Agricultura familiar aposta na criação de cabras leiteiras

17/11/2014 19:41

Em vários municípios do Estado do Ceará, como Canindé, Caridade, Itatira, Paramoti, Tauá, Quixadá, Tejuçuoca, Morada Nova e Banabuiú, a atividade vem crescendo nos últimos anos graças ao associativismo e aos recursos liberados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS).

Além disso, têm sido fundamentais ações de campo desenvolvidas pelo Instituto Agropolos do Estado e Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), escritórios da Ematerce local e regional, sindicatos dos trabalhadores rurais e secretarias de agricultura municipais.

Nesses nove municípios, o plantel gira em torno de 85 mil cabeças de caprinos, oriundas do projeto do Governo do Estado intitulado cabra leiteira.

O projeto social de ovinocaprinocultura leiteira e de corte está mudando a vida de muitas famílias de áreas de assentamentos na maioria integrantes do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf).

Conforme o zootecnista da Ematerce de Canindé, Samuel Pimenta, assessor regional responsável pela cadeia produtiva na região, o projeto tem um grande valor social e traz resultados positivos para as famílias carentes do Semiárido.

"A ideia da SDA, no decorrer das ações, é a distribuição, a todas as famílias beneficiadas, de sementes para reservas estratégicas, entre as quais, o sorgo forrageiro, feijão guandu e palma forrageira, além de promover a capacitação para os criadores em manejo alimentar, sanitário e reprodutivo de animais, além da gestão associativa e cooperada, enumera.

Para participar do projeto de cabras leiteiras e corte, os produtores participam de dias de campo para produção de silagem, feno, ração, mineralização e missões técnicas. "Um fato que nos deixa animados é que, após a entrega dos animais, os criadores já fazem a ordenha e se beneficiando do leite caprino. O público-alvo desse projeto são as famílias que participam da Bolsa Família", acrescenta o secretário de Desenvolvimento Agrário do Estado, Nelson Martins.

Os recursos são da ordem de R$ 2,5 milhões. Na opinião de Nelson, a criação de cabras é uma das grandes potencialidades da região. A caprinocultura de corte e leite fortalece a cadeia de segurança alimentar. "Enquanto os criadores de bovinos estão com as mãos na cabeça para salvar seus animais, os criadores de caprinos encontram mais facilidades de conviver com a seca ou estiagem. Nunca ouvir dizer que um bode ou uma cabra venha a morrer de fome ou sede numa seca", diz Nelson.

Os prefeitos de Canindé, Celso Crisóstomo; Itatira, Antônio Almir; Caridade, Simone Tavares; Paramoti, Samuel Boyadijian; e de Tejuçuoca, Valmar Bernardo lembram que a produção dos agricultores familiares será destinada para o Programa do Leite Fome Zero. As compras no Estado já somam até cinco mil litros de leite caprino por dia a um preço de R$ 1,20. "Não existe comunidade nenhuma no mundo que consiga sair da zona de pobreza sem antes apostar na produção do campo, principalmente por meio da agricultura familiar", garante o prefeito de Canindé Celso Crisóstomo.

Inclusão

Na visão do prefeito de Tejuçuoca Valmar Bernardo, o leite de cabra é potencialmente tido como um produto de inclusão da agricultura familiar no mercado, notadamente no Nordeste brasileiro, onde a caprinocultura leiteira de base familiar vem se desenvolvendo em larga escala, dando mais uma alternativa de sustento aos produtores.

Valmar conta que a cabra foi o primeiro animal capaz de produzir alimentos domesticados pelo homem, há cerca de dez mil anos. "De lá para cá, sempre acompanhou a história da humanidade, conforme se atesta em diversos relatos históricos, mitológicos e até bíblicos, que mencionam a presença dos caprinos", salienta o prefeito da Cidade, que ficou conhecida nacionalmente com a capital do bode, por realizar uma das maiores festas agropecuária em homenagem ao animal, o 'Tejubode".

"É uma atividade que vem se desenvolvendo muito nos últimos anos. A população mundial de caprinos é estimada em cerca de 609 milhões de cabeças", salienta Valmar.

 

Resistentes e produtivas

"Há registros mostrando que as cabras existem no Brasil desde 1560. Por serem animais de menor porte e mais dóceis, foram trazidos em navios no lugar das vacas para garantir o suprimento de leite das tripulações vindas de Portugal. São pequenas, resistentes e produtivas. Apesar disso, levaram 450 anos para saltar da condição de animal de subsistência para status de espécies comercialmente rentável", explica Samuel Pimenta, zootecnista regional da Ematerce de Canindé.

O Brasil já se posiciona como 11º maior produtor de leite de cabra do mundo, com mercado estimado em 25 milhões de litros anualmente.

O leite de cabra chega a ter 30% menos colesterol que o de vaca, além de possuir menor teor de açúcar. Aproximadamente 6% das crianças têm sintomas de alergia ao leite de vaca, que podem caracterizar-se por distúrbios digestivos, corrimento nasal, otites, erupções cutâneas, entre outras alergias.

As partículas de gordura do leite de cabra são de tamanho reduzido em relação ao leite de vaca. Com isso, o leite é rapidamente absorvido, em cerca de 40 minutos, enquanto o leite de vaca demora, em média, duas horas. Deixa menos resíduos no intestino, evitando fermentação e má digestão. O leite de cabra é fonte de cálcio e vitaminas, sendo utilizado na ação preventiva e curativa de osteoporose.


Iniciativa faz sucesso com produtores da região

Canindé O sucesso do projeto para criar cabras no sertão já pode ser sentido nos comparativos feitos por Samuel Pimenta. O zootecnista afirma que se os criadores cuidarem da sanidade do rebanho, empregarem novas técnicas de manejo alimentar e reprodutivo, que possibilitem melhorias e qualidade dos animais na ampliação do plantel de maneira uniforme e saudável, todos terão sucesso.

"Com as técnicas adequadas, a redução da mortandade fica praticamente zero. Para ele, uma das raças mais adaptadas para a região do Semiárido é o Anglo Nubiano, uma raça mista tanto para carne como para leite. Já a Saaney é mais interessante para o leite. Temos também raças nativas como Canindé e Moxotó, que têm aptidão para produção de carne", diz.

"A exigência alimentar dessas raças não é tão grande. Possui excelente desempenho alimentar no ganho de peso e produção de leite. Elas são típicas de regiões semiáridas, onde o índice pluviométrico é baixo, na qual se adaptam bem às condições de escassez de chuvas, se alimentando de pastagens nativas da nossa Caatinga como, por exemplo, leucena, excelente proteína, a vagem da algaroba, feijão guandu, mameleiro, todas plantas predominantes da nossa região", ressalta Pimenta.

 

Comparação

Para mostrar a viabilidade para se criar bodes, Samuel Pimenta faz um comparativo interessante. "Uma vaca de 500 quilos come cerca de 40 quilos de forragem, diariamente, e bebe 50 litros de água por dia, o que equivale de 10 a 12 caprinos adultos durante o dia. A cabra bebe em média 12 litros de água e se mantém com 6 quilos de alimento no mesmo período. "A cabra representa um meio de alimento de sobrevivência e uma saída econômica para muitas famílias do sertão do Ceará".

A vaca para primeira cria está apta a partir de três anos e só pare um filhote dentro da normalidade. Já a cabra está pronta para cobertura a partir dos oito meses e é comum nascer dois filhotes. O intervalo entre os partos de uma vaca está na média de 18 meses; da cabra, oito meses.

 

Fonte: Antonio Carlos Alves, Diário do Nordeste