'Estamos na era da conscientização animal'

01/10/2013 21:50

O filósofo Peter Singer afirma que mais importante do que estudar a consciência dos animais, é zelar pelo bem-estar deles

por Rafael Tonon
Editora Globo

O filósofo Peter Singer, professor da cátedra de bioética da Universidade de Princeton, defende uma regulamentação universal que preze pelos direitos dos animais, de forma a garantir o fim dos maus-tratos e uma vida digna a todos eles. Militante e um dos principais teóricos do mundo dessa questão, Singer virá ao Brasil para participar do evento Fronteiras do Pensamento e conversou por telefone com a GALILEU na entrevista que se segue. 

* Como o senhor vê os avanços conquistados em Cambridge? 
Eu apoio totalmente a declaração de Cambridge, mas ainda não sei que alcance ela de fato terá na forma com que tratamos os animais. Já faz um ano que os cientistas assinaram o documento, mas ainda não estamos discutindo abertamente suas implicações filosóficas e científicas. Ou seja, não acho que ela teve uma real influência sobre a sociedade, apesar de eu concordar que ela foi um marco para discutirmos os direitos dos animais, uma vez que trouxe um aval científico para a questão como um consenso. Não existe mais como duvidar que polvos, porcos, gatos e cachorros são serem conscientes. 

* De que forma esse consenso entre os cientistas influencia a questão do bem-estar animal? 
Os principais avanços recentes foram no uso de animais em pesquisas científicas e na forma como os confinamos. Desde 2009 a União Europeia reconheceu que estava errado pensar em animais como “propriedades” e deu-lhes o estatuto jurídico de seres sencientes [capazes de sofrer ou sentir prazer ou felicidade]. Isso abriu as portas para os desafios judiciais contra o confinamento e maus-tratos de animais. Alguns estados americanos evoluíram nessa mesma questão. Hoje, as discussões regulamentares querem interferir para definir legalmente o tamanho mínimo das gaiolas em que as galinhas poedeiras são confinadas até proibição dos testes com chimpanzés, por exemplo. Há sinais de progresso, mas ainda carecemos de uma legislação universal sobre os animais, que deve levar muitos anos para se concretizar. 

* Como os estudos sobre o bem-estar animal podem evoluir? 
Os animais são muito distintos. A ciência pode ajudar a encontrar respostas em pesquisas específicas sobre cada espécie, buscando evidências concretas do que exatamente esses animais precisam para ter uma boa vida e quais as melhores condições que eles precisam para tê-las. Os estudos de comportamento animal podem ser decisivos para entendermos como devemos tratá-los, não violar seus instintos nem submetê-los a situações de estresse, por exemplo. 

* Do ponto de vista moral, como acha que a sociedade vai reagir a esses estudos? 
Cada vez mais o que vai pautar as nossas relações com os animais é a transparência, vivemos uma era de conscientização. De onde vem a carne que comemos, sob quais condições elas são produzidas, os cosméticos que compramos foram testados em animais? Essas preocupações vão crescer exponencialmente na nossa sociedade, que será cada vez mais intolerante aos maus-tratos. Produtores terão que investir em câmeras em suas fazendas para mostrar aos consumidores que seguem os preceitos de bem-estar animal. 

* E como isso pode mudar nossos hábitos? 
A conscientização sobre os direitos animais vai se tornar algo muito mais corriqueira, o que fará com que muitas pessoas diminuam ou até deixem de comer carne. O consumo de cosméticos, couro e até a compra de animais de estimação também deve sofrer mudanças. Ainda é cedo para prever, mas vamos mudar nossa forma de se relacionar com eles.

Fonte Revista Galileu