se modernizado continuamente e a ciência foi fundamental para os avanços obtidos nos índices de eficiência técnica e econômica da atividade avícola. Mas também é importante destacar o papel dos produtores rurais e das agroindústrias na adoção das novas tecnologias bem como o das empresas privadas na geração de inovações para a cadeia de frango de corte”, salienta Talamini.

Segundo ele, em um espaço de tempo relativamente curto, o Brasil se tornou o maior exportador e um dos maiores produtores mundiais de carne de frangos.

“O consumo per capita também teve um crescimento formidável e atualmente a carne de frango supera o consumo das demais carnes no País. Devemos lembrar que, poucos anos atrás, a carne bovina era a preferida dos brasileiros e a mais consumida; hoje, a de frango ocupou esta posição. Então, podemos afirmar que a ciência está presente em todas as etapas da produção da avicultura, desde o campo até a mesa do consumidor.”

 

NOVAS TECNOLOGIAS

Conforme dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), nos anos 70 um frango consumia 2,2 quilos de ração, durante 54 dias, para atingir 1,8 kg no abate. Em 2013, em média, cada frango abatido no Brasil consumiu 1,8 kg de ração, durante 43 dias, para atingir 2,5 kg.

Na opinião de Talamini, tais mudanças só foram possíveis com o apoio da ciência. “A cadeia produtiva inicia no campo com a produção do frango vivo que é levado à indústria para o abate e processamento. Os sistemas de produção sempre foram tratados como um todo e otimizados para cada região produtora. O desenvolvimento de linhagens melhoradas geneticamente foi um dos pilares da moderna avicultura brasileira e mundial”, cita.

De acordo com o pesquisador, os aviários foram desenvolvidos visando atender aos requisitos de conforto e bem estar para as aves. “Da mesma forma ocorreu com a alimentação, com as rações balanceadas, formuladas para atenderem às exigências nutricionais dos animais em quantidade, qualidade e a custo mínimo.”

Ele ainda ressalta que a automação no fornecimento de água, da alimentação e do controle ambiental também são avanços significativos. “O manejo sanitário, vacinas e outros insumos, para manter a saúde do planteis e permitir a expressão do potencial produtivo dos animais, também utilizam conhecimentos científicos avançados. Enfim, toda a cadeia baseia-se em conhecimentos técnicos, organizacionais e da logística.”

 

 “O manejo sanitário, vacinas e outros insumos, para manter a saúde do planteis e permitir a expressão do potencial produtivo dos animais, também utilizam conhecimentos científicos avançados. Enfim, toda a cadeia baseia-se em conhecimentos técnicos, organizacionais e da logística”, destaca o pesquisador Dirceu Talamini, da Embrapa Aves e Suínos (SC). Foto: Divulgação

“O manejo sanitário, vacinas e outros insumos, para manter a saúde do planteis e permitir a expressão do potencial produtivo dos animais, também utilizam conhecimentos científicos avançados. Enfim, toda a cadeia baseia-se em conhecimentos técnicos, organizacionais e da logística”, destaca o pesquisador Dirceu Talamini, da Embrapa Aves e Suínos (SC). Foto: Divulgação

O modelo de produção integrada, por exemplo, tem favorecido a rápida adoção de tecnologias modernas e mais eficientes, exemplifica. “No meu ponto de vista, não houve uma tecnologia específica que revolucionou a avicultura brasileira, mas um conjunto equilibrado de melhorias que, somadas à boa coordenação das cadeias, incluindo aqui ações das empresas privadas, das entidades de representação e também do setor de serviços públicos, além da necessidade de competir no mercado internacional, colocaram a avicultura no patamar em que se encontra.”

 

PAPEL DA EMBRAPA

Na história de crescimento da avicultura nacional, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária teve papel importante. “A Embrapa, que iniciou suas atividades avícolas em 1978, teve um papel importante no crescimento sustentado da avicultura no Brasil. O corpo técnico de especialistas em aves da instituição, apesar de pequeno para o tamanho e importância econômica e social da atividade, contribuiu muito oferecendo soluções tecnológicas aos problemas que surgiram na implantação e consolidação da avicultura.”

Talamini também destaca que, desde a sua implantação, a Embrapa sempre trabalhou em cooperação com os produtores rurais, empresas públicas e privadas, com os sistemas de pesquisa dos Estados brasileiros e com as universidades.

“As contribuições da pesquisa no País ocorreram por meio de conhecimentos cristalizados em produtos e, principalmente, por conhecimentos que avaliavam, testavam e adaptavam sistemas de manejo, insumos e produtos desenvolvidos no Brasil e no exterior, que tinham potencial de melhorar o desempenho da nossa cadeia produtiva.”

Dentre muitos resultados, salienta o pesquisador, é possível citar os estudos que permitiram maior controle da temperatura interna dos aviários por intermédio do uso dos forros; os testes de vacinas para bronquite aviária; o desenvolvimento dos antígenos para micoplasma; a determinação da composição química dos ingredientes para ração e das exigências dos animais; o manejo e a utilização econômica dos resíduos da criação; os métodos de gestão de propriedades, da determinação dos custos de produção; e ainda da conciliação de interesses nas relações produtores e indústria.

 

PROJETOS EM EXECUÇÃO

De acordo com Talamini, existem inúmeros projetos em execução, voltados para a avicultura, contemplando as diversas áreas do conhecimento, com o objetivo de continuar com a modernização da atividade.

“Uma das iniciativas mais recentes se refere a ações que visam ao desenvolvimento de conhecimentos e técnicas que contribuam para a modernização da avicultura de postura brasileira, composta de inúmeras pequenas e médias criações. Estudos também estão sendo realizados sobre conforto e bem estar dos frangos, que devem obter novos padrões para a ambiência na produção de frangos.”

Na mesma linha, informa o pesquisador, estão em elaboração novos projetos relacionados ao uso de métodos de nutrição de precisão. “Além dos processos técnicos importantes para a produção, existem também demandas do setor produtivo por contribuições da pesquisa que aperfeiçoem legislações, normas e serviços reguladores e fiscalizadores da produção.”

Enquadram-se nesta categoria “os estudos de política agrícola – como o seguro rural, a lei das integrações, a movimentação de estoques de ingredientes para ração, o apoio à exportação –; as proposições que melhorem as normas e a legislação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), como a modernização dos procedimentos utilizados no Serviço de Inspeção Federal (SIF) na avicultura, que atendam aos padrões internacionais e os novos conceitos de segurança dos alimentos, por exemplo, considerados muito importantes para a sustentabilidade da avicultura pelo setor produtivo”.

 

Por equipe SNA/RJ